Reflexões sobre 2019

O crescimento pessoal possui uma métrica bem diferente dos demais, principalmente se o compararmos com o crescimento financeiro. No entanto, as vezes percebo que ele não recebe de nossa parte o valor devido, porque o avaliamos com os indicadores errados. Nos falta elementos de medição, assim como o tem o financeiro. Acreditamos que nossas vidas serão mais felizes quando formos capazes de medir nosso sucesso pessoal.

Desejamos para todos, em especial, nossos amigos e parentes, um ano de realizações, sucesso e tudo de bom que puder emanar de nossos desejos. Mas, sabemos que isso pouco vai adiantar, se os olhares de vocês não conseguirem enxergar no meio da tempestade. E isso, felizmente ou não, depende exclusivamente de cada um de nós.

Minha sugestão é que nessa passagem de ano todos nós fiquemos de frente ao espelho e, de forma decisiva e tranquila, olhando no próprio olho, façamos uma breve retrospectiva sobre nossas vidas, do nascimento até agora. O objetivo dessa iniciativa é que façamos uma avaliação sobre nosso crescimento pessoal, considerando as condições reais nas quais nossa vida está e foi inserida. Sempre que posso faço isso e, é comum me deparar com surpresas agradáveis.

Minha história começa quando chegamos em Fortaleza, vindos do interior, São Luís do Curu/CE, com uma malota em forma de saco e, um nó na sua boca se passando por cadeado. Éramos uma família de 5 (pai, mãe e três filhos), junto com a bagagem trazíamos a coragem e a cara (se foi de pau-de-arara não sei. Melhor que fosse, para ser igual a família da música).

Nos instalamos numa vila que tinha 17 casas, no bairro de Antônio Bezerra, ladeados por um cemitério, um patronato e uma feira que iniciava a montagem na sexta e funcionava no sábado e domingo.

Eu tinha apenas 2 anos na ocasião da mudança, cresci no bairro e estudei até onde deu. Nunca neguei minha história, até porque sempre a considerei como meu maior tesouro.

A casa ainda existe, meu irmão mais velho mora sozinho nela, nossas raízes estão enterradas lá. Na adolescência perdi meu pai, que tinha apenas 44 anos (morreu repentinamente) e, um dos meus 4 irmãos, o imediatamente mais velho que eu, que era um jovem de 26 anos (aqui conheci a violência do mundo, ele foi assassinado). Somente há 2 anos atrás, lá também, faleceu minha mãe, aos 84 anos, lúcida, mas, teve que ir (como faz um velho pescador, quando sabe que é a vez do mar).

Bem cedo entendi que vida é um pacote que tem de tudo. Lembro que um dia alguém me perguntou eu fui feliz na infância/juventude, mesmo tendo sido pobre. Estranhei a tal pergunta, porque não consegui associar uma coisa a outra. Sempre me senti vivo e, até hoje, considero esse o fator mais importante nas caminhadas que me presto a realizar.

Tive uma infância da porra! Brincava de tudo no mundo. As vezes faltava tempo para tanta coisa que eu tinha para fazer.

Jogava de bola, brincava de bila, de buraco, de triângulo, de figurinha (o que corri atrás do carro da figurinha dava pra dar uma volta ao mundo), brincava de bata, de arráia, com e sem encerol, subia em muro, tomava banho de rio (escondido, mas, tomava!), brincava de bozó, de major Filipinho, de arrêia, de jôu, de pega-pega, de 7 pecados, de esconde-esconde, de boneca, de rola-bosta, de bicicleta (alugada, mas, brincava!), dançava quadrilha junina, dançava nas tertúlias, comia galinha no Natal, bebia guaraná Champagne quando tava doente ou em grandes festas, via as luzes de Natal pelas ruas e no centro de Fortaleza, ia para tudo o que é festa de final de ano (de paletó e tudo!), jogava vólei na praia, vivia em tudo que era cinema (São Luiz, Diogo, Fortaleza, Art, Old Metrópole, Jangada), vez por outra ia ao centro passear e comer alguma coisa no Romcy ou na Lobrás (quando o dinheiro dava e, quase nunca dava!), olhava as vitrines e os produtos da Mesbla de cabo a rabo. Tinha amigos nas muitas escolas que estudei, tivemos a terceira televisão da vila onde eu morava, sua inauguração se fosse hoje, seria transmitida ao vivo, de tanta gente se matando para assistir na sala, na porta e na janela (nesse dia eu fui o “cara”), sem contar os “bãim” de mar quando menino, que me deixavam com os olhos vermelhos feito pimenta e completamente “mareado”, tonto de tanto pular nas ondas e rolar feito pedra. Chegava em casa com o fundo do calção baixo, vinha metade da areia da praia “arroiando meu feofó”.

Outra coisa que sempre conservou minha vontade de viver foi o fato de não me apegar ao passado, assim, não me tornei um crítico chato dos tempos. Nunca condenei a vida atual, sempre procurei me adaptar aos seus costumes preservando minha identidade.

Se a gente bem perceber, nunca estivemos no comando da vida e, nunca estaremos. A vida é a mão que manipula nossas cordas. Somos marionetes melhoradas, atuando num palco gigantesco e cheio de recursos.

Pode vir 2020, tenho muita coisa para fazer no seu tempo e, como sempre, espero cumprir 60 anos de travessia em você. Quero poder novamente estar revigorado para recomeçar, usando elegantemente todo o material que resistir aos seus dias, mantendo o mesmo prazer de desbravar, que ainda me é peculiar.

jrogeriobr
Enviado por jrogeriobr em 31/12/2019
Reeditado em 01/02/2022
Código do texto: T6831201
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