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POR TERRAS AMAZÓNICAS III

                                                  III
Mais de meio milhar de plantas curativas ali proliferavam, muitas eram as chamadas ervas daninhas, que esmagamos debaixo dos pés e que a nossa ignorância e nosso afastamento da natureza, apesar de uma tradição milenar, não deixam que delas nos sirvamos. Plantas utilizadas em banhos, chás, emplastros, tinturas, remédios e até para comer.
 
Nunca poderia existir num país europeu uma clínica como essa, mesmo que a Medicina Natural estivesse legalizada, mas também tenho a certeza que na Europa, tão desenvolvida, não há nenhuma clínica que ofereça tanto carinho, tanta esperança, tanto amor e qualidade de vida saudável como a da D. Mariquinha, que nunca fez o juramento de Hipócrates, mas que sempre aplicou o seu primado primeiro, que é a Humildade, princípio muito arredio de muitos dos que fizeram tal juramento.
 
Pensava encontrar na Amazónia, algo muito parecido com tudo o que já havia lido em livros, como por exemplo, uma floresta tão densa que homem algum a poderia atravessar e sabia que não ia encontrar Índios de flechas na mão, prontos a matar quem quer que se afigurasse “persona non grata”.
 
Mas provavelmente, iria encontrar jacarés, prontos a devorar quem se atrevesse a entrar nas águas castanhas de qualquer rio, dos muitos que atravessam em todos os sentidos a Amazónia, cobras e jiboias que dificilmente deixariam escapar quem quer que se atravessasse no seu habitat, as sucuris (tipo jiboias) que não só se encontram nos rios, como andam por cima das suas águas, e que eu vi, atónito, duzentos metros à frente de onde um dia tinha acabado de sair de dentro do rio para desprender uma piroga encalhada.
 
Apesar de tudo isto, ainda eram os poucos medos que me acompanhavam. Mas claro que havia mais... Um dia, estava eu na clínica da D. Mariquinha, quando sua irmã grita assustada por uma aranha que estava na cozinha, na minha inocência, pensei; chego à cozinha e faço o mesmo que já fazia em criança, pega-se a aranha por uma pata e leva-se para a rua. Quando vejo, que era uma caranguejeira maior que a minha mão, que sentindo-se atacada podia voar até à minha cara, picar-me e deixar-me agoniado, com dores por horas, não fiquei apavorado, mas afastei-me e não a matei, opondo-me a tal, o que de nada serviu pois mataram-na na mesma.
 
Encontrei um povo que se orgulha de ser Acreano, que acredita ser a sua Terra a mais bela do mundo. Uma primeira impressão, levou-me a um período muitos anos antes de ter nascido, talvez mesmo a alguns séculos atrás, época em que brasileiro ainda era sinónimo de filho da puta, devido ao facto de os portugueses terem levado de Portugal prostitutas para que não nascessem aí apenas crianças mulatas, daí essa denominação para os primeiros brancos que nasceram no Brasil.
 
Pela primeira vez, vi dezenas de macacos livres, brincando nas árvores, voltei a ver cães roendo ossos, matando e comendo gatos, voltei a ver gatos caçando ratos e comendo-os, voltei a ver vacas a arar a terra e vacas servindo de animal de carga, como uma, cujo  dono, às seis da manhã, já gritava pelas ruelas - olhó’xtrume, o melhor adube pa’ terra -  voltei a ouvir a gaita e o prégão do amola tesouras e facas.
 
Voltei a ver, não dezenas, mas centenas de papagaios, as joeiras dos brasileiros, que ainda entretêm crianças, adolescentes e adultos. Voltei a ver mulheres de bigode e peludas, pelo menos nos braços e pernas, e não digo isto com sentido pejorativo mas porque se trata de uma imagem de criança. Vi mulheres que preferem morrer (por uma questão de honra) a cortar os cabelos que lhes chegavam às pernas, vi muita mãe solteira, porque os homens fazem os filhos e pôem-se a andar.
 
Mas também vi o povo sempre em festa, aparentemente mais feliz que qualquer europeu, por tudo e por nada rindo à gargalhada, (o que é muito saudável) gente simples que vive em casas  de madeira sem pinturas ou envernizamentos. Verniz que nunca pode faltar nas unhas de uma mulher, que mais não precisa vestir que uma saia, uma blusa, calçar uma chinela e pouco mais ou menos, enquanto ao homem basta um calção e um chinelo, às vezes, que come basicamente arroz, carne e feijão, onde o rádio ainda se ouve mais que a televisão.
 
Muitas outras histórias ficam por contar, como por exemplo a da Gabi (perigoso javali?) que acabou deitando-se a meus pés e se deleitou com festinhas. Os piun’s que num instante me deixaram como se eu estivesse cheio de sarampo. O canto estridende e ensurdecedor das cigarras e a fábula de La Fontaine, o paradigma da Lua mentirosa. Chico Mendes, o sindicalista assassinado que organizou os povos da floresta na defesa desta, e como não podia deixar de ser, os Indíos e sua luta heróica pela sobrevivência, perseguidos até hoje...
 

Policarpo Nóbrega
Enviado por Policarpo Nóbrega em 14/01/2020
Código do texto: T6841795
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Sobre o autor
Policarpo Nóbrega
Portugal, 62 anos
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Policarpo Nóbrega