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SENTIMENTO INUSITADO

Esta coisa em meu peito incomoda. Não a quero, e tento atrair o sono, para que no dia seguinte a cabeça esteja leve, o coração desimpedido, e minh´alma sem compromisso algum. Sempre fui andora desgarrada, senhor de mim e dono do vento. De repente essa escravidão afetiva me aguilhoa e faz cair aos pés de uma imagem de mulher. Imagem, mesmo, porque nunca a tive nos braços, meus dedos não conhecem seus poros, meus olhos nunca foram além do rosto que sorri num quase três por quatro virtual com que troco falas, promessas e carícias não feitas.
Mas deixo estar. A noite singra numa lentidão sem fim, minhas fantasias vão além de um horizonte que excede o comum aos olhos, lá onde os montes engolem o sol, cospem a lua, e vice-versa, e deixam claro que a cena é intocável. Estará sempre à frente, se nos dispusermos a chegar lá. Sendo noite fechada, sequer vejo esse espetáculo. Sinto sombras dançando ao meu redor, traçando uma zombaria ao meu sentimentalismo temporão, pois não sou nenhum menino para ficar assim. Há uma saudade inexplicável do que nunca ocorreu, dos momentos que não vivi com ela. Talvez uma saudade profética, de um futuro que se faz viável na imaginação, no desejo latente como banda marcial.
Não quero e quero, porque ao mesmo tempo em que dói, é um desafio novo à minha capacidade de amar. Ao poder inesperado de uma esperança que julguei morta, esquecendo que ela é a última que se vai. Na verdade, cheguei a julgar que eu mesmo já tivesse ido, sem me dar conta disso. Julguei-me espírito apenado em um mundo para o qual me sentia invisível, especialmente pela falta de uma paixão. Não amor, paixão mesmo, em sua mais ventosa espetacularidade e a consumição que hoje experimento nas noites frias, ainda que sejam quentes.
Um banho. Quem sabe um novo banho contenha o incêndio e me faça ter sobras minhas para pousar no leito e sonhar dormindo. Sonhar acordado me esgotou por hoje, e preciso repor minhas forças para o trabalho, as relações sociais e este laço, em novo capítulo. Enquanto lá fora o galo avisa que os montes quase cospem o sol, derramando luz sobre o todo, meu coração não consegue liberar os olhos, os nervos e os sentidos. É a minha natureza outra vez exposta, fazendo-me confessar que não sou esta muralha construída sobre minha imagem cotidiana.
Demétrio Sena
Enviado por Demétrio Sena em 16/10/2007
Código do texto: T696356
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Demétrio Sena
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Demétrio Sena