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Um de muitos abandonos

Quando eu estava trabalhando de voluntária num asilo de idosos, uma cena comum era o idoso abandonado por seus filhos. Nesse mesmo asilo, havia um senhor que estava prostrado na cama, quase nunca sorria exceto quando o Fluminense ganhava algum jogo. Esse senhor me intrigava por alguma razão desconhecida. Um dia desses, vi que ele escrevia uma carta chorando, me sentei ao seu lado e ofereci-lhe um lenço... Agradecido, ele começou a ler a carta para mim e pediu-me  que a entregasse para os seus filhos.

“ Queridos filhos,

Sei que estou velho, já não ando mais, sempre fico deitado numa cama e resmungo o dia inteiro...  Eu sei que atrapalho vocês por tudo isso, mas não quer dizer que vocês não possam me visitar para saber como seu velho pai está passando.

Eu sei que estorvo vocês, não tenho função alguma dentro da casa de vocês... mesmo assim não me arrependo,nem estou pedindo recompensa por tudo que fiz por vocês, meus filhos.Durante anos e anos, trabalhei noite e dia para dar estudo para vocês, pois não queria que vocês tivessem que agüentar humilhação de patrão, nem ter que trabalhar numa fabrica como mais um na multidão. Realizei o meu sonho de vê-los doutores, como eu me orgulho de vocês por isso... como eu fico feliz que estejam hoje bem empregados e ganhando bem e dando uma vida melhor para os meus netos, estes que amo muito. No entanto, esse velho pai deve avisar que hoje vocês são jovens e saudáveis... um dia a idade chega e talvez vocês já não vão ser mais tão rápidos e vigorosos. Talvez seus filhos sejam mais gratos que vocês e não os deixe abandonados num asilo. Talvez não. Não estou desejando isso pra vocês, pelo contrário... quero que eles lhe tratem muito bem...

Meus filhos, eu amo muito vocês. Espero que todos estejam bem... estou com saudades, pois há muito não os vejo... Que Deus esteja sempre com vocês, esse é o desejo do velho pai de vocês!”

Logo que terminou de ler, Seu Josué fechou os olhos para nunca mais abri-los. Ajoelhei-me ao chão, pedindo a Deus que o levasse para um lugar muito bom ao lado Dele. Levantei-me e fui avisar a enfermeira que ele havia morrido. Fiz o pedido ao velho, mas não tive coragem de olhar nos olhos daqueles ingratos que o abandonaram num asilo, pois tenho uma avó idosa, que cuidava de mim enquanto minha mãe trabalhava... uma senhora que amo muito tanto que a chamo de Mãe.
Verônica dos Santos
Enviado por Verônica dos Santos em 25/10/2007
Código do texto: T709134

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Sobre a autora
Verônica dos Santos
Uberaba - Minas Gerais - Brasil, 30 anos
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Verônica dos Santos