A mãe da Química

Quando era mais nova, não via mencionarem esposas de cientistas em suas biografias. Talvez fosse a questão errada e eu devesse perguntar por que eram todos homens, mas esse dilema trouxe-me aqui.

Mais velha e consciente das injustiças, eu não esperava mais encontrar esposas sendo citadas. Eis que o espanto foi sem tamanho em ver rápidas menções à Madame Lavoisier ao ler sobre seu marido. A empolgação foi tanta que mudei o foco da pesquisa.

O casal amava-se como amava a ciência, e viveram um lindo romance. Por isso, após a viuvez, Marie-Anne dedicou-se em publicar os trabalhos de Antoine e recuperar seu prestígio. Além disso, denunciou todos aqueles que lhe negaram ajuda. Mas será que sua paixão a cegou a ponto de abster-se de também levar os créditos? Eu não sei.

Mesmo sendo uma parceria harmoniosa, seu casamento pode ser questionável. Afinal, ela tinha apenas 14 anos e ele, o dobro disso. Porém, essa união foi uma manobra pensada pela própria para escapar de um arranjo familiar com Conde de Amerval e seus 50 anos de idade.

Sua inteligência era brilhante e nada podia ocultá-la. Se outras esposas eram expulsas dos debates científicos, suas teses eram as mais escutadas dos encontros. No novo casamento, com o físico Benjamin Thompson, não pôde participar dos estudos e o divórcio foi inevitável.

Marie-Anne Pierrette Paulze Lavoisier, que nunca usou o nome Thompson, foi uma mulher forte e genial em época mais hostil que a atual. Ela merece mais do que rápidas menções na biografia de Antoine, a qual não faz mais tanto sentido se não for compartilhada com a dela.

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*Leia também minha sátira sobre seu marido, Antoine Lavoisier:

https://www.recantodasletras.com.br/humor/7334034

*Referências Bibliográficas:

https://www.persee.fr/doc/dhs_0070-6760_2004_num_36_1_2598