Era assim que se fazia uma arraia

Ainda bem menino, antes de 10 anos com certeza, eu já brincava de arraia.

Essa brincadeira era sazonal, em geral, se intensificava no período das férias.

Era uma brincadeira apaixonante, do fazer ao soltar e, como a maioria dos meninos sabiam construir a sua própria arraia, esse era, sem dúvidas, um dos motivos de sua grande popularidade.

A estrutura da arraia era feita com palitos de coqueiros, um esqueleto composto de três palitos, um maior na longitudinal e dois na transversal.

O palito maior era bem grosso, quando não conseguiamos palitos com essa característica, a criatividade assumia. Juntávamos dois palitos finos e dávamos voltas com a linha, apertando bem no entorno deles. Amarrávamos na parte inferior e fazíamos as voltas necessárias, dávamos um nó na parte superior, usando os dois dedos e, finalizávamos cortando a linha com os dentes.

A técnica de construir uma arraia já era bem difundida, os palitos transversais eram fixados, usando linha, no palito central. Eles tinham que ficar bem no centro, garantindo sua simetria. A conferência era feita ao longo da amarração, primeiro algumas voltas girando o quase esqueleto numa forma cadenciada e, a medida entre a distância do meio e a ponta era feita com um palito, depois era pegar esse palito, com a marca feita pelo dedo, e conferir o outro lado. Se as medidas ficassem diferentes não tinha jeito, a arraia ficava “Pensa”, ou seja, ficava pendendo para um lado.

Para corrigir era necessário colocar um pedaço de pano no lado “penso” ou, furar um buraco na parte superior desse mesmo lado.

Depois dos palitos devidamente colocados, suas pontas eram unidas com linha e, dependendo do modelo, fazia-se um bucho no esqueleto, amarrando uma linha nas duas pontas do palito transversal superior.

Assim o esqueleto estava preparado! No entanto, só para ter a certeza que a simetria foi respeitada, a gente media as três distâncias de um lado, delimitada pelas pontas dos palitos.

Para conferir as duas metades do esqueleto, em cada um desses lados, seus extremos eram levados até a boca e melado com cuspe, depois passava as duas pontas no chão, simultaneamente. Daí era só conferir a distância desse lado marcada no chão, com a similar do lado oposto. Se não tivesse batendo, era preciso soltar linha, afrouxar palito, enfim, um retrabalho que a gente fazia puto!

Agora faltava o papel de seda, que era encontrado facilmente nas “bodegas do ramo” e, bastava chegar no balcão dizendo: “seu fulano me dê um papel de arraia vermelho (ou outra cor)”. Lembrando que não existiam papéis de seda com estampas, somente de uma só cor.

Com o papel na mão, era só esticar o bicho no chão ou na mesa, colocar o esqueleto em cima e fazer o corte um pouco maior, seguindo o formato do mesmo. Se fosse na mesa, era preciso ter cuidado para não cortar a toalha, passei por essa experiência e, acreditem, a gente leva uma chinelada bem nas costas com uma havaiana, que dói pra cacete!

Agora estava bem perto, só faltava fazer o grude para colar as pontas do papel por cima da linha, deixando a arraia “bem esticadinha”, ou melhor, com o papel sem nenhuma ondulação. Não usávamos cola, fazíamos um grude com goma, ou maisena, e água. A gente colocava no fogo até dar o ponto.

A parte da arraia estava pronta, só faltava o rabo, o cabresto e o danado do encerol.

O cabresto era feito com linha, amarrada na parte superior e na inferior do esqueleto da arraia, de tal maneira que ficasse formando um triângulo rente com o extremo de um dos seus lados.

O rabo era feito de papel ou pano, cortado em tiras (chamadas de escamas) e amarrados ao longo de uma linha, com tamanho e espaços bem definidos. O fazer era simples, a ponta da linha era amarrada em algum local, até no dedão do pé, depois as escamas eram colocadas com espaçamentos definidos, através de um nó que aprendemos a fazer usando os dois dedos.

E o encerol? esse era o bicho perigoso da brincadeira! (Também tenho história sobre ele, mas, conto depois)

Para fazer o famigerado encerol a gente usava vidro e grude. O vidro, de preferência de lâmpadas, era pisado até virar um pó e, esse pó era misturado no grude que, já falamos anteriormente como ele é feito.

Para finalizar, a linha era esticada em um canto espaçoso, de preferência no sol. Depois essa mistura escrota, de vidro em pó e grude, era aplicada com a mão e passada, por toda a linha esticada, com toda habilidade.

Essa habilidade fazia a diferença, tinha umas figuras diferenciadas. Quando elas colocavam suas arraias no ar, ou a gente tirava a nossa para não perder, ou as perdíamos, pois elas eram impiedosas e imbatíveis. Lembro de poucos nomes que faziam parte deste seleto grupo, dentre eles o Crente, seu Lauro e o Pinheiro.

Bem, depois de colocar o rabo na arraia, amarrar a linha no cabresto e empinar, estávamos prontos para ficar de cara para o sol, soltando arraia com um prazer que não adianta tentar descrevê-lo, só quem viveu o momento entende!

Devo lembrar que Arraia possui vários nomes pelo Brasil e mundo afora, dentre eles:

No Brasil: Pipa, Papagaio, Pandorga, Morcego, Lebreque, Curíca, Cângula, Cafifa, Bolacha.

No Mundo: Kite, cerf-volant, Drachen, летающий змей e por aí vai!

jrogeriobr
Enviado por jrogeriobr em 09/02/2022
Código do texto: T7448287
Classificação de conteúdo: seguro