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O suícidio inconsciente

  Talvez meu coração parasse de bater naquele exato momento. Não porque eu quisesse ou porque estivesse nervosa. Mas porque eu sempre achei que ele fosse parar um dia desses. Eu costumava sentir pontadas. Dores. Eu nunca soube direito por quê. Talvez fosse todo o meu medo, todos os meus complexos. Talvez todo o medo de eu me tornar um fracasso acabasse por prejudicar o meu coração. Talvez fosse toda essa necessidade de me dizer incapaz que me tornasse realmente incapaz.
  Sempre tentei parecer forte, mesmo não parecendo segura, tentava parecer inteligente. Fingia que não me importava e acabava por me destruir. E era o que eu escondia dentro de mim que me fazia definhar. Era minha falta de vontade de mudar. Eu sempre precisei de alguém para me puxar pra fora do mar. Eu me deixava levar pelas ondas violentas, me deixava afogar. Eu sempre precisei de uma mão pra trazer de volta o meu ar.
  O fato era que finalmente eu estava morta. Mas meu coração ainda batia. Não via mais nada na minha frente. Estava num deserto e antes eu me afogava, mas agora secava. Não havia mais nada água. Todos os meus sonhos se despedaçavam. Cacos de vidro. Um espelho quebrado e eu via fragmentos de mim, misturando-se com meu sangue, o sangue dos meus pés, pois, eu acabara por me machucar. Pisava nos pedaços de mim que se espalhavam pelo chão. Procurava caminhos certos, mas entrava em labirintos tortos. Sentava em lugares ocupados. Andava pelas ruas sem saber aonde ir. Não sabia o que seria de mim e não me importava com isso. Dei-me por vencida e abandonei todos os meus sonhos. Não tinha vontade de respirar. Desejava apenas cair em um buraco, mas não tinhas forças para cavá-lo. Só conseguia chorar. Enfiava a cara no travesseiro e apertava forte as mãos, tentava gritar. Gritos sufocados. Gritos reprimidos. Sentia-me novamente sem ar, com o velho nó na garganta. Velhas cicatrizes que iam se abrindo, ponto por ponto. Eu podia ouvi-los se abrindo. O sangue respingando no chão. O rosto sem cor, os olhos sem brilho, a expressão sempre a mesma e eu me sentia morta. Mas ainda ouvia meu coração bater. Morta como se nada pudesse mudar, como se não houvesse mais salvação para mim e eu estivesse fadada a continuar na mesmice. Sem coragem de enfrentar velhos medos infantis e receios que me deixaram de herança.
  Segundo Marx, as coisas já nascem com a semente que vai destruí-las no futuro. O suicídio inconsciente...
A minha está crescendo. Esperando um momento oportuno para me tomar por completo, me destruir definitivamente.
Anariel
Enviado por Anariel em 20/09/2007
Código do texto: T660879

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Sobre a autora
Anariel
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Anariel