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A CASA AMNIÓTICA: INDIVIDUALIZAÇÃO E UNIVERSALIDADE

Pelos escaninhos internéticos chegam os versos de um talentoso autor que acompanho há mais de 30 anos. E bate em meu coração a vontade de dizer o que penso de seu poema, de como o meu coração antigo se faz prazeroso ao receber o seu letramento poético. De agradecer ao Absoluto a energização que a peça estética provoca em meu desejo de encontrar o bom poema. E me jogo ao trabalho...

“OLHARES

Cassiano Santos Cabral

Olhei dentro do tempo
Encontrei a lua no varal
Ao balanço do vento
Perpetuando sentimentos
Redimindo ausências
Pelos dias sem sol
Chuva miúda em nós
Aos olhos do rosto
Em cinzentas emoções
E dentro do túnel das horas
Interpretei silêncios
Abanei poeiras
E descansei na praça
De graça e sem pressa
No banco da infância
Lembranças floridas
Ao entardecer de abril
Sob a benção do outono
Senti o peso dos anos
E dos danos sem fim
Mas congelei segundos
Dentro de mim...
E no encontro com a esperança
Conversei com a vó
E não me senti mais só
Migalha de sonho bom
Vestido de azul.

– Recebido pelo Facebook, em 12/072018, 11h.”

Salve, meu poetamigo Cassiano Gilberto Santos Cabral! Eis um poema com boa plasticidade, ritmo interessante, enfim, bem construído. Destarte, há uma perceptível utilização de substantivos com significados muito abstratos, o que não dá concretude ou perspectivas de que a intrínseca proposta axiológico-estética desça ao plano da realidade, tendo em vista que a literatura não se destina a interferir diretamente no mundo fático, mas tem de criar conotações ao poeta-leitor – o que é a sua salvação assentada no lirismo. Como é do feitio de tua criação em Poesia, ocorre uma forte individualização nos versos, com isto o poema deixa de correr mundo em direção à universalidade, como é a destinação (vital) da peça que contempla o receptor de todos os cantos, perfis, idades ou gerações. O teu lirismo ainda está muito preso ao Ego, com isto tende a fechar janelas ao leitor, já que pela porta só tu tens a liberdade para adentrar. Para, enfim, construir a carapaça protetiva que a Poesia representa como elemento que pode vencer o imediatismo opressivo e hostil de um dado momento (da realidade) que não agrada ao tutor/criador, e então, em termos de subjetividade, o poema vence o antagonismo e se instaura a vitória psíquica que permite a momentânea felicidade, produzindo uma sensação de prazer e gozo a ser fruído: é a tua "lua linda e distante", o possível olhar de recriação do mundo, o "Luar no varal das emoções", que, aliás seria um título muito mais coerente e sugestivo para a peça em exame. É perceptível, no poema “Olhares”, ora em voga, a passagem do tempo sobre a estrutura psíquica do poeta-autor, que "congela" dentro de si próprio, talvez pela consciência desse perpassar e a certeza da finitude do humano ser e das coisas de seu entorno físico. Retroage o espiritual e busca proteção, que representa a segurança psíquica do estar "bem protegido" no colo da matriarca – a avó. Um retorno de duas gerações ao útero maternal. E o sonho, por suas migalhas, "veste o azul". A símile plácida e celeste do abstrato, do longínquo firmamento, todavia protetor das inquietações mais íntimas do poeta-autor. Talvez a coloração que povoa a esperança da mãe que espera o filho do sexo masculino – o varão que sai da casa amniótica para vencer caminhos dificilmente agradáveis e que exigem fortaleza e enfrentamentos a todo instante. Peço escusas por gastar o teu tempo (e o dos eventuais leitores) com minhas humildes considerações, porém o ofício de analista crítico também possui uma forte parcela de intuitiva espontaneidade. Não é apenas intelecção, é a miscigenação do sentir e do também intimista refletir – a "lucidez enternecida" – peculiar conceituação da Poética, criação do venerando sábio Armindo Trevisan, neste 2018 com 85 anos. A Poesia tem tanta fortaleza que atinge até os territórios da crítica literária, fruto do implacável mistério da intertextualidade. Parabéns, poeta Cassiano, pelo estro redivivo e doce que compõe a tua personalidade como autor estudioso da vida e dedicado ao pensar. Que a Poética sempre interesse a nós como plasma vivificador e funcione em nosso espiritual como elo de confraternidade e de amor à humanidade!

– Do livro inédito OFICINA DO VERSO: O Exercício do Sentir Poético, vol. 02; 2015/18.
https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/6388645
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 12/07/2018
Reeditado em 12/07/2018
Código do texto: T6388645
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
3183 textos (820219 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/07/18 18:30)
Joaquim Moncks