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REFLEXÕES PERTINENTES






     Encostei a cabeça no banco do carro e, fechando os olhos, fugi do visual comum, quando se repete quase sempre a mesma cena. Deixei de olhar pela janela, pois fechando os olhos posso partir para outro mundo, o mundo das reflexões, onde as coisas do mundo concreto nem sempre interferem.
     Enquanto nos deslocamos através do espaço da caatinga, o som do ronco do motor não consegue incomodar-me, apenas embala meus  pensamentos que se distanciam percorrendo vários rumos e direções diferentes, sem, no entanto, se perder em nenhum deles.
     Ouço as conversas, opiniões diversas sobre assuntos nem sempre comuns. Meu pensamento analisa cada palavra que ouço e sempre, sem crítica, emito opiniões silenciosas que somente eu ouço.
     Entender o modo de pensar quando não é exposto, falado é muito difícil, pois ficamos no eterno silêncio daquele diálogo mudo. Monólogos silenciosos que muitas vezes se arrastam por horas a fio, quando não é interrompido por uma ou outra palavra solta por outros que perto se encontram.
     Às vezes, com o silêncio quebrado, apenas respondo com poucas palavras e volto ao meu eu. Isolo-me do mundo e, dentro do meu pensamento, percorro distâncias infinitas, analiso frases inteiras, destruo conceitos e preconceitos, criados e alimentados por homens sem compromisso com a verdade.  Criam-se absurdos para iludir, enganar, fartando-se com isto da incúria e inocência dos menos avisados.
     Quão complexa é a raça humana que, diante da incapacidade de entender palavras ou símbolos, prefere criar mitos, medos e demônios para alimentar a mente que se contenta com o insólito, sem perguntar o que há de real e mentira em cada uma dessas palavras.
      Enquanto falam de demônios, analiso as frases inteiras e apenas sai dos meus lábios breve sorriso disfarçado, a fim de não chocar. Lembro-me das lutas empreendidas pelo Quinto Senhor para criar no homem a capacidade de pensar e o próprio raciocínio. Quantas injustiças cometidas contra uma das maiores vítimas do panteão celeste!
       Os santos criados pela igreja levam multidões à adoração de uma figura de barro, colocada em cima de um altar, enquanto os verdadeiros santos são esquecidos, pois eles nem sempre compartilham do mesmo pensamento da Igreja. Ela cria os santos para manter os pobres diabos presos e cativos.
      As lutas empreendidas durante milênios não são compreendidas por quase a totalidade da humanidade, que não conhece e entende o verdadeiro sentido da “revolta” do anjo celeste. Preferem tratá-lo como algo abjeto, criando para si nomes e epítetos nem sempre adequados.
      O homem acredita que o simples fato de crer no Cristo o liberta e salva do “fogo do inferno”. Preferem condenar o anjo criado pelo próprio criador, com função específica de dar ao homem a centelha da luz (consciência), pois ele, como portador da mesma, era o único que podia fazê-lo.
      Quantas ignorâncias alimentadas para manter o homem preso ao medo e ao dogma das religiões !  Religiões que transformam o homem em objeto de manipulação de todas as correntes, que procuram salvar a todos e principalmente os seus próprios interesses.
       Lutas e guerras em nome de um Deus que nunca pediu e mandou que matassem em seu nome. Enquanto a ignorância continua solta, vão culpando a todos e justificando os próprios erros
       As igrejas cheias, lotadas, gritam e aplaudem aqueles que se fazem passar por pastores de almas, quando, na realidade, são lobos vorazes que alimentam o medo e procuram manter o homem na ignorância do conhecimento.
      Deus passou a ser o grande negócio do momento e o Cristo, como sua melhor mercadoria, passa a ser o algoz dos outros Avataras, pois condena todos que não o seguem ao fogo do inferno.
       Enquanto estas cenas se desenrolam nos púlpitos, o demônio é de quem mais se fala dentro das arapucas criadas e mantidas para enganar e manter o homem refém idiota e escravo do medo.
       Este homem é apenas um pobre diabo...
       O ronco do motor do carro, poucas vezes interrompe meu pensamento e até tenho certa revolta de ver a ignorância triunfar perante a sabedoria, num mundo onde os valores esquecidos que foram, são apenas objetos de adorno de palavras faladas por alguns que se julgam sábios.
       Como quase ninguém sabe da redenção ocorrida, a data passa a ser significativa, pois em meu pensamento encontra respaldo, quando me lembro  do ano de 1956.
          Associando-se idéias, lembro-me da pessoa do mestre, que enfrentou a ignorância, venceu o medo e redimiu a humanidade e quase ninguém o reconhece. Preferem continuar iludindo-se com mentiras que lhe mostram como única opção de salvação.
         Salvação de quê?
         O comodismo associado ao medo coloca todos eles em jaulas como se fosse proteção, enquanto o leão fica pelo lado de fora.
         E com esses pensamentos que se vão alinhando, encaro de forma diferente da maioria das pessoas que me cercam, por não conhecerem o que conheço.
        A mentira passa a ser uma grande verdade onde não se consegue ir além das palavras daqueles que, enganando, também se enganam por ainda não terem apreendido a ler.
        De qualquer forma sigo livre mesmo que preso ao mundo em que vivo e sujeito ao compromisso assumido. Vejo os erros e rio-me deles, pois sei que de que pouco adiantará tentar transformar uma simples pedra bruta em diamante.
       Tudo depende apenas de quem realmente deseja ser lapidado e estes são poucos.
       Nesta hora a máxima do Cristo fica ainda mais evidenciada e clara. “Muitos serão os chamados, poucos os escolhidos”.




 05/03/03-VEM

Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 08/02/2008
Reeditado em 14/08/2008
Código do texto: T850869

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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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Vanderleis Maia