ESPELHO PLANO
 
E lá vem aquela figura esguia,
Meio desengonçada... quase esquelética.
Trazendo consgio pouco peso... muito osso.
Para muitos é um bom moço!
Boa altura, quase um e oitenta
E de vez em quando a sorte tenta:
Joga na lota, esportiva, sena...
Que pena! Um bye-bye acena!
 
Acredita no amor, no romantismo,
E traz na cara um nariz aquilino,
Recordações de criança, de menino,
Daquela garoto peralta, malino.
Veja só! Ainda se mete a faze poesia
E se esquece, no entanto, da dislogia.
 
Uma garota ainda passa
E o acha um tesão!
Que ilusão! (dele, claro!)
Qual nada! Dentro daquel corpo
Franzino há um furacão
Tão energético quanto o condrioma,
Que o faz levantar-se quando retoma
A vontade de crescer e mostar
Ao mundo que a matéria
Não traça seu destino,
Não faz qualquer futuro.
 
Porém, uns dentes bonitos que traz,
Um sorriso sincero e simples
Não é nada, senão o fio condutor
Que leva uma mensagem de paz e vida,
Já que a matéria humana é apenas
Um aglomerado protéico que, num belo dia,
– Para as boca necrófagas –
Será o mais belo dos pratos,
Mas sua mensagem ficará e com ela,
O autorretrato de um sonhador
Na memória do tempo que faz a história.
 
NOVAIS NETO. Ave Corrente. 2. ed. Salvador: NN, 1990, p. 29, 120p.