Banco de rodoviária

Há anos, uma mendiga

com um cigarro no canto da boca

sentada nos bancos

puxando assunto com qualquer pessoa por perto.

Parecia meio louca

com olhos distantes

aspecto frio e sofrimento pelo corpo.

Seus cabelos, pelos maus tratos,

eram quebrados e esbranquiçados.

Certas vezes prestei atenção no que dizia seu conto:

Era mal tratada em casa

apanhava do marido

seus filhos sem perspectiva na vida

e a lida consumindo-a sem piedade.

Ali, onde mendigava, sentia-se menos vulnerável.

Agressões e estupros – apenas violências urbanas...

E contava sua trágica história

como fosse o centro do universo.

De seu universo, com certeza!

Quantas chegadas...

Quantas despedidas...

ela presenciou naquela rodoviária.

Tantos amores, desilusões, corações partidos

de idas e vindas quase sempre

programadas por compromissos sociais.

E lá continuava com as mesmas e surradas roupas

sem já falar coisa com coisa

esquecendo-se do que queria dizer...

Pedindo um cigarro pra um

pra outro um café...

Assim levava aquela vida

que em algum instante no passado deu errado

e que de lá pra cá tudo ficou

ou nas sombras ou nos sonhos.

Tornaram-se terríveis pesadelos...

Talvez o parceiro errado

o excesso de copos nos bares

remoendo a vida entre cada tijolo

que colocava nas construções alheias.

Brutais atos sem comandos conscientes

causando fúria social

que sufoca em saber que não há solidariedade

que estamos à mercê

perdidos pelas calçadas

jogados em favelas

estrangulados e exterminados cruelmente

sem nenhum apoio político.

Enfim, frutos dessa sociedade

que empilha pessoas sem futuro.

JorgeBraga
Enviado por JorgeBraga em 03/02/2011
Código do texto: T2769209