Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

CENÁRIO QUASE DESMEMORIADO

Cordas retesadas de meu coração menino,
a infância é um carro-de-boi
rangendo nos grotões agrestes.
Férias de julho, entre o Monte Bonito e o Gama.
Dias antes do Getúlio “sair da vida pra entrar
na História”. E o cenário era Pelotas, tios e avós.
Dona Amélia Silveira, matriarca, era uma
fada dark, mística em seu longo vestido negro.
Viuvez plena de saudades, filhos e netos.

Meus medos eram tantos que ficaram
naqueles distantes ermos.
Alguns tinham nome: o cemitério, o açude fundo
e as abelhas nas frinchas do galpão.
Ainda zunem em meus ouvidos o mel
e as águas passadas.

A infância é o pilão picando o milho,
o bolo cheiroso e as letrinhas na sopa
de Ana Silveira, professora de família.
Jovelino e Hilário derrubavam pedras
com clavas e dinamite.
Ajudavam a encher fartos celeiros,
veias por onde o sangue fluía para a cidade
em seus caminhões Ford.

Tudo era bonito neste quase desmemoriado tempo.
Nele enterrei os totens da esperança futura,
entre malmequeres, patas de cavalos,
o jogo de osso e o medo do escuro.

- Do livro A BABA DAS VIVÊNCIAS, 2003/13.
http://www.recantodasletras.com.br/poesiasdesaudade/41814
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 10/08/2005
Reeditado em 04/11/2013
Código do texto: T41814
Classificação de conteúdo: seguro


Comentários

Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 73 anos
3576 textos (901583 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/07/20 08:07)
Joaquim Moncks