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MISTÉRIOS DE INFÂNCIA

(para o Ary Pizarro)

Na década de cinqüenta
o Brasil era ferroviário.
Em cada cidadezinha havia um túnel
de mistérios e de infâncias:
era a estação do trem.

A Maria Fumaça
enroscava-se nos morros e vinha
fungando, furiosa:
“Já te pego, já te mato,
já te faço cumê barro!
Já te pego, já te mato,
já te faço cumê barro!”

No verão, os dormentes escaldantes
eram o telégrafo dos  sonhos:
a gente encostava a orelha
só pra ouvir o cochicho
dos “japas” e dos “chinos”.
Lá longe, do outro lado do mundo,
ainda havia o fumo dos dragões
e Hiroshima vociferava o futuro.

À noite, sob as cobertas,
apitos urravam as serpentes do medo.
E silenciavam os soluços.

Do livro OVO DE COLOMBO. Porto Alegre: Alcance, 2005,p. 48.

(Poema republicado. O título anterior era VIDA E SUAS MORTES. A titulação objetiva, mais consentânea com a temática, busca maior interatividade com o público. A virtualidade permite este proceder e ratifica o conceito de que literatura é matéria viva, mutável, portanto.).
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 07/11/2005
Reeditado em 07/11/2005
Código do texto: T68377
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
3679 textos (918838 leituras)
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Joaquim Moncks