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Fradique, Mendes, 1893-1944. Dr. Voronoff: romance/ Fradique Mendes. – 2ª edição. Vitória – ES: Secretaria de Cultura. 2017.



O escritor ruim, melhor chamá-lo de escrevinhador, coloca muito estofo no texto. Mas não coloca forro! Um texto de excelência possui estofo e forro. O romance Doutor Voronoff, de Mendes Fradique, é exemplo de excelente texto com bom estofo e forro. Cabe-nos afirmar essa verdade porque o livro em tela é excelente não só por ser um romance que cuida do drama de Fausto, personagem de Goethe que vendeu a alma ao diabo em troca da eterna juventude. Mas porque no livro, que apesar de não ser o único romance brasileiro que cuide do tema, pois existem outros como, por exemplo, o romance A casa do poeta trágico, de Carlos Heitor Cony, há o tratamento humorístico do drama do Fausto. Algo que, sem dúvida, confere singularidade ao romance de Mendes Fradique, porque, salvo melhor juízo, não há na literatura brasileira outro escritor que tenha dado a esse tema tratamento humorístico.
Eduardo Marinho é o personagem central. Como médico não teve uma vida plena, pois, após ter clinicado por algum tempo em Guarapari, comprou por preços módicos terras praianas naquela cidade, sem imaginar que isso o enriqueceria, por serem as areias monazíticas presentes em Guarapari ricas em tório. Razão pela qual, sem precisar militar na Medicina por mais tempo, abandonou a clínica para se tornar competente empresário, aclamado como o rei do tório!  Capixaba radicado no Rio de Janeiro, onde construíra a sede da sua empresa.
A trama do romance ocorre no fim dos anos vinte do século vinte. Falemos antes um pouco da história da Medicina e da situação da ciência naquele tempo. A liberação epistemológica (epistemis = conhecimento; logos = discurso, linguagem, palavra) da medicina se deu no século dezenove, quando a descrição minuciosa das doenças fez que a semiologia médica se enriquecesse e orientasse a realização de diagnósticos antes não tão possíveis. Tais possibilidades diagnósticas ensejaram que no século vinte avançasse a necessidade de estabelecer tratamentos para as doenças diagnosticadas. A penicilina, por exemplo, foi descoberta em mil novecentos e vinte e oito. Época em que o doutor Serge Voronoff esteve no Rio de Janeiro.
As principais promessas do médico russo, radicado na França, eram as do rejuvenescimento certo e seguro para idosos, benefícios afrodisíacos e a possibilidade de tornar-se um super-homem de até cento e quarenta anos, algo que ainda representa um sonho da Medicina, talvez irrealizável. Isso seria tudo o que muitos homens desejariam: recuperar ou garantir a vitalidade, a plena atividade física e mental, a partir do xenotransplante ou, mais especificamente, por meio de glândulas sexuais de primatas não humanos. (1) Tudo que Eduardo Marinho, aos sessenta e oito anos, desejava, principalmente, porque se sentia irrefreavelmente atraído por Gina, a condessa de Morinelli, na verdade viúva de um banqueiro, falsa condessa, uma balzaquiana, vigarista, que via no empresário Eduardo a possibilidade de status social e vida fácil, visto já ter gasto boa parte da herança do primeiro marido, era rejuvenescer.
Pensar num drama de Fausto relativo à atração de um homem provecto por uma balzaquiana faz o leitor pensar que se trata de um drama de Fausto a meia-boca, porque no drama de Fausto verdadeiro a mulher é uma moça jovem, muito jovem, uma Lolita. É essa meia-boca o estofo humorístico do romance. No caso porque o enlace carnal é facilmente possível, expectante e antecipador do êxtase, que, porém, não acontece, porque Eduardo falha na hora da relação concreta corpo-a-corpo. Fato que o faz se decidir a realizar a operação do doutor Voronoff.
Entretanto, Eduardo Marinho tem uma família, constituída por pai e filha (Glorinha), de quem é pai adotivo, porque teve um caso com Ruth (mãe de Glorinha), logo que seu marido, Maurício Dawidson deu um desfalque nos cofres na Monazitic Sands (empresa de Eduardo) e sumiu, tendo sido Glorinha criada por Eduardo como filha. Eduardo mora numa casa no bairro Engenho Velho (atual Maracanã), na Rua São Francisco Xavier. Na qual recebe amigos de forma pródiga, entre os quais literatos da época como Bastos Tigres e Emílio Meneses e Rafael Gonzaga, comediógrafo, personagem fictício, espécie de rêmora vivendo das sobras do empresário tubarão Eduardo Marinho. Casa na qual é cercado por criados como dona Sinhá e o Nestor, entre outros. Onde recebe o médico Angenor Porto, que, juntamente com o comediógrafo tem cumplicidade com Eduardo, para que seja realizada a operação de rejuvenescimento. Que de fato se dá, não com glândula de macaco, e sim com glândula de um jovem belga, o que potencializa o “rejuvenescimento”, causando desequilíbrios entre as partes do corpo revitalizado e as teimosamente em senectude.
Rejuvenescido em parte, Eduardo não se importa quando Gina, a falsa condessa, se casa com outro homem, mesmo tendo reinvestido várias vezes sobre Eduardo, após a falha no concurso carnal. Algo que espanta Glorinha, pois o pai negligenciara dela, filha, em prol da condessa, várias vezes. É a partir desse momento, que termina o drama do Fausto, meia-boca, e começa o drama fáustico de verdade. O rejuvenescimento causa grandes perturbações somáticas e psíquicas em Eduardo, que passa mal, adoece, mas que não desiste da juventude e se nega a reoperar para a retirada da glândula enxertada. Passando a ter comportamentos inescrupulosos relativos à maneira como olha moças, seja uma criada da casa, seja uma funcionária da empresa. Juvenis comportamentos esses que fazem a empresa ter dificuldades financeiras por má gestão. Comportamentos que fazem os amigos desaparecerem da casa de Eduardo, que fazem Eduardo ter seu ciclo social reduzido à família, isto é, aos criados e a sua filha Glorinha, e seu amigo Gonzaga que permanece como único amigo a continuar a frequentar a casa do antigo bem sucedido empresário.
É quando Eduardo percebe Glorinha de outra maneira, enxerga-a como uma mulher, mulher de quem não é o verdadeiro pai. Mas que criara como filha. Algo que pode ter contribuído para a crise apoplética da qual se recupera, para cada vez mais se imiscuir inconvenientemente na vida de Glorinha, essa, sim, irresistível Lolita! Comportamento que Glorinha percebe. Sofrendo o conflito entre continuar a ser carinhosa com o pai ou se esquivar, repudiá-lo. Algo que não conseguirá mesmo depois de o pai revelar não ser Glorinha a sua verdadeira filha, mostrando-a as fotografias do pai e da mãe, nunca vistos antes pela moça. Nem quando o pai a pede em casamento, lhe dando um prazo para até o dia seguinte de manhã responder sim ou não!
Sim, quando Glorinha vê Eduardo ter nova crise de saúde, lhe garantindo que faria tudo que ele quisesse, porque, afinal, fora Eduardo que fizera Glorinha acontecer de ser tudo que ela era. Porém, Eduardo morre, antes de qualquer consumação de casamento. Morre dizendo-se feliz! Felicidade irônica, afeita ao propósito humorístico do texto.
Quanto ao estofo do texto, ele se dá, não só pela presença de diacronismos, isto é, linguagem de época. O termo apoplexia, por exemplo, já caiu em desuso há muito tempo. Dá-se porque há a descrição da festa para os amigos de Eduardo, no casarão cujo acesso passa por uma alameda de bambus, já dentro do quintal. Festa em que a presença de uma banda de jazz se contrapõe, em remelexo de dança, à tradição da belle-époque, com saraus de piano entre outras características da belle-époque. Dá-se por conta da presença de figuras de época, como Pitigrilli, jornalista e escritor italiano, que tecia comentários ácidos e humorísticos sobre a sociedade e os costumes. Dá-se por conta das discussões sobre teatro e literatura. O protagonista Eduardo Marinho, por exemplo, fala, com muita propriedade que o futurismo é o primeiro nome dado ao modernismo.
Estofo que faz o leitor passear entre Guarapari, o Rio de Janeiro e Vitória, com supimpa descrição desses lugares e dos fatos neles acontecidos. Entre esses, quando Eduardo foi à capital do Espírito Santo, na companhia do amigo Gonzaga, resolver problemas empresariais e familiares, relatando nas páginas do livro as diferentes maneiras como Eduardo e Gonzaga viveram aquela viagem. Estofo que conta, com bom forro, com a participação da caracterização dos amigos de Eduardo, principalmente, o Gonzaga, o doutor Angenor Porto, entre outros, inclusive da vida literária da época, como Bastos Tigre. Que conta com a caracterização dos criados, principalmente, dona Sinhá, com seus óculos de fundo de garrafa que lhe aumentava os olhos sensíveis a tudo que acontecia no entorno.
Estofo no qual o autor relata as artimanhas de Eduardo no sentido de ser operado pelo doutor Voronoff, sem que a filha ou a sociedade ficassem sabendo. No qual o autor relata a cirurgia, as complicações e a excitação libidinal pós-cirúrgica, que fez até mesmo o Voronoff pensar em realizar uma segunda cirurgia a fim de retirar a glândula transplantada. Segunda cirurgia negada pelo paciente, que, após alguns mal-estares, psíquicos e somáticos, já se sentia acomodado à revitalização parcial do corpo.
  Não caberia aqui falar de todos os personagens coadjuvantes e seus caracteeres, todos eles bem entremeados na trama.
Segundo Marcus Salgado (2):
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As relações entre literatura e medicina ainda não foram devidamente anotadas, sobretudo no contexto da literatura brasileira.
 Se a vida literária no Brasil adquire caráter visivelmente sistêmico apenas no começo do século XIX, não nos espanta que justamente o iniciador do romantismo entre nós, Gonçalves de Magalhães, fosse médico. A este poeta devemos nada menos que Confederação dos Tamoios, marco do romantismo de viés indianista e tentativa pioneira, entre os românticos, de criação de uma epopeia nacional legitimadora de nossa independência cultural. Não é pouco.
 Médico também foi Joaquim Manuel de Macedo, de quem lembramos ainda hoje, em visita a Paquetá, por conta das páginas edulcoradas, mas inesquecíveis, de A moreninha. Folhetinista notável, seu Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro e suas Memórias da rua do Ouvidor são marcos na linhagem dos cronistas do Rio antigo, lidos e relidos até hoje. Não deixa de ser curioso pensar como a posteridade se interessaria por sua tese na faculdade de Medicina, Considerações sobre a nostalgia, que tantas luzes parece lançar sobre certos aspectos da sentimentalidade da poesia romântica.
 A lista dos que transitaram entre a medicina e a literatura é longa.
 E o melhor: como se vê, desde o início, engloba escritores do primeiro time.
 Seguiria elencando nomes mais ou menos conhecidos, como o poeta Jorge de Lima, autor da Invenção de Orfeu, poema de grande fôlego que o inscreveu definitivamente entre os mais expressivos criadores do século XX.
 Ou Madeira Freitas, que atendia pacientes em consultório na Cinelândia ao mesmo tempo que assinava páginas satíricas e charges como Mendes Fradique – simplesmente um dos mais importantes e mordazes humoristas brasileiros do começo do século XX.
 Idêntico testemunho faz Pedro Nava que, além de emprestar seu nome a biblioteca no Rio de Janeiro, se revelaria nada menos que o maior memorialista da literatura brasileira.
 Sem falar em Guimarães Rosa, que estréia na literatura ainda estudante de medicina e é no exercício da profissão que começa a tomar contato com a dura realidade da ‘prosa’ que é a vida diária dos despossuídos. Certamente Guimarães Rosa – que, no final, deixaria a profissão, definitivamente conquistado pela literatura –, teve contato, em sua breve porém intensa experiência como médico pelo sertão, com o cenário que assombraria sua obra.
 Ou ainda Helio Pellegrino, que, além de especialista em medicina psiquiátrica, integrou, junto a Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, o “Grupo dos Quatro Mineiros”, bons de prosa e poesia.
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Retomando as rédeas da resenha, o fato é que Mendes Fradique, não só por ter escrito Dr. Voronoff, é um dos grandes médicos-escritores da literatura brasileira, como nos mostrou Marcus Salgado, sendo, assim, merecedor de reedições de seus livros e de estudos mais aprofundados de cada um deles, que formam como um todo, sem sombra de dúvida, uma bela obra.

1) https://agencia.fiocruz.br/as-exc%C3%AAntricas-fontes-da-juventude-do-doutor-voronoff
2) Salgado,Marcus:https://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/editor.php?acao=ler&idt=1781636&rasc=0
Fabio Daflon
Enviado por Fabio Daflon em 03/04/2021
Código do texto: T7222806
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