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Um pouco de história do Maestro Fabiano Lozano

A origem do orfeão ocorreu na França ainda no século XIX, com o apoio de Napoleão III. O Canto Orfeônico consistia na formação de grupos vocais “a capella”, ou seja, sem acompanhamento de instrumentos musicais. Esta prática distinguia-se do tradicional coral, devido a seu caráter simples e desprovido de senso estético, voltado a um público leigo. A nomenclatura seria uma homenagem ao mitológico Orfeu, uma divindade grega que era capaz de emocionar qualquer ser vivo com sua lira.

               Fabiano Lozano: Músico, compositor, intelectual, nasceu na Espanha, em 1884, e chegou ao Brasil aos 13 anos, vindo a residir em Piracicaba. Aos 19 anos se diplomou e retornou a seu país, onde se aperfeiçoou em piano, harmonia, regência, no Conservatório de Música e Declamação de Madri.
De retorno ao Brasil, passou a dedicar-se ao ensino como professor primário, a partir de Piracicaba. Não era um artista comum. Ao seu redor, Fabiano Lozano, como professor do Colégio Piracicabano, reunia intelectuais. Muitos são os relatos dos saraus que promovia, numa atmosfera onde a música era ponto central. Uma de suas alunas por ele se apaixonou: A jovem, filha de uma família de imigrantes norte-americanos de Santa Bárbara D'Oeste. Bem, ao casar-se com Dora Pyles, o músico espanhol também quebrava um tabu: o de um casamento na colônia dos americanos com alguém que não fosse do próprio grupo.
Quando, em 1914, a Escola Complementar transformou-se em Escola Normal, Fabiano assumiu a cadeira de música e iniciou o Orfeão Normalista, apontado por muitos como o primeiro esforço de movimento coral articulado em uma escola. E sua trajetória foi cada vez mais rápida e ascendente: dirigia em 1915 a Orquestra Lozano e, no Colégio Piracicabano, passou a oferecer um curso de piano em dez etapas.
Lozano também foi o criador do Orfeão Piracicabano para aproveitar vozes privilegiadas que ele encontrara na cidade. Ele pretendia reunir um grupo mais estável que o Orfeão Normalista, cuja mudança de componentes era freqüente, em função do rápido período escolar de seus cantores.
Para Piracicaba, o fato mais marcante daquele espanhol que maravilhava todas as pessoas foi a criação da Sociedade da Cultura Artística. A primeira reunião, preparatória deu início ao movimento foi em sua casa, em 25 de maio de 1925. O primeiro presidente foi Antonio dos Santos Veiga e, a partir dessa data, os concertos começaram a ser em Piracicaba, transformando a cidade do interior em ponto de reunião de grandes artistas como: Magdalena Tagliaferro, que em 1951 tocou com Guiomar Novaes, Bidu Sayão, Camargo Guarnieri, Anna Stella Schic, Iara Bernete em homenagem a Fabiano Lozano -
Os três primeiros concertos tiveram, entretanto, a presença de Fabiano Lozano: todos foram dados pelo Orfeão Piracicabano a quem Mário de Andrade, em 1928, assim declarou:

       “É o primeiro coro artístico do Brasil. Não é o primeiro em data, mas o primeiro em valor. O Professor Lozano é animador admirável dessa moçada piracicabana. A ele cabe o mérito indelével dos primeiros prazeres corais que o Brasil pode criar".

Alguns dos jornais da época escreveram sobre a grande receptividade dedicada ao grupo, quando de sua apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, o que pode enriquecer ainda mais a luta desenvolvida por seu maestro em favor do canto orfeônico em todo o Brasil.
Reconhecido por suas composições e arranjos, Lozano respondeu pela chefia do Serviço de Música e Canto Coral do Departamento de Música do Estado de São Paulo. E como merecimento foi convidado, mudou-se para Pernambuco, onde orientou o ensino de música e canto coral nas escolas públicas do Estado. Somente aposentou-se após 45 anos de atividades junto ao magistério paulista, depois de ter formado o Orfeão do Professorado Paulista. Deixou várias obras, algumas para o ensino da música no ensino básico e médio, também deixou várias publicações específicas para canto orfeônico, escreveu obras para a educação musical das crianças.
Fabiano Lozano em Piracicaba

Quando o menino Fabiano aos treze anos veio morar em Piracicaba, certamente, se deu conta, que as festas religiosas se tornaram o principal divertimento da sua população.
Na festa da Santa Cruz do dia 19 de abril, além da festa religiosa, o jogo comandava a festa profana! Levantam-se barracas e erigem-se monumentos ao deus Baco. Os comerciantes solicitam e a festa se estendeu até três de Maio! Estabelecidas as duas filas de barracas, aos lados da capela, parece que não havia lugar para mais nenhuma ocupação. Engano: em frente à capela e nos fundos, encontram-se ainda bancas de jogo: jogo barato para crianças e escravos; mesas de búzios, e as tais chamadas “canequinhas”, onde vão desaparecer os vinténs, que os meninos pedem aos pais para comprar doces. Todos no término da festança já esperam ansiosos para a nova festa religiosa, que seria o dia da Nossa Senhora da Boa Morte!
O menino Lozano se encantou com a banda de música; “Artistas e Operários”, tocando algumas peças na ocasião enquanto, os fogos de artifícios espocam no céu piracicabano. Não demorou para que a multidão somasse mais de mil pessoas, todas ansiosas para saudar Dr. Prudente José de Moraes Barros, eleito deputado republicano por este oitavo distrito.
Mas, com a reconstrução do Teatro Santo Estevão em 1906, com projeto de Carlos Zanatta, pintura e decoração de Bonfiglio Campagnolli entre outros artistas famosos, tudo pago pelas doações dos Barões de Rezende, a arte se revitaliza na cidade.
Já com a Escola Normal e a Escola Agrícola funcionando o Teatro Santo Estevão, enfim foi inaugurado com a instalação oficial da Universidade Popular.
As temporadas líricas em 1907 contaram com espetáculos de óperas de companhias estrangeiras que, muitas vezes, recrutavam os estudantes piracicabanos para serem os extras nas cenas de multidão.
_Erotides, o Maestro Lázaro, meu querido irmão pediu para que eu o convidasse para tocar na orquestra!
Fabiano se referia a Orquestra do Maestro Lázaro Lozano, seu irmão mais velho Este conjunto orquestral, que contou com Erotides de Campos e o próprio Fabiano Lozano, ainda adolescentes, entre seus músicos, é hoje a Orquestra Sinfônica de Piracicaba.
Fabiano Lozano, mesmo sendo diplomado em música pelo Real conservatório de Madri, pegou logo o jeitinho brasileiro, para seus alunos era um professor exigente, mas era um homem gentil. O professor falava para os seus alunos da Escola Normal:
_Aqueles que não podem aprender um instrumento devem pelo menos usar o instrumento natural que todos têm, isto é, a voz.
Diante da eminente desativação o Orfeão da Escola Normal pelo fato da falta de vozes masculinas, Fabiano Lozano reúne na sua casa os formandos que permaneceriam em Piracicaba, após se formarem. E pela sua seleção passou 24 pessoas: seis sopranos, seis contratos, seis tenores e seis baixos. Após um tempo o número de integrantes passou a 48, e assim, nasceu o Orfeão Piracicabano, e a partir desta data os ensaios aconteciam no teatro Santo Estevão.
No dia 14 de junho de 1925 após a sua primeira apresentação, a Gazeta de Piracicaba escrevia: ”o Orfeão Piracicabano realizou na noite de ontem a sua primeira apresentação. Ante uma platéia seletíssima, onde se via o que Piracicaba tem mais representativo, o milagre vivo o professor Lozano fez sua vitoriosa audição. E neste mesmo dia o Jornal de Piracicaba escrevia: No teatro Santo Estevão lindamente ornamentado, via-se o que de mais seleto possui a nossa sociedade... À hora marcada deram entrada no palco, os elementos que compõe o Orfeão, precedidos de seu digno regente, o Maestro Lozano, sob aplausos calorosos do publico que enchia literalmente o Teatro. Dando inicio ao programa, executou o Orfeão o Hino Nacional, ouvido em pé por toda a assistência, que aplaudiu vivamente aquele punhado de gentis senhoritas e distintos rapazes que, unidos num só ideal, realizam a grande obra da educação artística do povo”.
Este foi apenas o inicio do sucesso de uma longa jornada, o Orfeão também participava do primeiro sarau da recém-fundada Sociedade de Cultura Artística. O sucesso foi tão grande que o Orfeão recebeu convites de todo o Estado de São Paulo, do Rio de Janeiro.
Certa vez após uma apresentação, um homem alto e magro, de olhos fundos e nariz adunco, sentado próximo ao palco, levantou-se e gritou animado: “Me digam quem canta melhor que essa gente?”
Mesmo sendo o ano de 1928, e sendo o homem Mário de Andrade a platéia não estava acostumada com esses rompantes. Em 1930, coincidindo com a revolução de 30 e o advento do estado Novo, Lozano deixa a cidade e sua obra se expande e é incorporado pela nova estrutura de poder que se instala no país. O romantismo e inocência de seus orfeãos escolares e o requinte artístico de seu orfeão Piracicabano são substituídos pelo nacionalismo exacerbado e pela exploração ideológica da juventude. Grandes massas de corais em estádios de futebol, regidas pelo próprio Lozano, em São Paulo, e por Villa Lobos no Rio de Janeiro, glorificam a ditadura e os símbolos do facismo. Sopram os ventos da Segunda Guerra Mundial. Não se sabe se o Brasil se adere ao Eixo ou aos Aliados. Os Estados Unidos enviam uma missão para convencer Vargas a combater Hitler e Mussolini. Vargas sem escolha adere aos aliados. A guerra termina com a derrota do nazifacismo. Cai a ditadura de Vargas. Em Piracicaba, o Teatro Santo Estevão é demolido. Logo após termina o ensino do Canto Orfeônico nas escolas.

Bibliografia

1) Fonte: Memorial de Piracicaba 2002/03, de Cecílio Elias Netto
2) Ferreira, José Maria: O mundo de Fabiano Lozano/ José Maria Ferreira _Piracicaba: orquestra Sinfônica de Piracicaba, 2008, 96p..
3) Pesquisa histórica de Piracicaba feita por Ana Marly de Oliveira Jacobino em documentos, recortes de jornais da época na Biblioteca Pública de Piracicaba.
4) Guerrini, Leandro. História de Piracicaba em Quadrinhos; Obra editada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, na Imprensa Oficial de Piracicaba, 1970.


Ana Marly de Oliveira Jacobino
Enviado por Ana Marly de Oliveira Jacobino em 06/10/2009
Código do texto: T1851407


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Sobre a autora
Ana Marly de Oliveira Jacobino
Piracicaba - São Paulo - Brasil
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Ana Marly de Oliveira Jacobino