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ESPONJA PSÍQUICA (UM TRATADO SOBRE O IMPACTO DE CERTAS PESSOAS SOBRE MIM)

                                                           
               

                                                        Às vezes eu fico analisando as pessoas em meu derredor, e sou tomado de uma grande tristeza, de um grande desgosto, de um grande desalento. Eu as quisera diferentes do que são! Eu sou imbuído de um espírito positivista: há em minha alma uma energia que me leva para frente, para as conquistas , e há também uma generosidade natural e uma alegria constante. Tenho absoluta certeza de que estou vivo, de que pulso radiantemente  a cada segundo. Há uma coisa que me fere, que me maltrata: o rosto entristecido das pessoas. Desgraçadamente eu capto das pessoas o mínimo sinal de tristeza, e desgraçadamente acabo comungando com aquilo, ou seja: acabo ficando triste com elas, embora eu verdadeiramente não tenha qualquer motivo para tanto. Já disseram de mim que eu sou uma espécie de esponja psíquica a captar os males do mundo. Que horror! Mas se as pessoas sofrem diante de mim, que posso fazer? Comemorar com champanhe ? Desgraçadamente sou solidário! De outro modo, percebo que a cada tristeza captada, minha radiante vida se obscurece , e não poucas vezes sou tomado pelo desânimo e acabo desistindo de coisas que iniciei, coisas importantes para mim, posto que a tristeza leva a isso! Então, eu me vejo diante do grande dilema: devo ser solidário ou não? Se sou, cumpro com o papel destinado a todo ser humano que é o exercício da fraternidade: como posso ser feliz enquanto o outro próximo a mim sofre tanto? Como posso virar as costas , por exemplo, a uma mulher que é espancada constantemente pelo marido, e que luta na justiça por causa disso, e que coincidentemente é minha aluna? Devo ser frio, insensível, calculista? Devo dizer a ela que se dane e que vá ser triste em outro lugar? Mas eu não consigo ser assim! O espírito da solidariedade me toma como se eu fosse um médium sem controle de sua mediunidade, e lá vou eu me intrometer na vida pessoal e particular dela, com a única intenção de saber o que está acontecendo e se posso fazer alguma coisa a respeito. O absurdo dos absurdos é que eu já cheguei a me casar com uma pessoa em tais circunstâncias, muito, muito certamente por causa do espírito de fraternidade, e me lanhei terrivelmente: foi a pior coisa que eu fiz na minha vida: a pessoa não se tornou mais feliz porque eu me casava com ela! E então vem a psicologia e explica que há pessoas, inclusive, que não desejam a felicidade: querem continuar representando o papel de sofredoras para receberem carinho e atenção. Outras odeiam a felicidade dos felizes e gostariam que eles se danassem. Aí eu me sinto idiota! Doador de um bem supremo, a favor de uma pessoa doente que precisa muito mais de um tratamento clínico psicológico  que do meu afago. Mas posso dizer uma coisa: seja em que circunstância for, a grande verdade é que essas pessoas são portadoras de uma aura obscura (acho que de cor cinza ou mesmo preta), e que se gruda na gente nos absorve toda a energia positiva, e nos sufoca, nos envenena, nos adoece psíquica e fisicamente. Uma amiga psicóloga (Verinha ) um dia me disse: Adilson, cada pessoa deve aprender a construir a sua própria felicidade! Ajude-a a levar um tijolinho para a construção, mas não leve os milheiros todos! E eu vou percebendo que comigo, ou a despeito de mim, cada pessoa vai tendo realmente sua experiência pessoal e particular, e que Jesus já morreu na cruz por todos e que não devo tentar ser um novo Jesus, até porque isto está totalmente fora de questão quando se trata de mim, sujeito imperfeito que sou, e que guarda lá também no seu íntimo algumas tristezas e dores, a despeito da energia radiante da positividade. Que fazer? Continuarei ajudando, até por uma questão de consciência, e por entender que a indiferença à dor do outro é uma espécie de falha de caráter, de não inteireza , de não comunhão com o universo circundante, do qual fazemos todos parte. Que fazer? Não ter em Simeão ( o que levou a cruz para Jesus ) um modelo a ser seguido, imitado ( não obstante naquele particular eu sentisse muita honra em compartilhar com o Senhor da dificuldade do momento, e como eu suspiraria até pôr isto! ) , mas veemente rejeitado. Mas esse lero lero, esse blá blá blá , não termina pôr aqui, não: outra coisa me fere, me maltrata grandemente e que é  emanada pelas pessoas em derredor além da tristeza desoladora: a total ausência do desejo de melhoria no campo intelectual,  do conhecimento; um grande desprezo à possibilidade da cultura, da consciência social , cósmica... Um grande desprezo à possibilidade da riqueza existencial! O indivíduo não se ama enquanto indivíduo! Está habituado a “medir tudo por menos” como costumo dizer, e nunca por mais! O indivíduo ama ser medíocre! Ama que lhe entreguem pacotes prontos de decisões já tomadas à sua revelia! Parece que não consegue pensar, discernir! Aliás, às vezes deixa claro que odeia pensar e discernir! Às vezes deixa claro o seu nojo pelo aprendizado e, mama mia , o seu nojo e desprezo total ao discípulo que se tornou mestre em razão de amar o mestrado! Que deixou sangrar em ferimentos corpo e alma para atingir o referido status! Eu os tenho junto a mim: são uns  nada que se julgam alguma coisa; uns lerdos que se julgam expertos; uns bestas que se julgam mestres; uns alienados que se julgam juizes...Falsos humildes, portam uma arrogância insuportável que com certeza Jesus ( que poderia ser arrogante quanto o quisesse, no seu status de uma das pessoas da trindade ) os execra! E não pensem que estou cometendo o pecado de verbalizar e nominar, por minha própria conta, um pressuposto sentimento do Senhor: a Bíblia, que é considerada pelos cristãos a própria Palavra de Deus, nos dá conta do quanto Deus odeia os soberbos! E essa gente infelizmente causa em mim uma revolta tão grande que beira o histerismo, eu o reconheço! Digo “infelizmente” porque eu os quisera ignorar, mas não consigo, até pela diferença de ideais, até pôr tê-los brandindo suas ilusórias espadas bem perto de mim, quando não em direção a mim! Eu os odeio, não vou negar. Nesta altura do campeonato, falando com meu (minha)  leitor(a) , desabafando, compartilhando sentimentos, mentir seria muito mais execrável e indigno. Eu os odeio porque não sendo nada, querem ser tudo impondo o tudo que pressupõem; sendo lerdos, querem impor uma vivacidade, uma dinâmica que desconhecem, que não lhes pertence; sendo medíocres, querem posar de inteligentes e cultos não tendo sequer um mínimo desejável conhecimento do idioma que usam para a comunicação: são “mestres” semi-analfabetos que , com ridícula , apalhaçada pose de superioridade desejam ensinar o bê-a-bá da matéria que se julgam abalizados conhecedores, e que estão aos pés de muitos outros “mestres” que os conduzem. Então há esse confronto, esse conflito, essa divergência entre o que sangrou para saber, e o que se enoja do aprender. São inimigos potenciais, que não recuam amedrontados, posto que do lado de lá a arma é a ignorância, e a ignorância é muito, muito mais poderosa e feroz e nociva do que se possa imaginar; e do lado de cá a arma é o saber, que também é poderosíssima e que exulta quando reduz a citada ignorância a pó, mostrando o quanto ela é ignorante. No fervor dessa batalha insana, os dois lados saem feridos, uma vez que nenhum exército é cem por cento imune, invulnerável. Se por um lado o saber é digníssimo, por outro é fundamental considerar as palavras de Sócrates: tudo que sei é que nada sei! Então, discursando aqui, considerando, refletindo, agora neste instante eu percebo que não odeio a homens, mas à postura adotada por eles. Até porque minha natureza fraternal e solidária não me permite tomar uma atitude radical de agressão ao ser humano. Mas como odeio suas posturas! E eu sei que sou delirantemente odiado por eles! Se odeiam minha pessoa ou minha postura , eu não o sei! Feliz ou infelizmente, por mais que eu queira disfarçar, simular diante dessa gente minha condição de homem que sabe alguma coisa (e dizer aqui que não sei nada, seria, no mínimo indecente e levaria o(a) leitor(a)  a concluir que ele(a) seria um(a) burro (a) me lendo e perdendo o seu tempo com coisa tão insignificante), por mais que eu queira disfarçar , não consigo: uma palavra dita às vezes sem a menor intenção de machucar, causa uma ferida no outro que se assemelha a uma úlcera que agride o estômago, ardendo e fazendo o paciente gritar de dor. Não raro, somente o meu simples olhar causa desprezo e nojo nesse pessoal! Mas a recíproca é verdadeira: sensitivo e intuitivo em grau máximo, em questão de segundos minha mente registra , analisa e  dá o resultado sobre o meu interlocutor: um idiota pedante! E então pinta o monstruoso desprezo! E esse desprezo pela postura do outro ( principalmente no fervor de uma discussão) , gera uma irritação em mim que, como já disse, beira a histeria! Ah! Meu Deus, Ah! Meu Deus, tenha misericórdia de mim! Que desprezo avassalador eu tenho pela mediocridade! Meus  irmãos que agora me lêem: será isto um defeito? Falem sem medo de me ofender: será que enquanto eles são fanáticos pelo não-aculturamento, eu sou fanático pela cultura? Mas, por outro lado, me parece que não, pois não é verdade que cultivo deliciosas e verdadeiras amizades com pessoas extraordinariamente humildes, analfabetas até, e tudo vai bem?! Claro  está que essas pessoas não querem saber o que não sabem, embora possuam uma sabedoria natural da qual, não raro, sou discípulo! Não são sabichonas: ensinam vivendo! Não dominam as profundezas do pensamento filosófico, mas a partir de um jeito especial e carinhoso , a partir de uma fala doce e amiga, cheia de ternura, sabem – por exemplo-  curar um coração ferido por um mal de amor. No convívio com essa gente, o preparo acadêmico é dispensável , posto que se fala de alma para alma, e não se pretende exaltar o intelecto. Agora, vejamos: pela manhã eu me encontro com 50 pessoas obscuras, profundamente entristecidas que, com ou sem maldade minam minhas resistências energéticas (até pela minha própria postura de esponja psíquica) e então eu, comungando com aquela escuridão , passo a achar que de fato a vida não vale a pena, e que o melhor é eu desistir dos meus mais queridos projetos; e pela tarde  me deparo com outras 50 pedantes que pretendem me explicar as origens do universo e que desconhecem como o pão é feito ali na padaria da esquina, o que provoca a minha ira, me faz que a carne trema toda (sou exagerado, sim!) na vibração  indignada dos nervos, e então já não sou dono de mim, do meu precioso controle, e o coração acelera e então eu perco a noção da fala, e grito sem perceber, e dou vazão ao escárnio, à ironia, e reduzo a pó a mediocridade do outro, que passa a me odiar três vezes mais. E passo uma noite feita de pesadelos, e se isto acontece não ocasionalmente mas com lamentável constância, então minha vida torna-se um inferno, e minha abençoada felicidade , minha radiante personalidade acanha-se , e então eu digo: - Senhor, o que é de mim? Então não sou como  alguém que vença as dificuldades da vida com um arsenal de características iluminadas, mas como  um desgraçado que carece de dez centavos para comprar um cigarro a varejo. Porque a tristeza diminui a personalidade e a ira a enfeia! E uma personalidade diminuta e feia não conquista a ninguém! O que fazer? Se não sou psicólogo de almas infelizes, do mesmo modo não sou curador de intelectos feridos ( os arrogantes , na verdade, são pessoas profundamente cônscias do nada que são, e isto para elas é a morte; matam-nas!) , e se tenho dificuldades em me manter equilibrado diante de ambos ( o que constitui uma falha de minha personalidade) então me parece que tenho de me posicionar em atitudes para não afundar. Quais? Conviver com pessoas alegres, realizadas, não por desprezo às tristes, mas, como disse duas linhas acima, para não afundar. E onde se encontram essas pessoas? Quem souber, por favor, me informe, sim? Conviver com pessoas intelectualmente saudáveis, não por desprezo às pedantes mas, como disse cinco linhas acima, para não afundar. E onde se encontram essas pessoas? Quem souber, por favor, me informe, sim? Em última análise, já pensou , amigo(a) leitor(a) conviver com pessoas alegres, realizadas e intelectualmente saudáveis não seria uma maravilha? Não seria um estado de existir paradisíaco? Pessoas que vislumbrassem no horizonte uma infinidade de possibilidades; que sentissem, no pulsar da vida, o pulsar da sua própria existência; que percebessem que podemos optar pela tristeza ou pela alegria, mesmo que conosco tenham ocorrido verdadeiras tragédias, uma vez que da indumentária carnal muito em breve só restará o pó! Eu diria então: É URGENTE SER FELIZ! Pessoas que percebessem que podemos optar pela ignorância ou pelo saber, mesmo que tenhamos que recorrer a livros usados e a escolas públicas, uma vez que da indumentária carnal muito em breve  só restará o pó! Pessoas que amassem a filosofia , a poesia, a ciência, a política e o resultado prático desse amor impactando a sociedade!  Eu diria então: É URGENTE ILUSTRAR O INTELECTO! Em suma: ser feliz para derramar generosamente felicidade por sobre a terra , a despeito dos ocasionais tristes que odeiam os alegres; ilustrar o intelecto para derramar o saber sobre a terra, a despeito dos ocasionais  pedantes que odeiam os sábios. Eu juro: eu quisera poder consolar os tristes e suportar os pedantes, sem me obscurecer e irar, mas não tenho tido muito sucesso, para não dizer que sou um fracasso. Talvez um dia eu aprenda a ter um coração compassivo, mas desapegado; uma mente brilhante, mas liderada por uma alma mais paciente. Enquanto isto não acontece, cadê esse pessoal alegre e cheio de inteligência, para que eu possa apresentar esse  amigo analfabeto cheio de sabedoria e paz, para que juntos possamos ser todos  felizes?
CAVALAIRE
Enviado por CAVALAIRE em 19/03/2006
Código do texto: T125295
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