CERIMONIALISTAS MEDIEVAIS NA SEMANA DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE CARUARU

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia – SNCT, que este ano está na sua sexta edição, e a Semana Estadual de Ciência e Tecnologia – SECT, no Estado de Pernambuco, acontecem desde o dia 19 e vão até 25 de outubro, sendo coordenadas pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, regional Pernambuco, com uma Coordenação Estadual composta por representantes de algumas Instituições de Ensino e Pesquisa do Estado.

O evento, que tem como tema central "Ciência no Brasil", conta com o apoio de cerca de 120 organizações e instituições parceiras, como a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Governo do Estado de Pernambuco, Espaço Ciência, Instituto de Pesquisa Agropecuária (IPA), Prefeitura de Caruaru, Instituto CEFET, Prefeitura do Recife, UFRPE, Instituto Oceanário, UFPE, PCR, UPE, CPRH, Fundaj, entre outros, e durante oito dias, movimentará diversas ações e projetos na Região Metropolitana e em cidades do interior.

O objetivo da Semana é mobilizar a população, em especial crianças e jovens, em torno de temas e atividades de ciência e tecnologia, valorizando a criatividade, a atitude científica e a inovação. O evento pretende ainda promover atividades de divulgação e debates sobre o passado brasileiro relativo à ciência e tecnologia, mostrando desta forma a importância da ciência e tecnologia para a vida de cada um e para o desenvolvimento do País.

Na cidade de Caruaru, paralelamente, acontece a Semana Municipal de Ciência e Tecnologia, uma ramificação da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, e suas atividades concentram-se no Pólo Cultural, que fica na Estação Ferroviária, um dos locais onde acontece uma exposição, desenvolvendo o tema “Ciência no Agreste”, que nessa primeira edição conta com o apoio do Sebrae, Senai, Itep, faculdades e rede municipal de ensino.

O programa, promovido pela Prefeitura de Caruaru, tem como objetivos aproximar a população da produção de ciência e tecnologia feita por estudantes, professores, cientistas da região e difundir o conceito de que ciência e tecnologia estão sempre presentes no cotidiano de todos. A organização e produção do evento ficam a cargo da Secretaria de Educação, Esportes, Juventude, Ciência e Tecnologia, através de sua Diretoria de Ciência e Tecnologia.

Eu tive a oportunidade de assistir à abertura dessa programação em Caruaru, no domingo, dia 18, e observei o quanto os cerimonialistas estragam os eventos. Alguns especialistas afirmam que o cerimonialista é o responsável pelo protocolo e outros acreditam que estes são os encarregados de assessorar os anfitriões, mas sempre respeitando as vontades de quem os está contratando.

Naquela cerimônia, fez-se uma abertura com uma jovem (acredito que, estudante do Instituto CEFET) cantando, de forma belíssima, o hino nacional, seguido de um recital com os poetas Paulo Moura e Edgar Diniz, os quais escreveram a série “Cordel Científico”, organizado pela SBPC, que tem a finalidade de familiarizar, de forma poética, cientistas de grande importância.

Acontece que o cerimonial do evento não aceitou essa abertura como oficial e de forma indelicada tentou impedir o seu acontecimento. Por conta disso, os cerimonialistas causaram constrangimentos aos artistas e à plateia. A jovem que cantou o hino nacional, e foi aplaudida de pé, teria como acompanhante um violonista, mas esse foi impedido de se apresentar. Os poetas cordelistas, que também foram bastante aplaudidos, tiveram seu tempo de apresentação reduzido à apenas cinco minutos para ambos e foram perseguidos por um indivíduo que só faltou lhes tomar das mãos, o microfone, o que prejudicou demais às suas performances.

Os cerimonialistas alegaram que o tempo era bastante curto para se cumprir a programação oficial. Entretanto, após essa abertura, o dito cerimonial, fez o povo ficar meia hora levando um chá de cadeira, debaixo de um calor infernal e num silêncio insuportável. Como se isso não bastasse, a programação oficial aconteceu, meia hora depois, com o canto do hino nacional, de forma tradicional e com uma série de discursos que mais parecia um palanque eleitoral.

Para mim ficou caracterizado que houve uma discriminação quanto à cultura popular, como se o trabalho dos poetas cordelistas não pudesse ter cunho científico, desmerecendo inclusive o objetivo da Semana que seria de “mobilizar a população, em especial crianças e jovens, em torno de temas e atividades de ciência e tecnologia, valorizando a criatividade, a atitude científica e a inovação”.

Se para esses ditos cerimonialistas, escrever e declamar poesias populares, não representa criatividade, eu desafio qualquer cientista ou cerimonialista, a fazer e interpretar o que os poetas populares do nordeste fazem. Mas não pretendo aqui apenas defender os poetas populares, e sim a toda classe artística, pois o violonista que foi escanteado e a intérprete que cantou o hino nacional, mereciam mais respeito.

É por atitudes como essas, desses cerimonialistas medievais, que o povo se afasta, cada vez mais dos políticos, pois a maioria que ali se fez presente gostaria de conhecer os trabalhos da pesquisa científica no Brasil, mas também queria apreciar a genialidade da cultura popular brasileira, que esses burocratas desconhecem.

Não sei se esse cerimonial estava a cargo da Prefeitura de Caruaru ou de outra entidade envolvida no evento, mas deixo aqui o meu desabafo na defesa do respeito à cultura pernambucana.