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Convocação da Seleção Brasileira de Bocha – Uberaba/MG – 2006

(Artigo publicado no site do autor: www.nardeliofernandesluz.com)

Após quase dois meses de treinamento intenso e muita ansiedade, finalmente chegou o dia da seletiva e classificação final para a Seleção Brasileira de Bocha Adaptada. A avaliação foi na nossa vizinha, Uberaba, e, portanto, pela primeira vez nós da APARU fizemos uma viagem sem cansaço ou sofrimento. Fomos numa van adaptada, de forma que nem das nossas cadeiras de rodas precisamos sair e a única coisa que incomodava era a ansiedade. Essa, por mais que tentemos contê-la, nos invade e se aloja de forma inexpugnável. Mas, se por dentro estávamos em brasa, tentávamos amenizar com as costumeiras brincadeiras e a belíssima paisagem do nosso querido Triângulo Mineiro.

Chegando à capital do zebu, fomos direto para o hotel Del Rey, no Centro. Nesse, apenas os banheiros não são adaptados para deficientes, mas já estava combinado que utilizaríamos as adaptações da ADEFU para banhos e outros. Os corredores do Del Rey são espaçosos e os quartos possuem dimensões adequadas, assim como o elevador que leva ao restaurante no 1º andar é de fácil acesso. No mais, ficamos todos no térreo, o que facilitou consideravelmente nossa estada. O fato de na seletiva só estarem os 15 atletas pré-convocados, os apoios e o pessoal da ANDE – Associação Nacional de Desporto para Deficientes –, contribuiu para que não houvesse qualquer congestionamento.

Uma vez definidos os apoios – a Silvania ficou comigo –, fomos conduzidos aos nossos respectivos quartos, onde deixamos a bagagem e em seguida tomamos o ônibus adaptado da ADEFU, que nos levou as instalações da mesma. Fazia um friozinho básico, mas nada que pudesse causar contrações nos braços e atrapalhar o desempenho de nós lesados medulares – que somos mais sensíveis ao frio do que os outros deficientes – e o sol, embora tímido, já dava o ar da sua graça.

Ao chegarmos a ADEFU, fiz um tour rápido e fiquei encantando com o que vi; e bastou observar os demais para perceber que estavam sob o mesmo efeito que eu. O complexo da Associação dos Deficientes Físicos de Uberaba é imenso e muito bem estruturado. Há partes ainda em obras, mas entre as que já estão concluídas e em pleno funcionamento, conta com um enorme ginásio – cujo espaço livre coube com folga duas quadras de bocha –, oficinas, grandes banheiros adaptados, sala de informática, fisioterapia, salas de aulas, refeitório e muitos outros. Isso apenas o que pude observar, pois os trabalhos da Associação se estendem muito além da estrutura física.

Nos foi servido um delicioso almoço e, logo após, começaram os treinos seletivos. Os exercícios técnicos e estratégicos foram elaborados pelo Darlan – o competentíssimo técnico da Seleção Brasileira de Bocha. Foi ele que também os ministrou, com o auxilio das técnicas regionais Janaina, Carol e outros. É bonito ver o bocha em ação, pela própria emoção e prazer do esporte em si, mas também pela união entre atletas, apoios, técnicos, arbitragem e todos mais que azeitam essa máquina e a faz funcionar. Já mencionei em textos anteriores, mas não me canso de exaltar que – talvez pela maior dependência dos atletas – o bocha adaptado é o esporte de maior união entre as pessoas. É algo que não dá para definir fielmente com palavras, é apenas sentido pelos praticantes e outros envolvidos.

Os primeiros exercícios visavam principalmente avaliar a força, direção e precisão das jogadas e se mostraram extremamente difíceis. Dignos mesmo de atletas de ponta, aptos para defender o Brasil no Campeonato Mundial – nível mais alto de competição neste esporte. Conquanto o piso das duas quadras fosse perfeito – liso e sem qualquer descaída –, eu não estava indo muito bem. Observei e numa silenciosa avaliação geral, percebi que os outros também não. Portanto, o problema não estava em mim, mas no grau de dificuldade dos exercícios. Ao menos foi o que acreditei naquele momento.

Ao final da tarde de quarta-feira – primeiro dia de treinamento –, todos estavam exaustos; maiormente os atletas de longe como Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, que haviam encarado muitas horas de ônibus até Uberaba. Assim, de uma forma quase geral, jantamos nos quartos e caímos na cama. Assim que a Silvania e Sandra – essa última é mãe e apoio da Daniele, mas é extremamente esforçada e ajuda a todos que dela precisa – me viraram e ajeitaram de lado na cama, dormi quase que imediatamente. Mas, como sempre, acordei por volta das 03:30 da madrugada, com a costumeira sensação de cama-estranha.

As primeiras batidas na porta, por volta das 06:00, me encontraram acordado. A Silvania não demorou a trocar minha roupa e logo chamou o Rodolfo – apoio do Valmir – e o competentíssimo Nivaldo de Uberaba – o melhor apoio masculino da nossa região. Assim que os dois me transferiram para a cadeira, escovei os dentes e minha acompanhante terminou de me arrumar e buscou meu café da manhã. Eu estava pronto e enquanto ela voltou ao restaurante no 1º andar, para seu próprio desjejum, rumei para o ônibus, que já esperava. O frio havia se intensificado um pouco, mas nada que pudesse atrapalhar e, no mais, o sol já começava a espalhar seu calor maravilhoso sobre a cidade de Chico Xavier. Eu estava agasalhado, de forma que os tremores que sentia vez ou outra eram mais de ansiedade que de frio.

Entrementes à parte física do esporte, tivemos um curso de regras e arbitragem com o Pit – árbitro internacional de bocha – e sessões coletivas de psicologia com a bela e simpaticíssima Carina – psicóloga da Seleção Brasileira de Bocha. Ambos foram bastante elucidativos, pois regras mudam constantemente e é imprescindível a um bom atleta estar por dentro dessas mudanças, assim como saber quais exatamente seus direitos e deveres dentro da quadra – e fora dela –, a fim de não cometer erros que possam levá-lo a ser penalizado ou mesmo desclassificado. Na psicologia, entre outras coisas, aprendemos técnicas bastante eficazes de relaxamento e concentração. E ainda, de acordo com a necessidade, alguns atletas tiveram sessões individuais com a psicóloga.

O segundo dia de treinamentos começou com novos exercícios de técnica e tática, cujas dificuldades aumentavam de um para o outro. Enquanto nós da classe BC4 e os BC3 fizemos o treinamento físico, os atletas das classes BC1 e BC2 participaram de sessão coletiva com a psicóloga. Uma vez terminados, a coisa se inverteu e foi nossa vez de tratar a ansiedade. Em seguida serviram o almoço e, após um descanso de pouco mais ou menos meia-hora, retomamos os treinos da tarde. Esses consistiram em competições diretas de um atleta contra o outro, dentro das respectivas classes. Contudo, havia três diferenciações das partidas normais: a 1ª era que éramos assistidos por um técnico e esse podia intervir quando achasse conveniente, para dar sugestões ou mesmo mostrar os erros cometidos; a 2ª era que cada partida era composta por apenas duas parciais, ao invés das quatro normais; a 3ª era que acertaram o cronômetro com um minuto a menos para cada parcial, e isso pode fazer a diferença, pois nos dá menos tempo para raciocinar.

Eu realmente não estava bem e, por mais que tenha tentado usar o que acabara de aprender sobre concentração, nenhuma jogada dava certo. Novamente uma força invisível parecia desviar as bolas e a cada erro meu nervosismo aumentava. Chegou a ponto de me esquecer que podia usar toda a extensão do box para driblar a barreira adversária; coisa que só me dei conta quando Darlan me chamou a atenção para o fato.

A primeira partida da competição foi entre eu e Eliseu – atleta da ADFP / PR, medalha de ouro no Campeonato Brasileiro de 2006. Tentei me concentrar e, como sempre, dei tudo de mim, mas não foi suficiente. Não fosse apenas minha má-fase, o Eliseu é atualmente o melhor atleta BC4 do país, e acabou por me vencer sem muitas dificuldades.

As partidas eram simultâneas nas duas quadras, de forma que ainda deu para assistir e torcer pelos meus amigos da APARU antes da minha segunda partida. Essa foi contra o José Roberto – atleta da TRADEF / SP, número 1 do ranking nacional. Embora longe do meu nível de concentração habitual, nossa partida foi dura, mas no final prevaleceu a melhor preparação do meu adversário, que me venceu pela diferença – ínfima, mas definitiva – de 2 pontos.

No final da tarde adentrei a quadra para minha terceira e última partida do dia. O adversário da vez era o Valmir (Cowboy) – meu amigo e parceiro na APARU / MG, medalha de bronze no Brasileiro de 2006. Ele também havia perdido suas primeiras partidas para Eliseu e José Roberto e estava num estado de espírito equivalente ao meu. Aquela foi sem dúvida a partida mais equilibrada e emocionante dentre as BC4, pois o Valmir aproximava uma bola e eu a tirava e colocava a minha e vice-versa. Na primeira parcial ele abriu 2 pontos e na segunda eu empatei, levando a partida para o tie-break. Nesse o Valmir ganhou no “cara ou coroa” e fez o que todo atleta de nível de seleção tem que fazer: lançou e colou sua bola na bola alvo. Como no tié-break só conta a bola que estiver mais próxima para a definição da partida, minha preocupação imediata não era fazer barreira, mas sim tirar a bola do adversário a qualquer custo e colar uma das minhas. Claro que ele ainda tinha 5 bolas e poderia tentar o mesmo depois, mas nem precisou, pois eu – “grosso” como estava – não consegui tirar a bola colada e acabei por desperdiçar todas as minhas.

Enquanto eram realizadas as últimas partidas das classes BC1, BC2 e BC3, eu e Valmir aproveitamos os espaçosos banheiros da ADEFU e os apoios Sandra, Nivaldo e Rodolfo – que não estavam ocupados no momento – para nos banhar. Assim, de banho tomado e cansaço aliviado, esperamos o término do mini-torneio e novamente seguimos para o hotel. Meu desempenho do dia não tinha sido dos melhores, mas ainda haveria o último dia e uma última esperança de melhora da minha parte. Jantar no quarto e cama, onde ainda assisti um pouco de tevê e bati papo com Silvania e Sandra antes de dormir.

Na sexta-feira, ao acordar com as batidas na porta, senti a disposição que tanto me faltara no dia anterior. Tinha dormido profundamente quase a noite inteira, o que me deixou totalmente descansado. Novamente o ritual de higiene pessoal de todas as manhãs e foi a vez do Silas – apoio de Campo Grande – ajudar a me transferir. Uma vez na cadeira, tomei o elevador para o restaurante e, após o desjejum, rumei para a calçada, onde novamente o ônibus esperava sob o sol agradável, que já começava a expulsar o frio matinal. Mais uma belíssima manhã na capital do zebu.

Chegando a ADEFU, repetiu-se o ritual da manhã anterior: BC1 e BC2 com a psicóloga, BC3 e BC4 no ginásio. A ordem de dificuldade dos exercícios técnicos era crescente e embora eu estivesse bastante confiante e muito mais concentrado naquela manhã, reconheço que não fui muito bem. Contudo, nenhum dos concorrentes à vaga na Seleção esteve melhor, ou se esteve, foi muito pouco. Novamente os ambientes foram invertidos e voltamos à sala da simpática psicóloga. Foi então que descobri que estávamos sendo avaliados não só dentro das quadras, mas também fora delas, em todas as nossas ações e até na falta dessas.

Durante o almoço, eu só pensava na competição que teríamos pela tarde. Daquela vez com partidas normais de quatro parciais e tudo o mais de uma competição normal. Ao menos era o que eu tinha entendido nas explicações do dia anterior. Não obstante, após o almoço, todos nos reunimos no ginásio e o tempo foi passando, até que perguntei a uma das técnicas regionais e ela me disse que não daria tempo para tal torneio e que a seletiva já havia sido encerrada. Àquela altura o pessoal da ANDE já estava reunido com a comissão técnica, avaliando os resultados daquele treino seletivo.

A expectativa era geral e para aliviar a tensão começamos a jogar partidas em duplas e equipes, misturando atletas das quatro classes, inclusive alguns da ADEFU que não tinham sido pré-convocados e estavam ali apenas assistindo. Assim, passamos uma tarde agradável, numa espécie de confraternização.

Terminada a reunião da comissão técnica, ainda estenderam um pouco mais nossa expectativa, dizendo que a convocação seria anunciada mais tarde, no hotel. Tudo bem, fosse o que fosse, já estava feito e algumas horas a mais não iam mudar nada e nem matar ninguém de curiosidade.

Já ao cair da noite, houve um pequeno discurso de agradecimentos do gentil Presidente da ADEFU – a quem somos nós que devemos agradecimentos –, pedido de votos de um cadeirante mineiro candidato a Deputado Federal e algumas – poucas, mas belas – palavras da técnica de bocha da ADEFU e organizadora do evento: a intrépida Janaina. A espera demorou mais que os discursos, propriamente ditos, e nos despedimos da Associação Uberabense para retornarmos ao hotel.

Antes mesmo de adentrarmos nossos quartos, veio o aviso para nos reunirmos no saguão, onde finalmente seriam anunciados os nomes dos convocados. Embora em dúvida quanto às outras classes, eu já tinha quase certeza do resultado da BC4. Só precisava ouvir o pronunciamento oficial para digerir definitivamente aquela bola incômoda que teimava em permanecer no meu estômago. E eu não estava enganado.

Claro que fiquei um pouco frustrado – afinal exercito a resignação, mas não sou de ferro. Confesso que a princípio até pensei em abandonar o bocha, mas já de cabeça fria concluí que eu seria um covarde se o fizesse e não seria merecedor das medalhas que já ganhei. E também acredito que algumas derrotas não são exatamente derrotas, mas oportunidades de exercitarmos nossa humildade e aprendermos com nossos erros. Aceitei, sobretudo, o fato de que a convocação foi justa, pois menos que o melhor não é aceitável para defender nosso país. A Seleção precisa de atletas capazes de superar fases ruins, para não correr o risco de cometer fiascos homéricos como o time de “estrelas sem brilho” que envergonhou o Brasil no futebol. Eu reconheço que, infelizmente, ainda sou um atleta dominado por fases – boas ou ruins –, mas aos poucos estou aprendendo e caminhando para superar isso. Agora é treinar, treinar e treinar, afinal, fiquei fora do Mundial, mas há outras competições pela frente.

No mais, era um enorme carrossel de emoções, pois fiquei muito feliz ao constatar que meus amigos pessoais e colegas da APARU: Valmir, Daniele e Sílvia foram convocados; pelo Nivaldo também ter sido convocado como apoio – pois ele realmente não merecia ficar de fora – ; e triste por Sandra e Silvania não terem conseguido.

Eis os 11 atletas selecionados:

BC1
ATLETA                  CLUBE
1    SILVIA DE PAULA        APARU / MG
2    JOSÉ CARLOS CHAGAS        ADEFU / MG
3    RAPHAEL GREGÓRIO        ADFP / PR

BC2
ATLETA                  CLUBE
1    MACIEL SANTOS        CAD / SP
2    ÉDER  VIEIRA NOGUEIRA ADD / MS

BC3
ATLETA                  CLUBE
1    DANIELLE MARTINS        APARU / MG
2    GEFERSON TEIXEIRA ROSA ADD / MS
3    ROBERTA VILELA        TRADEF / SP

BC4
ATLETA                  CLUBE
1    VALMIR FREITAS        APARU / MG
2    ELISEU SANTOS        ADFP / PR
3    JOSÉ ROBERTO SILVA        TRADEF / SP

PARABÉNS AOS NOSSOS ATLETAS!!!

Vamos todos torcer juntos para que a SELEÇÃO BRASILEIRA DE BOCHA possa fazer bonito no BOCCIA WORLD CHAMPIONSHIP – que acontecerá em outubro, numa arena que será montada na belíssima praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Sou testemunha de que cada um desses atletas deu tudo de si e mais um pouco para chegar aonde chegou, que terá muito orgulho e garra ao vestir a camisa da Seleção e fará com louvor a sua parte para elevar o Brasil a uma bela posição no cenário internacional do bocha.

Parabéns a todos que contribuíram para que eles chegassem à Seleção: apoios, calheiros, familiares, treinadores, etc!

Parabéns também a nós atletas que não conseguimos estar entre os 11, pois chegar aonde chegamos já constitui uma grande vitória. E, no mais, continuamos na área, se chutarem nossas canelas – ainda que não sintamos – é pênalti. (Risos)

Nardélio Luz
Enviado por Nardélio Luz em 18/07/2006
Reeditado em 29/11/2007
Código do texto: T196792

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Nardélio Luz
Uberlândia - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
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Nardélio Luz