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A proteção de Deus



                       A PROTEÇÃO DE DEUS

          A nossa proteção está no nome do Senhor
                         que fez o céu e a terra


O povo judeu, pelo menos o da Antiguidade, era muito afeito à oração. Historicamente – e vemos isto através das páginas do Antigo Testamento – a oração faz parte da espiritualidade judaica. Embora os povos muçulmanos rezem cinco vezes por dia, chamados pelos muezim, do alto dos minaretes, a mim parece que a oração dos judeus é mais encarnada, demonstrando um tipo de fé mais enraizada e madura.

Enquanto a oração dos islâmicos é um tanto quanto forçada, a partir de uma obrigação quase fanática, de uma convocação diária. A dos judeus é mais consciente e – ao mesmo tempo – suave e voltada para uma espiritualidade discernida, onde o cuidado espiritual se cruza com a solidariedade.

Dentro desse contexto sócio-religioso, o ser humano, entre tantas atividades, sempre se utilizou da oração para pedir a proteção de Deus. O fato é que a pessoa sempre teve os seus medos. A criança tem medos imaginários, do escuro, do “bicho-papão”, dos mitos do folclore, etc. O adulto também tem seus medos, teme as doenças, a morte, o desemprego, a traição, o desconhecido. Seus medos são reais.

Por conta disto, o ser humano, inspirado pela cultura judaico-cristã, se vale da oração para pedir o amparo de Deus, no sentido de defesa contra todos os tipos de mal, físicos e metafísicos, como saúde, proteção e prosperidade. É por isso que por séculos a Igreja tem ensinado que

             A nossa proteção está no nome do Senhor
                      que fez o céu e a terra

Na busca dessa proteção vamos abrir a nossa Bíblia e ler o Salmo 91 (ou 90 em algumas edições) para iluminar nossa meditação. É sobre esse tema que vai girar a nossa reflexão de hoje.

1  Você que habita ao amparo do Altíssimo, e vive à sombra do Onipotente,
2  diga a Javé: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus, eu confio em ti!”.
3  Ele livrará você do laço do caçador, e da peste destruidora.
4  Ele o cobrirá com suas penas, e debaixo de suas asas você se refugiará. O braço dele é escudo e armadura.
5  Você não temerá o terror da noite, nem a flecha que voa de dia,
6  nem a epidemia que caminha nas trevas, nem a peste que devasta ao meio-dia.
7  Caiam mil ao seu lado e dez mil à sua direita, a você nada atingirá.
8  Basta que você olhe com seus próprios olhos, para ver o salário dos injustos,
9  porque você fez de Javé o seu refúgio e tomou o Altíssimo como defensor.
10 A desgraça jamais o atingirá, e praga nenhuma vai chegar à sua tenda,
11 pois ele ordenou aos seus anjos que guardem você em seus caminhos.
12 Eles o levarão nas mãos, para que seu pé não tropece numa pedra.
13 Você caminhará sobre cobras e víboras, e pisará leões e dragões.
14 Eu o livrarei, porque a mim se apegou. Eu o protegerei, pois conhece o meu nome. Ele me invocará, e eu responderei.
15 Na angústia estarei com ele. Eu o livrarei e glorificarei.
16 Vou saciá-lo de longos dias e lhe farei ver a minha salvação
                                           
                             (Salmo 91[90]).


O texto em questão se trata de uma meditação no puro estilo sapiencial judaico que dá ênfase à proteção que o fiel busca no Senhor... A oração é feita como que a partir do templo, cuja inviolabilidade lembra o asilo que o Senhor dá àqueles que procuram sua ajuda. A palavra parece dirigida por um sacerdote ou profeta a alguém em dificuldade e passando por uma crise de insegurança ou temor. Ao ler os salmos é salutar encontrar neles palavras de profecia. Há biblistas que dividem este salmo em quatro grandes estrofes:

Primeira estrofe – vv.1-2
             Trata-se do resumo de todo o salmo; as próximas estrofes
             são explicações de como isto acontece; descreve o perfil do
             interlocutor do salmista;
 
Segunda estrofe – vv. 3-8
            Mostra os perigos e a forma como Deus nos protege;

Terceira estrofe – vv. 9-13
            Revela o grande poder de Deus;

Quarta estrofe – vv. 14-16
Retrata a presença de Javé junto daquele que crê.

O Livro dos Salmos, inserto na coletânea dos “sapienciais” agrupa 150 orações-poemas dos judeus e povos vizinhos que foram sendo colecionados por nove séculos, aproximadamente, até serem incluídos no cânon definitivo no século VI a.C. (Reforma de Esdras). Embora se fale muito em “salmos de Davi”, na verdade apenas uns 40% desses textos podem ser atribuídos ao rei-poeta.

A diversidade dos salmos revela uma ponderável riqueza espiritual. Eles tratam de toda espécie de experiências humanas, uma vez que falam de vitória e alegria, de medo e perseguição, queda e soerguimento. Refletem as emoções de homens espirituais e profanos, gozando a amizade com Deus, e de pecadores sentindo falta dele. Pedem bênçãos sobre os justos e punição dos ímpios. Talvez por esse motivo que os biblistas afirmam que no Livro dos Salmos está “o coração do Antigo Testamento”.

Algumas pessoas têm a curiosidade de indagar porque este salmo, bem como alguns outros têm duas numerações. O salmo 91, por exemplo, aparece numerado como 91[90]. A numeração maior (91) se refere ao texto original, no hebraico, e a segunda equivale ao texto latino, a partir da vulgata de São Jerônimo. Esta diferença ocorre a partir do salmo 9. Aqui, por fidelidade ao texto que utilizo (Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Editora Paulus), vou usar a numeração hebraica: nosso salmo de estudo é, portanto, o 91.

A primeira referência do desconhecido autor deste salmo (vv. 1-2) faz menção a respeito do destinatário, apontando-o como uma pessoa justa. Há teorias, não desposadas pelos especialistas, que o texto seria endereçado ao Messias que haveria de vir.

             Você que habita ao amparo do Altíssimo, e vive à sombra do
             Onipotente, diga a Javé: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu
             Deus, eu confio em ti!”.

No salmo 24 o rei Davi pergunta, estabelecendo como que um pré-requisito para aqueles que vão entrar no céu:

            Quem subirá ao monte do Senhor? Quem estará no seu
            tabernáculo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração,
            que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura
            enganosamente. Este receberá do Senhor a bênção e a
            justiça do Deus da sua salvação (Sl 24,4s).

Em analogia, nas nossas liturgias festivas costumamos cantar “Senhor quem entrará no santuário pra te louvar?” E no mesmo compasso respondemos “Quem tem as mãos limpas e o coração puro, quem não é vaidoso e sabe amar”. Isto evidencia nossa consciência a respeito das exigências para um convívio com o Senhor.

Voltando ao salmo 91, vemos nos vv. 5-6 os inimigos reais que assaltam os filhos de Deus, quatro males, uma “quadrilha” ou um “quarteto maligno”, provavelmente de inspiração mesopotâmica, pois aquele povo acreditava em fantasmas, sortilégios e feitiços;

           Você não temerá o terror da noite, nem a flecha que voa de
            dia, nem a epidemia que caminha nas trevas, nem a peste
            que devasta ao meio-dia (v. 5).
 
Vamos analisar um por um esses fatores, a partir da frase “Você não temerá...” que é um penhor de fé no poder de Deus. O medo é a antítese da fé. Quem crê no poder e na presença de Deus expulsa para longe o temor. Onde há amor não existe medo (cf. 1Jo 4,18).

1. Terror da noite  (a crise de consciência)
Quando estamos com “terrores noturnos”, que alguns comparam com a insônia, há aí um indicativo de que não estamos “descansando” no esconderijo do Altíssimo nem crendo nas suas promessas. Nosso sono agitado evidencia que há algo, físico ou espiritual não está bem. O medo surge quando nossa consciência nos acusa de desvios ou crenças diversas daquilo que o Senhor nos recomendou;

Você seguirá tranquilo o seu caminho, e os seus pés não tropeçarão. Você descansará sem medo e quando deitar, seu sono será tranquilo. Você não se assustará com o terror imprevisto, nem com a desgraça que cai sobre os injustos (Pv 3,24s).

2.        A flecha de voa de dia (as ciladas do diabo)
As flechas que voam de dia são os dardos inflamados do maligno, ou seja, seus ardis, suas artimanhas que às vezes até parecem ser coisa boa, mas que visam a destruição de nossa vida e a contaminação da nossa fé; tornam-se vulneráveis aqui aquelas pessoas cuja formação espiritual ainda não foi impregnada pela Palavra de Deus; como recomenda São Paulo, “Tenham sempre na mão o escudo da fé, e assim poderão apagar as flechas inflamadas do Maligno” (Ef 6,16); é vital que o crente nunca esqueça que está em constante “batalha espiritual” com as forças adversárias, e que “[...] o diabo está sempre rondando ao nosso redor, com  um leão disposto a nos devorar” (cf. 1Pd 5,8).

3. A epidemia que caminha nas trevas  (o pecado)
A epidemia aludida aqui se trata de uma pestilência figurativa, que surge nas trevas deste mundo moral e religiosamente enfermo, sob o poder de Satanás (cf. 1Jo 5,19). Essa pestilência produz uma condição mortífera na mente, no coração e nos atos, deixando as pessoas em escuridão quanto a esperança e ao plano de Deus, seus propósitos e suas provisões amorosas (cf.1Tm 6,4). Quem tem fé não sentirá medo no meio destas trevas, pois usufrui a abundância de bênçãos e luzes do Espírito; se de um lado vemos a graça e o perdão de Deus como uma cura, temos que ver o pecado como uma doença grave, uma epidemia capaz de levar à morte;

4. a peste que devasta ao meio-dia (a depressão)
Os povos do deserto, beduínos e caravaneiros, atribuíam àquela hora em que o sol está a pino, como a hora em que os demônios saíam para atacar as pessoas e roubar-lhes o sossego.

Na psicanálise encontramos a figura do “demônio do meio-dia” como uma expressão utilizada para caracterizar uma influência maléfica que provoca erros, distúrbios, confusões mentais, etc. Podemos considerar o “demônio do meio-dia” como a própria melancolia, ou seja, a perda do sentido da existência, falta de explicação por uma grande perda ou algo semelhante, que conduz invariavelmente à depressão. Esse tipo de depressão, como peste (enfermidade) pode estar na decorrência do “terror noturno”;

A depressão pode ser oriunda da imperfeição no amor, ou pode estar ligada aos nossos medos e sentimentos de culpa, remorsos, etc. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de resistir ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição É o que nos diz o psicanalista Andrew Solomon, em sua obra, sintomaticamente intitulada de “O demônio do meio dia”. No Getsêmani (os judeus falam em guetsemaní, “moedor de azeitonas”) Jesus teve alguns momentos de depressão (cf. Mc 14,34); o rei Saul também teve esse tipo de crise (cf. 1Sm 16,14-21).

O Senhor cuida daqueles que o amam. Ele é escudo poderoso e sustentáculo forte, abrigo contra o vento sufocante e proteção contra o ardor do meio-dia, defesa contra os obstáculos e socorro contra as quedas. O Senhor eleva a alma e ilumina os olhos, concedendo saúde, vida e benção (Eclo 34, 16s).

Nos vv. 3-7 o salmista descreve muitos perigos, entre eles a perseguição social, religiosa e política, coisas tão comuns que assolam o homem de todos os tempos e de todas as sociedades...

               Ele livrará você do laço do caçador, e da peste destruidora
                (v.3).

Em traduções mais antigas (e a Bíblia Almeida é uma delas) no lugar do termo caçador aparece o verbete passarinheiro. O passarinheiro, no Israel antigo, muitas vezes capturava pássaros com o uso de laços, visgos e armadilhas. Entre os laços do “passarinheiro”, está, figuradamente, a organização perversa de Satanás com suas “artimanhas” (cf. Ef 6,11).

O inimigo oculta armadilhas no nosso caminho para nos levar à iniqüidade e causar a nossa ruína espiritual. (Sl 142,3). A essa ruína o salmista dá o nome de “peste destruidora”.

Passarinheiro, a grosso modo, é aquele caçador que apanha e apreende pássaros. Revela-se a astúcia de um (o diabo que traz o mal) contra a fragilidade do outro. A Bíblia, de forma comparada, quando relata “passarinheiro” está se referindo ao diabo (poderoso) que aprisiona o espírito das pessoas (frágeis e vulneráveis) com as “maravilhas” deste mundo.

No original hebraico, a Bíblia fala no v. 3 em “ele te livrará da arapuca do caçador de pássaros (mipah iakush midêbêr)”. Na contrapartida desses ataques malignos, o salmista nos leva a descobrir a providência divina:

             Ele o cobrirá com suas penas, e debaixo de suas asas você
             se refugiará. O braço dele é escudo e armadura (v. 4).

Colocar sobre as asas tem um sentido de proteger, amparar, esconder do assalto dos inimigos. A figura protetora das asas perpassa uma boa parte da Escrituras, vindo eclodir no lamento de Jesus que, ao contemplar Jerusalém, num tempo próximo de sua paixão, diz de sua inconformidade diante do fato de a cidade, prefigurando toda a nação, não ter acolhido a oferta da proteção divina:

            Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas
            os que te são enviados! Quantas vezes eu quis ajuntar os
            teus filhos, como a galinha junta os seus pintos debaixo das
            asas, e não quiseste (Lc 13,34).

Israel sempre teve no Senhor uma instância de proteção. Sua história está repleta de narrativas que exprimem a hesêd (misericórdia) de Deus. Ele tirou o povo de uma terra de escravidão (Egito) e o colocou numa terra fértil (Canaã).

           Como águia que cuida do seu ninho e revoa em cima dos
           filhotes, ele (Javé) o tomou (o povo), estendendo suas asas
           e o carregou em cima de suas penas (Dt 32,11).

Diante do assalto dos caçadores, das setas e das pestilências, muitos haverão de cair, mas os que têm em Deus a sua defesa e o seu rochedo, nada acontecerá. Podem acontecer acidentes, enfermidades, atos de violências, mas o que habita na proteção do Deus Altíssimo nada sofrerá, conforme a promessa do salmista:

              Caíam mil ao seu lado e dez mil à sua direita, a você nada
              atingirá. Basta que você olhe com seus próprios olhos, para
              ver o salário dos injustos, porque você fez de Javé o seu
              refúgio e tomou o Altíssimo como defensor (vv. 7-9).

Nesses três versículos fica evidenciada a atitude paterna de Deus em favor dos seus justos:

v. 7
→ a derrocada de todo o tipo de ameaça;

v. 8
→ o salário dos injustos é a “segunda morte” (cf. Ap 22,15); esta expressão aparece em outras traduções como “a paga dos perversos” que são abatidos porque não tem a proteção de Deus;

v. 9
→ o Altíssimo assume a posição – através do seu Cristo – que assume a atitude de go’el do Povo de Deus. Por go’el entende-se o libertador, o irmão mais velho que vem ajudar, o defensor que assume a causa dos mais fracos.

A partir da intervenção do go’el como defensor dos justos, os eleitos protegidos sob as asas de Deus nada têm a temer. O rei Davi fala em não temer mal algum, porque estamos sob a defesa do bastão do pastor (Sl 23, 4). Aqui aparece a figura dos anjos, não apenas como mensageiros, mas como seres protetores, a quem fomos confiados pela piedade divina. Os vv. 11-12 têm paralelos em Mt 4,6 e Lc 4, 10s.

              A desgraça jamais o atingirá, e praga nenhuma vai chegar
              à sua tenda, pois ele ordenou aos seus anjos que guardem
              você em seus caminhos. Eles o levarão nas mãos, para que
              seu pé não tropece numa pedra (10-12).

Na Palestina, como a rigor em todo o Oriente Médio, havia três tipos de predadores que eram muito temidos: o leão, a serpente, aqui chamada de víbora, e o escorpião. Embora citada em muitos textos da Bíblia, a figura do dragão é mitológica e metafórica.

No Apocalipse (cf. 12,3.9; 13,2; 16,13; 20,2) ele personifica Satanás que será vencido pelo Cordeiro. A arqueologia nunca confirmou a existência de dragões. Se de um lado, as ameaças do terror da noite, da flecha e das epidemias apontavam para quem está dentro das casas, agora as serpentes e os leões atacam quem está fora, na estrada ou no deserto.

              Você caminhará sobre cobras e víboras, e pisará leões e
              dragões (v. 13).

O v. 11 esclarece que a presença de El-Shaday (o Senhor Deus) protege de todos os perigos. As ameaças podem ser classificadas em internas e externas, onde as internas apontam para os instintos, tendências ao desajuste e más inclinações. Já a externas são os inimigos, os invejosos, os difamadores. Esses todos, de acordo com o salmista haverão de sucumbir, caindo mil à direita e dez mil à esquerda.

Nos vv. 14-16 a seguir, está afirmada a aliança de Deus com o homem através de sete afirmações categóricas:

•              Deus livra
•              protege
•              responde
•              glorifica
•              está ao seu lado
•              dá vida longa
•              mostra a salvação

                Eu o livrarei, porque a mim se apegou. Eu o protegerei,
                pois conhece o meu nome. Ele me invocará, e eu
               responderei (v. 14).

Aqui, como em outras inúmeras passagens das Escrituras, fica claro que a vida humana não está isenta de angústias, sofrimentos e dúvidas. No entanto, a promessa é que Deus sempre estará ao lado do homem. E vai mais além a informação: ele vem em nosso socorro porque a ele nos apegamos, nos livrará e nos conduzirá à sua glória.

           Na angústia estarei com ele. Eu o livrarei e glorificarei (v. 15)

O ápice da intervenção divina na vida o homem se resume em longos dias que irão desembocar, no tempo oportuno, um kairós, na salvação final.

             Vou saciá-lo de longos dias e lhe farei ver a minha salvação
              (v. 16)

Ao dizer (v. 16) “vou saciá-lo... e vou lhe dar-lhe a salvação...” o escritor sacro está deixando clara a razão pela qual o justo confia em Deus. Nestas mesmas águas, no mesmo saltério, o rei Davi expressou sua confiança na proteção de Deus, com uma declaração que é repetida até hoje, nas liturgias, nas orações e nas exéquias do povo de Deus:

            Sim, felicidade e amor me acompanham todos os dias da
            minha vida, e habitarei na casa do Senhor por longos dias
            sem fim (Sl 23,6).

O fato é que Deus não elimina nossos temores, mas caminha conosco, acalmando-nos. Deste modo, vemos que o salmo 91, entre tantos poemas do saltério, é uma oração de fé na proteção divina em que o crente se entrega na mão de Deus, certo de que não será iludido nem abandonado.

Se de um lado, orar os salmos pode ser encarado como um ato de fé, de outro pode ser visto também como um gesto da mais primitiva superstição. É comum se ver, em algumas casas, empresas e escolas uma Bíblia aberta no Salmo 91. Às vezes, as páginas estão empoeiradas e amareladas pela ação do tempo, demonstrando que a Escritura não é lida.

 Outros penduram na porta de suas residências quadros que estampam uma cópia deste Salmo. Muitos utilizam o Salmo 91 para rezar. Outros citam trechos do Salmo 91 em suas orações, como se fossem uma fórmula mágica.

Lamentavelmente, o salmo 91 passou a ser utilizado como uma espécie de amuleto. As pessoas não têm a fé devida em Deus, mas usam o texto do Salmo como uma “segurança”. Até as religiões espiritualistas e afro-brasileiras entendem que o salmo 91 é poderoso e que deve ser utilizado nas horas de necessidade para pedir e agradecer a proteção divina para tudo e todos.

Conheci uma mulher, católica, pertencente a movimentos de Igreja, que tinha a Bíblia aberta no referido Salmo, e diante de uma contradição ou dúvida, bradava: “salmo 91 neles!”.

A relação do humano com o Absoluto – e a coletânea dos salmos no-lo revela – é toda ela pautada por descidas de proteção e subidas de pedidos de proteção e atos de ação de graças. É na misericórdia e na confiança que se estribam as relações recíprocas entre Deus e o homem.

            Piedade, ó Deus, tem piedade de mim, pois eu me abrigo em
            ti! Eu me abrigo à sombra de tuas asas, até que passem as
            calamidades (Sl 57,2).

A fé em Deus é um sentimento-certeza que precisa ser constantemente celebrado. Se alguém indagar qual o perfil de quem habita ao amparo do Altíssimo, e vive à sombra do Onipotente, ou seja, o destinatário de todas as graças de Deus, chegaremos à conclusão tratar-se de quem é justo e fiel a Deus. Sobre isto Davi se expressa magnificamente:

            Javé, quem pode hospedar-se em tua tenda e habitar em teu
            monte santo? Quem age na integridade e pratica a justiça,
            quem fala sinceramente o que pensa e não usa a língua para
            caluniar; quem não prejudica seu próximo, e não difama seu
            vizinho; quem despreza o injusto, e honra os que temem a
            Javé; quem sustenta o que jurou, mesmo com prejuízo seu;
            quem não empresta dinheiro com juros, nem aceita suborno
            contra o inocente. Quem age desse modo, jamais será
            abalado! (Sl 15, 1-5).

Este texto aponta para um diálogo entre um crente e um sacerdote ou profeta, sobre os requisitos de entrada, no templo ou no Reino dos céus. Pelo teor da resposta, fica evidenciado que para celebrar a relação com Deus é necessária a justiça, a verdade, a sinceridade e o temor de Deus. Só vai habitar no amparo do Altíssimo quem tem as mãos limpas, o coração puro e saiba desenvolver uma ponderável capacidade de amar e perdoar.

Assim, como já foi dito, o resumo do salmo 91 está nos versículos 1 e 2. Tudo se resume na entrega fiel que o crente faz de si mesmo nas mãos de Deus.

            Você que habita ao amparo do Altíssimo, e vive à sombra do
            Onipotente, diga a Javé: “Meu refúgio, minha fortaleza, meu
            Deus, eu confio em ti!”.

Para fazer jus à proteção do Senhor, é preciso sujeitar-se a ele e resistir tenazmente ao diabo. “Se agirem assim, o Maligno fugirá de vocês” (cf. Tg 4,7). Sujeitar-se a Deus, é estar debaixo de sua vontade divina, não se deixando seduzir pelo poder do mal.

Quando inquiriram o Messias se era lícito pagar tributo a César (Mt 22,17), ou quando apresentaram a mulher flagrada em adultério, tais questões não indicavam uma busca, por parte dos judeus, mas a elaboração de armadilhas para enlaçá-lo e fazê-lo cair em contradição com a lei. Como Jesus fora ungido para anunciar a libertação das armadilhas do maligno, ele passou incólume por este laço dos passarinheiros.

               Eles armaram uma rede para meus pés, e eu abaixei a
               cabeça; cavaram na minha frente um buraco e foram eles
               que nele caíram (Sl 57,7).

A expressão caem mil e caem dez mil aponta para um número incontável de servos que se deixaram seduzir. Há muito o profeta Isaias predisse que os moradores das duas casas de Israel haveriam de tropeçar por se escandalizar do Cristo

            Ele será uma armadilha, uma pedra de tropeço, um obstáculo
            e rocha de escândalo, capaz de derrubar as duas casas de
            Israel; uma armadilha e um laço para os habitantes de
            Jerusalém (Is 8,14).

As chamadas “duas casas de Israel” se referem à divisão que o país sofreu, nos reinos do Norte e do Sul, ocorrida após a morte de Salomão. Se o povo não se apoiar em Javé, a quem poderá recorrer? A queda de milhares estava prevista, pois tropeçariam na pedra angular, porém, não lançariam mão da proteção de Deus, naquele momento, nem no Cristo, posteriormente:

De fato, nas Escrituras se lê: “Eis que ponho em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa. Quem nela acreditar não ficará confundido [...] para os que não acreditam, será uma pedra de tropeço e uma rocha que faz cair. Eles tropeçam porque não acreditam na Palavra, pois foram para isso destinados” (1Pd 2,6ss).

Por fim, é impossível não observar o poder e a misericórdia de Deus combatendo as investidas do Maligno. Se de um lado temos o assalto da “quadrilha do mal” (o terror da noite, a flecha que voa de dia, a epidemia que caminha nas trevas e a peste que devasta ao meio dia) de outro a proteção divina é notável a partir de quatro referências meio que espremidas (vv. 1-2): Altíssimo, Onipotente, Javé e meu Deus.

O tema central desta oração litúrgica se situa entre dois eixos: Javé é refúgio e caminho. No refúgio, como defensor, Deus está presente; no caminho ele manda seus anjos cumprirem o projeto de proteção. Visto a fundo o salmo evoca a presença de dois (ou mais) personagens que dialogam a respeito do Deus que salva, resgata, protege e mostra o caminho.




                 Perceba a profundidade, a riqueza
                   e o poder da bondade divina...
               Sinta esse Deus que olha para você
                   em todos os dias de sua vida...










O autor que é Teólogo (leigo) e Doutor em Teologia Moral, publicou uma centena de livros, entre eles “Salmos - Orações do Povo de Deus”, Editora Ave-Maria, 2ª. edição, 1996.



Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 29/03/2010
Código do texto: T2165317

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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 72 anos
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