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Denúncia: Holocausto na Amazônia - A Floresta Sitiada

Fiquei muito triste a noite,do dia 18/11/05 ao assistir o programa Globo Reporter da Rede Globo, sobre a Amazônia,  não só pelo estado de degradação ambiental como também pelo sofrimento imposto àquelas pessoas que lá vivem. O quadro que se viu com a ausência das chuvas é consequência  também do desmatamento desenfreado e o que é pior respaldado pela hipocrisia dos nossos governantes, incluam-se aí todos desde o nosso presidente, minístros, a Sra. ministra do meio ambiente, os governadores do Pará e do Amazonas e seus ''comparsas'' de gabinete sediados no vergonhoso Congresso Nacional  e pasmem com a conivência de ONGS e orgãos de defesa do Meio Ambiente que fecham os olhos para as ações ilegais de fazendeiros,grileiros , sem - terras e madeireiros nacionais e estrangeiros instalados e respaldados pelo governo, todos unidos por  interesses mesquinhos, provocando numa escalada crescente um verdadeiro holocausto da maior floresta do planeta que já mostra os sinais de agonia...

O texto abaixo é uma denúncia a esse abuso  precisa ser levado ao conhecimento público massivamente para que a sociedade possa se posicionar contrariamente e tentar barrar esse crime absurdo levado a termo por nossos próprios governantes.

 Di Souza


A Floresta Sitiada

 

Madeireiros, pecuaristas e sem- terra fecham o cerco ao verde diante de um governo indiferente.

 

Há hoje uma visão catastrofista do futuro da Amazônia. Nela, pintam- se madeireiros e pecuaristas avançado sofregamente sobre um fiapo restante da selva. O fogo, utilizado para queimar a mata e dar lugar aos pastos, leva consigo árvores centenárias e destrói o habitat de centenas de espécies animais. No seu rastro, um cenário de terras devastadas e cidades miseráveis, herança de exploração desenfreada. Exagero? Sim e não. É improvável que a Amazônia , que é muito grande e só seria devastada por meio de um trabalho sistemático de desmatamento durante muitas gerações, chegue a correr o risco de destruição maciça, total, antes que a opinião pública se insurja e impeça a agressão. O apocalipse, no entanto, já desceu sobre pedaços consideráveis da região. Seria conveniente que eles funcionassem como alerta. Uma boa mostra fica na região do vale dos Carajás, no Pará. Como em uma dúzia de outras áreas da Amazônia, ali hoje se reúnem dois tipos de degradação. Uma é a da terra, transformada num cemitério de tocos, onde havia antes uma floresta luxuriante. A outra é humana. Em menos de vinte anos, os 100 000 quilômetros quadrados do vale doa Carajás deixaram de ser mata para virar pasto de quase 1 milhão de bois. O avanço da pecuária extensiva, a corrida dos garimpeiros, até Serra Pelada e os empregos indiretos gerados pela atividade da Companhia Vale do Rio Doce criaram municípios miseráveis como Parauapebas, Curionópolis e Eldorado dos Carajás, que virou notícia em 1996 devido ao massacre de dezenove sem- terra por policiais militares. Ainda nesse ano, as três cidades registraram quase 6000 mil casos de malária que atingiu assim, em único ano 50% da sua população. Houve ainda 1000 ocorrências de tuberculose e centenas de pessoas contraíram lepra. A cada ano, o pasto avança sobre o que sobrou da mata. Em vez de gastar dinheiro em calcário e outros corretivos para o solo, pobre em nutrientes, os pecuaristas preferem queima- lo. O fogo fertiliza a terra com a cinza, mas consome a sua já pouca riqueza natural. No Pará, pesquisas mostram que em doze anos, o solo fica tão destruído que nem a grama nasce mais. É como um deserto. Quem olha hoje o Vale dos Carajás duvida que um dia aquilo tenha sido coberto de floresta. Só acredita observando os últimos 4 000 quilômetros de mata continua da região, que sobreviveram à sanha da devastação porque estão na propriedade da Companhia Vale do Rio Doce. Mas mesmo essa última ilha verde está ameaçada. De sete anos para cá, a mata foi invadida nove vezes pelos sem- terra. Na última ocupação, no ano passado, em dois dias foi destruída uma área maior que a de um campo de futebol. "Não vamos deixar de tentar ocupar essa área só porque ela é de floresta", diz Raimundo Nonato Coelho de Souza, líder do Movimento Sem- Terra de Marabá. A ameaça de Souza mostra uma nova faceta do desmatamento no Pará. A maior parte das queimadas continua sendo feita por fazendeiros, mas os sem- terra e os posseiros são os novos vilões ambientais. Em agosto, 20 quilômetros quadrados do assentamento Macaxeira, em Eldorado dos Carajás, foram queimados. Os sem- terra dizem que o fogo veio de fazendas vizinhas, mas agora aproveitam a terra arrasada para preparar suas primeiras lavouras. Como se trata dos sem- terra, as ONGs fingem que esse desmatamento a fogo nunca existiu. A queimada é feita com uma câmara de pneu de carro presa a um pedaço de madeira. O fogo é colocado na borracha, que se derrete enquanto é arrastada no meio do mato ou do pasto. Cada pingo da borracha derretida provoca um pequeno foco de incêndio. Não há nenhum controle do alastramento do fogo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, Inpe, entre julho e novembro ocorrem mais de 1 000 focos de incêndio por dia na Amazônia, dois terço deles em Mato Grosso, no Pará e em Rondônia. O número é dez vezes menor que o dos anteriores, mas isso não quer dizer que as queimadas diminuíram. O motivo é que o governo decidiu trocar o satélite que capta as ondas térmicas da terra. Em vez do satélite que fazia a ronda do dia, quando as queimadas costumam acontecer, passou a utilizar os registros do satélite da noite, quando elas já estão acabando. A explicação oficial: durante o dia, o satélite estaria captando também reflexos do calor solar. A conclusão óbvia: na prática, a mudança é um truque, com o objetivo de dar a falsa idéia de que a situação melhorou. Foi também para esconder a realidade que o governo atrasou em quase um ano a liberação dos 700 000 reais necessários para o Inpe estimar do desmatamento da Amazônia. O atraso dificilmente poderia ter outra explicação. O dinheiro e pouco mais que o dobro do que foi pago à apresentadora Xuxa Meneguel pela participação em um anúncio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, Ibama, órgão federal responsável pela defesa da ecologia. Os dados sobre o desmatamento de 1995 e 1996 na Amazônia atrasaram, mas já eram assustadores em 1994. Naquele ano, 15 000 quilômetros quadrados de florestas foram derrubados, mais da metade do território de Alagoas. Com o Plano Real, milhares de fazendas de gado foram reativadas e a atividade madeireira voltou a prosperar. "O governo deveria ter pressa em obter esses dados", diz o diretor da instituição americana Smithsonian Thomas Lovejoy. "A natureza amazônica é muito frágil para que se demore tanto a reforçar o combate à devastação". Estudiosos da Amazônia desde os anos 60, Lovejoy é o coordenador de uma das principais pesquisas sobre os efeitos do desmatamento em florestas tropicais. Uma das conclusões da pesquisa, realizada a partir de 1979, na região de Manaus, é que o desmatamento afeta uma área muito maior do que se imagina. Na mata sobrevivente de uma região onde houver derrubada de árvores se observa uma concentração de espécies animais que dificulta bastante a vida do conjunto de seus habitantes. Em nenhum lugar do mundo tantas árvores são derrubadas quanto na Amazônia. Um levantamento da organização não governamental WWF, com base em dados da ONU, mostra que a média de desmatamento na Amazônia brasileira é a maior do mundo. É 30% mais intensa que na Indonésia, a Segunda colocada no ranking da devastação ambiental. De acordo com o estudo, uma em cada dez árvores serradas no planeta está na Amazônia. Vale ressaltar que esse ranking foi feito com os dados de 1994, antes dos últimos números do Inpe. Também aqui se queimam mais árvores que no resto do mundo. Análises do satélite americano NOAA-12 indicam que as nuvens de fumaça sobre a Amazônia são maiores e mais espessas que as que provocam pânico no Sudeste Asiático em Setembro. Uma comparação dos incêndio detectados pelos satélites revela que neste ano já se queimou 28% mais que no ano passado. Mas esse índice pode ser muito pior. O pesquisador Alberto Setzer, responsável pelos levantamentos sobre queimada no Inpe, descobriu que em setembro os incêndios na Amazônia cresceram 57% em relação ao mesmo mês do ano passado. "Lógico que a seca na região ajudou mas esse tipo de crescimento não ocorre por acaso", analisa Setzer. "É o resultado de uma ação internacional de atear fogo". Poucas  coisas são tão assustadoras quanto ouvir uma árvore cair dentro da floresta. O barulho é parecido com o de um trovão. Espanta pássaros, macacos e os serrado, que correm em disparada. Ao cair árvore leva consigo outras cinco ou seis, presas a ela por cipós. Também morre toda a vegetação no lugar onde a árvore cai. Depois, seus galhos são cortados e ela é abandonada em forma de tora no meio do mato. Dias, às vezes semanas depois, outro grupo tenta achar a árvore derrubada. De acordo com extenso trabalho do ONAG Imazon, para cada árvore que chega a uma serraria no Pará, outras 27 caíram inutilmente. A maior é esquecida na floresta, enquanto outras são abandonadas por estar ocas. Nem tudo o que chega às madeireiras, no entanto, é aproveitado. Por usar técnicas rudimentares, as serrarias da Amazônia desperdiçam um terço de toda a madeira que recebem. Esses restos são transformados em carvão, vendidos a 50 centavos o quilo. Nenhuma empresa no mundo sobrevive com índice de desperdício tão grande. Essa devastação sem sentido é feita por encomendados madeireiros, mas seria impossível sem os "bufeteiros". Eles são motoristas de caminhão- se é que se pode chamar assim a sucata sem lanterna, velocímetro nem freio confiáveis que leva as toras da mata para as serrarias. Há mais de 100 bufeteiros na região da cidade de Tailândia, às margens da esburacada BR-158 no Pará, o novo pólo madeireiro da Amazônia. Quase todos os bufeteiros operam sob contrato de risco- só recebem pagamento se acharem madeira. A maioria entra na mata e tira a primeira tora que encontra, não importa o dono. É roubo mesmo, e as serrarias receptam o produto sem nenhum constrangimento. "É verdade que as pessoas daqui não estão 100% na lei, mas fazer o quê?", diz o prefeito de Tailândia, Nazareno Souza. "Se o caboclo não conseguir tirar a madeira, vai morrer de fome. A árvore é importante, mas a vida desse pessoal também é". Tailândia, no Pará, está- se tornando um dos lugares onde mais se corta madeira no Brasil. Resultado dos fracassados projetos de colonização dos anos70, a cidade ainda não tem energia elétrica. Mesmo assim, lá funcionam mais de quarenta madeira, vinte horas por dia, à força de geradores. O nome Tailândia não é sugestão de modernidade de Tigre Asiático, mas uma comparação com a violência dos tumultos civis em Bangcoc nos anos 70. Os habitantes do lugar a acharam que a violência ali era muito parecida à da conturbada Tailândia e o nome pegou. A violência diminui, mas a ilegalidade não. Uma em cada cinco das 150 serrarias instaladas na região funciona sem licença. As outras podem Ter a papelada em ordem, mas também trabalham como se a lei não existisse. Em agosto, quando o Ibama autuou cinqüenta empresas por compra de madeira origem desconhecida, a prefeitura de Tailândia ameaçou expulsar os fiscais da cidade. A indústria madeireira é a terceira em geração de empregos na Amazônia, depois da agricultura e da pesca. Em toda a Região Norte, mais de 600 000 pessoas vivem da madeira. Cada dia de trabalho rende 6,7 reais aos mateiros, cortadores, motoristas e ajudantes que entram no meio da floresta para arrancar seu ganha- pão. É um trabalho arriscado. Francisco Castelo, de 33 anos, e Luciano Teixeira de Araújo, de 30, deixaram a Ilha de Marajó em julho para tentar a sorte em Goianésia do Pará, no nordeste do Estado. Conseguiram emprego como ajudantes de motosserrista às margens do Rio Moju. Recebiam 6 reais por dia. Duraram duas semanas no emprego, até caírem de febre com malária. Foram sumariamente dispensados. A malária é quase endêmica em áreas devastadas. No ano passado, foram registrados 440 000 casos da doenças na Amazônia, um terço deles do Pará. Entre todos os grupos envolvidos no desmatamento da Amazônia, nenhum mete tanto medo nos ecologistas quanto os madeireiros da Malásia. Não é sem motivo. Nos anos 60, a Indonésia se transformaram no centro mundial de extração de madeira. Agora, a mata primária do Sudeste Asiático está próxima da extinção e as grandes madeireiras de lá estão investindo centenas de milhões dólares na América Latina. Mas como podem estar atuando abertamente na Amazônia, o santuário ecológico nacional? Santa ingenuidade. O Os serradores da Malásia estão na Amazônia estão na Amazônia com o apoio deslavado dos governos do Pará e do Amazonas, ora. As federações das indústrias locais também dão o maior apoio aos reis da motosserra. Esses Estados disputam a vida das madeiras estrangeiras como se fossem montadoras de automóveis, confundindo geração de emprego com destruição da floresta. Talvez os governadores Almir Gabriel, do Pará, e Amazonino Mendes, do Amazonas, tenham vivido tanto tempo na vizinhança das árvores que sejam um pouco enjoados de tantas folhagem. Entende- se a alergia que manifestam, coitados. Alguém que acredite em reencarnação certamente desejará, por piedade, que numa próxima vida renasçam no meio do Saara. As três madeireiras malaias instaladas em Amazônia já são donas de um território equivalente a meia Bélgica. Somando- se sua área à das outras vinte madeireiras estrangeiras, tem- se uma Bélgica inteira nas mãos de malaios, chineses, americanos, dinamarquês, japoneses e outras nacionalidades de boa índole. Segundo a legislação brasileira, uma madeireira não pode ir derrubando as árvores sem mais nem menos. Deve fazer o que os técnicos do ramo chamam petulantemente de "manejo da floresta". Significa que a empresa precisa apresentar um projeto de abate, segundo o qual, quando voltar ao ponto em que começou a degola, se terá passado tanto tempo que a mata já estará recuperada. Pode ser que as madeireiras obedeçam a esse desenho civilizado. Os moradores da Amazônia com alguma familiaridade com serrarias duvidam. Para cuidar dos 5,1 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia Legal, o Ibama tem 275 fiscais, ou um funcionário para cada 18 500 quilômetros quadrados. A situação piora quando se sabe quando se sabe que madeireiros, agricultores e pecuaristas têm o total apoio dos governos estaduais da Amazônia. Nessa parte do Brasil, o governo chega a assinar autorizações para que as pessoas queimem árvores sem risco de futuras retaliações. É uma cautela exagerada. Raramente alguém é molestado por derrubar árvores na Amazônia. Um relatório feito pela Secretária de Assuntos Estratégicos da Presidência da República estima que 80% da madeira extraída da região tem origem ilegal. Incentivos ao desmatamento é que não faltam. O Instituto Nacional de colonização e Reforma agrária, Incra, mantém até hoje a regra de só considerar produtiva uma propriedade que tiver pelo menos 20% de desmatamento, como se derrubar árvores fosse atestado de eficiência. Além disso, não há nenhuma lei prevendo multa para o desmatamento ilegal. As multas do Ibama são baseadas em resoluções internas e, embora façam bonito nos discursos oficiais, acabam sendo anuladas pela justiça. Há casos vexatórios, como o do madeireiro Osmar Autuado várias vezes por tirar madeira de reservas indígenas no Pará, Ferreira vive trocando o nome de suas empresas, e com isso continua a operar normalmente. Mas nem tudo trabalha a favor da devastação. Veterano da Guerra do Vietnã, o técnico em computação Bob Higgings é um soldado do verde. Higgings, americano de 57 anos, poucos cabelos e uma tatuagem no braço esquerdo com a frase "nobody likes me" (ninguém gosta de mim), participa com dez brasileiros do Ibama e americanos da Nasa de um mapeamento fotográfico da Amazônia. Num avião Learjet, essa equipe fotografou as principais áreas de explorações de madeira do país com um sensor de satélite capaz de perceber buracos na folhagem. O acordo Ibama- Nasa já detectou dezenas de focos de desmatamento ilegal. São trabalhos como esse que podem diminuir o ritmo da devastação. Ela já atingiu um patamar significativo, mas o desastre ainda é evitável.

 

Texto obtido do site: www.amazonialegal.com.br
Di Souza
Enviado por Di Souza em 14/11/2006
Reeditado em 18/02/2015
Código do texto: T291322
Classificação de conteúdo: seguro

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