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Sexualidade do Deficiente, Sob a Visão de Um Tetraplégico

(Artigo publicado no site do autor: www.nardeliofernandesluz.com)

Para mim é um prazer falar sobre sexualidade, pois embora vivamos em pleno século XXI, vergonhosamente esse assunto ainda constitui um tabu, mesmo para as pessoas “normais”, mas, sobretudo para os deficientes. Não é vergonha falar sobre sexo. Vergonha é não se informar, pois a falta de informações leva a julgamentos errôneos e conseqüentemente ao preconceito e discriminação. Muitas famílias tratam seus membros portadores de deficiência como crianças, restringindo – ou mesmo proibindo – seu acesso a vida sexual e até mesmo a outras necessidades básicas à subsistência, como dignidade, direito e felicidade de um ser humano. Tratam-nos como vegetais, como se a deficiência os privasse dos sentimentos junto à imobilidade física. E, o que é ainda pior, fazem isso por pura ignorância.

Há alguns anos, quando mergulhei de mau-jeito num rio raso e fiquei tetraplégico, cheguei a pensar que jamais sentiria os prazeres do sexo novamente. Mas, eu estava equivocado, o sexo entre os deficientes existe, e feito de forma correta, com os devidos cuidados e a pessoa certa, é tão ou quase tão prazeroso quanto com os não portadores de deficiência.

Ainda nos primeiros dias de convalescença no hospital, embora o corpo estivesse totalmente paralisado, à proximidade de uma jovem enfermeira, fui surpreendido por uma onda de tesão tão avassaladora que quase me levou a nocaute. À aproximação da garota, pude captar seu perfume e, esse fato junto à visão das suas belíssimas curvas e da pele fresca aguçou minha libido a um patamar nunca antes alcançado. Foi a partir dali que notei o quanto ainda sentia desejo e o quanto esse me perturbava. Foi uma época que também senti muita raiva, pois se meu corpo estava paralisado, sem nada sentir... então, para que o cérebro continuar gerando aquelas sensações todas? No mais, ainda que eu pudesse dar prazer a uma fêmea, que mulher ia se interessar por um corpo paralisado, esquelético, pele sobre os ossos, uma múmia viva? Afinal, quem gosta de cérebro são os zumbis dos filmes de terror, tal pensamento me açoitava diariamente, sobretudo nas minhas intermináveis madrugadas insones.

Mas eu estava completamente equivocado, e os meses posteriores vieram a me provar isso. Ao sair do hospital, pedi a um amigo que me trouxesse tudo que ele pudesse conseguir na literatura sobre lesão-medular. O objetivo maior era estudar o máximo a respeito do meu problema, para não ter falsas esperanças no tocante a voltar a andar, mas também aprender algo sobre sexualidade pós-deficiência e os cuidados necessários para a manutenção da saúde do meu corpo. Nesses meus estudos descobri que embora não seja por vontade própria, o pênis do lesado medular pode ficar ereto. Esse fato acontece à revelia do cérebro, causado por espasmos raque-medulares – os mesmos espasmos que levam as pernas de um deficiente a se moverem sozinhas. Ou seja, embora eu não o sentisse, através de estímulos externos meu pênis podia ficar ereto e, sendo assim, eu poderia dar prazer a uma mulher. E, na transa, não é este o principal objetivo do homem, satisfazer sua parceira? A essa altura eu já tinha recuperado um pouquinho dos movimentos dos braços – que mantenho até hoje –, sobretudo no braço direito e, embora minha mão não se movesse – também como até hoje –, aproveitei um momento em que estava sozinho para tocar meu pênis, e este realmente reagiu ao estímulo. Pronto, pensei feliz da vida, agora só falta uma parceira para realizar alguns experimentos. Não obstante, o maior problema continuava: que mulher ia se interessar por um homem quase totalmente paralisado?

O tempo foi passando e eu via minha paralisia cada vez com mais naturalidade. A libido estava cada vez mais ativa, sobretudo quando sentia o perfume de uma mulher ou a via em trajes sensuais – o que num país tropical como o nosso é uma coisa bastante comum, sobretudo porque a natureza sempre foi bastante generosa com as mulheres brasileiras. Tendo sido privado da vida sexual em pleno auge, aos trinta e um anos, meu cérebro parecia incendiar à simples lembrança de uma mulher nua nos meus braços. Minha boa memória tinha se tornado então uma espécie de maldição, pois eu lembrava nitidamente de cada detalhe das minhas transas passadas, de cada curva, de cada gemido, de cada tremor das minhas parceiras. Lembrava do seu cheiro, do seu gosto – e quase podia senti-los –; chegava a sonhar varias noites seguidas estar fazendo amor com elas. Sonhava com orgasmos maravilhosos que tive no passado.

Gradativamente também fui percebendo que as partes que eu ainda sentia no corpo, como ombros, pescoço, orelhas e nuca, haviam se tornado muito mais sensíveis, a ponto de uma simples carícia de amiga me fazer incendiar. Eu acabara de conhecer pessoalmente uma amiga com a qual me correspondia desde antes da paralisia. Era uma garota jovem, inteligente e belíssima, de corpo lindo e alma nobre. A primeira que buscou algo em mim, além da aparência externa, que àquela altura já podia ser confundida com um ET (cabeça e barriga enormes, pernas e braços finos). O forte interesse da garota culminou em deliciosos beijos na boca e acho que só não foi além devido à falta de tempo e lugar apropriado. Sua virgindade não constituía nenhum obstáculo, inclusive, se fosse vontade dela, poderia ser plenamente preservada no sexo oral. Mas, enfim, o breve contato me mostrou que eu ainda podia beijar muito bem; e quão mais prazeroso havia se tornado o beijo na boca, com aquela nova sensibilidade mais à flor da pele.

Vez ou outra eu locava um filme pornográfico para tentar aplacar o fogo que cada vez mais ardia dentro de mim. E, embora as cenas de sexo constituíssem uma tortura, era algo ao mesmo tempo gostoso, que me fazia desejar cada vez mais uma mulher. As sensações cerebrais eram extremas, chegando a causar tonteiras e pequenas vertigens, e o que eu mais desejava era ter a boca, o corpo e sobretudo o sexo de uma mulher ao alcance dos meus lábios, poder explorar sua intimidade com a língua e os dentes, até senti-la se desmanchando na minha boca. Eu sentia saudades, muitas saudades de um corpo feminino estremecendo nos meus braços, do suor, do cheiro, dos gemidos roucos, das palavras ininteligíveis. Eu queria, mais que nunca, sentir o gosto arrebatador da intimidade feminina: o mais delicioso néctar que já provara em toda a vida.

Aprendi nos meus estudos solitários que a deficiência não impede a pessoa de ser amada, se casar, ter uma vida sexual e até ter filhos. O tetraplégico por lesão medular não ejacula normalmente, mas seu organismo continua produzindo espermatozóides. Sendo assim, seu esperma pode ser colhido e introduzido na parceira, possibilitando-os terem filhos legítimos. O esperma produzido pelo tetraplégico, devido à impossibilidade de ejaculação normal, é expelido gradativamente junto à urina. Esse processo acontece de forma tão sutil, que raramente é notado. Não obstante, estudos mais recentes me mostraram que já existem certos massageadores penianos que podem levar o lesado medular à ejaculação, e, portanto fecundar a parceira sem ser preciso recorrer ao processo cirúrgico (meio mais usado até agora). Aprendi que, embora o lesado medular – sobretudo o tetraplégico – não sinta o pênis, a ereção induzida por estímulos externos realmente o habilita a penetrar uma mulher e, portanto, dar prazer a ela. Como em toda regra há exceção, em alguns casos a ereção não consegue atingir o ápice, não sendo possível a penetração, mas nem por isso a pessoa está indisponível para o sexo: basta-lhe usar a imaginação e explorar novas possibilidades.

Aprendi que existem vários tipos de deficiência física, cada uma com sua peculiaridade. O deficiente por seqüela de poliomielite (paralisia infantil), assim como o paralisado cerebral (PC), perde a capacidade motora, mas continua com a sensibilidade preservada. Dessa forma, devidamente estimulado, pode chegar ao orgasmo e ejacular como qualquer pessoa dita normal. Assim como conceber filhos sem as dificuldades implicadas ao lesionado medular.

Na sexualidade do deficiente, é de suma importância a compreensão da parceira (o). No caso específico do lesado medular – que perde o controle da bexiga e dos intestinos – pode haver acidentes durante o coito, como a perda acidental de urina ou – em casos mais raros – até de fezes. Pois, à revelia do controle cerebral, os movimentos e o estímulo do pênis podem estimular esses órgãos, acarretando os acidentes citados. Nessas horas especialmente é que a compreensão da parceira ou do parceiro se torna imprescindível; e até mesmo do próprio deficiente, que se vê de repente numa situação inusitada e extremamente constrangedora. Portanto, o adequado a fazer é dialogar bastante, prevenindo ambos para a possibilidade de tais acontecimentos inusitados. No caso do deficiente que faz cateterismo (esvaziamento da bexiga por meio de sonda), o correto é lançar mão desse processo antes do inicio do coito. Há também aqueles que usam sonda uretral diariamente. Cujo tubinho da sonda deve ser devidamente ajeitado – dobrado paralelamente ao pênis – de forma a não machucar o deficiente e nem a parceira. Em alguns casos, como os citados acima, o ato sexual exige alguma preparação antecedente, mas nada que um pouco de paciência e bastante compreensão não possam dar jeito. O mais importante nisso tudo é saber que nenhuma forma de deficiência física impossibilita a pessoa dos prazeres do sexo.

Após o breve contato com minha amiga, percebi que embora meu físico não encorajasse, realmente existem mulheres que valorizam mais do que corpos bonitos. Desta forma, o que se tornara de suma importância na minha vida era preservar a saúde do corpo, mas principalmente cuidar do cérebro e coração. Numa das minhas viagens, reencontrei uma ex-namorada dos meus bons tempos e, após alguns dias de reaproximação, eis que surgiu a primeira oportunidade real de ter o corpo nu de uma mulher ao meu alcance.

Ela tomava um gostoso banho matinal e passava o hidratante na minha frente, contorcendo o corpo de forma sensual e insinuante. Meus sentidos ampliados, sobretudo o olfato, captava o cheiro afrodisíaco do corpo recém banhado e a visão daquela beldade fazia meu cérebro arder de desejo. Ela tomava todas as iniciativas. Estimulava minha bexiga com toques no abdome até a urina jorrar pelo canudinho, em seguida tirava o coletor e higienizava meu pênis. Ao toque da mão da moça, a reação era imediata e a simples visão do seu gesto causava um desejo tão arrebatador que não pode ser narrado com simples palavras. O tesão às vezes chegava a causar dores psíquicas, sobretudo quando ela usava a boca e a língua atrevida. Às vezes de lado (posição que durmo, escorado por travesseiros), ela me virava de costas para o colchão e procurava a posição que melhor se encaixasse á minha condição inerte. Tendo sua intimidade totalmente ao meu alcance, eu usava a mão paralisada em garra, a língua, o nariz, o queixo e qualquer protuberância do meu corpo que pudesse fazer fricção e estimular seu clitóris. Ela se virava e beijava minha boca, minhas orelhas, meu pescoço, arrancando descargas elétricas da minha espinha lesada, depois ia subindo, fazendo meus lábios e dentes gulosos descerem pelo seu corpo nu e ardente, até colocar os seios ao alcance dos meus lábios. Ali eu sugava e mordiscava os biquinhos intumescidos, sentindo os tremores e ouvindo os gemidos dela. A menina direcionava meu pênis para sua intimidade, nalgumas vezes a ereção era suficiente para penetrá-la, noutras não, mas isso não importava em absoluto, pois o verdadeiro prazer estava nos nossos toques e gestos preliminares. A meu pedido, minha amante mudava de posição, deixando sua intimidade úmida e cheirosa novamente ao alcance da minha boca. Eu voltava à carga até senti-la estremecer e se desmanchar nos meus lábios. Era impressionante a facilidade que minha amiga tinha para atingir o orgasmo, e quão abundante era seu líquido íntimo. Aliás, desde nossos bons tempos de namoro que eu me impressionava com tais dons dela, pois quando eu chegava ao auge, ela já o tinha feito duas ou três vezes. Em seguida ao gozo, ela se deitava ao meu lado, suada, ofegante, cheirosa. Costumava lamber carinhosamente o remanescente do seu néctar no meu cavanhaque – naquela época eu o usava. Beijava minha orelha, meu pescoço, dizia palavras carinhosas, que eram imediatamente retribuídas, etc. Embora sempre ficasse a sensação de estar faltando algo, devido a minha incapacidade de ejacular e chegar ao orgasmo, eu me sentia bastante realizado por ter sido capaz de satisfazer minha parceira. Depois de alguns minutos de descanso, a meu pedido ela voltava à carga, e todas as emoções se repetiam. E os dias, sobretudo as manhãs, se repetiram assim.

Passado algum tempo, reencontrei uma outra ex-namorada dos tempos de pós-adolescência. Eu não a via e nem tinha notícias há quase uma década e meia. No reencontro aconteceu o que costumo chamar de “paixão a segunda vista”. Com essa namorei oficialmente por cerca de oito meses e alguns mais extra-oficialmente. E embora ela não tivesse a mesma facilidade que a primeira para atingir o orgasmo, o sexo era tanto quanto prazeroso. Algumas vezes, nem com todos os artifícios orais eu conseguia fazê-la chegar ao ápice, mas aquilo não constituía um problema, eu pedia a ela para se masturbar para mim, o que fazia de muito bom grado e aquela visão sublime também me excitava e dava prazer ao extremo. Depois de atingir o orgasmo ela se oferecia novamente, inteira e sem pudor à minha língua gulosa, que sorvia tudo que tinha ou não direito.

O sexo entre duas pessoas sadias tem que ser sem restrições, pudores ou constrangimentos, só assim ambos podem alcançar o auge absoluto. Como diz a máxima popular, e eu concordo: “entre quatro paredes vale tudo”. Ser e fazer feliz, isto resume tudo o que realmente importa.

Quando se fala de sexo, automaticamente se pensa no coito, na penetração. Mas a grande verdade é que as preliminares é que fazem uma transa ser boa ou não. E uma verdade maior ainda é que, para um casal ser feliz, nem mesmo tem que obrigatoriamente haver sexo, ao contrário, o que leva à verdadeira felicidade é o amor. O sexo é apenas um complemento e um meio de extravasar a paixão, mas o amor em si é muito mais que isso. O amor verdadeiro independe até mesmo de contato físico, é basicamente psíquico: carinho, ternura, atenção, cumplicidade, paciência e, acima de tudo, respeito. O sexo por sexo é delicioso, mas infringe os sentimentos e incute uma parcela de “culpa” após o ato. O sexo com amor é divino, transcendental, arrebata o físico, extasia a psique e aproxima as almas. O mais importante realmente é que, com sexo ou não, havendo amor, a felicidade está ao alcance de todos e isso independe de ser ou não deficiente.

No mais, a maior deficiência que existe é a da alma, que gera discriminação e preconceito. Esses sentimentos sórdidos levam infelicidade ao ser, mas somente quando ele se permite atingir, do contrário, a coisa funciona como um espelho, refletindo a negatividade à pessoa que a gerou.

Nardélio Luz
Enviado por Nardélio Luz em 11/08/2005
Reeditado em 29/11/2007
Código do texto: T41925

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Nardélio Luz
Uberlândia - Minas Gerais - Brasil, 49 anos
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