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A mulher narcisista

Pois o Astério, um gentil membro daquele grupo de amigos, chegou alegre, com uma cara bem feliz, contando que tinha arrumado uma mulher nova e bonita. Coisa do outro mundo...

Os amigos ficaram alegres por ele, e pediram mais detalhes, o que ele, politicamente sonegou. Dias depois, estavam todos em uma festa, quando ele chegou com a nova mulher. A mulher era um monumento, morena, devia ter uns 30 e poucos anos, cabelos negros “como a noite que não tem luar”, cuja escuridão era logo dissipada, pois quando ela sorria, clareava tudo. Os olhos eram grandes e claros, não sei bem se verdes ou azuis, que lhe davam um ar misterioso, de gata no cio ou reencarnação da noiva de algum faraó do Egito. Sua elegância se destacava, colocando-a à frente das demais mulheres da festa.

Zé Inácio, um cara vivido, repetindo o mestre Ataulfo, sussurrou: “Laranja madura na beira da estrada... deve ter marimbondo... é muita mulher para o Astério!”. De um jeito ou de outro, a bela parceira do Astério polarizou as atenções, com sua desenvoltura e simpatia.

O macherio ficou deslumbrado, deixando o Astério mais faceiro que ganso novo em beira de taipa. E todos foram para casa comentando o sex-appeal da morena, invejosos, de certa forma, da felicidade do Astério. Dias depois, na clássica roda de chope das sextas-feiras, depois do trabalho, estavam todos reunidos.

Todos exceto o Astério. O assunto, como não podia deixar de ser, foi a mulher do próprio, seus dotes, sua beleza, seus cabelos negros e  longos e - indo adiante – conjeturas de como seria seu desempenho sexual. À medida que falavam, todos deixavam claro que a gata do Astério havia mexido com a cabeça de muita gente.

Foi quando o Paulão falou: “Uma coisa, porém, me intrigou: apesar de estar há poucos dias com o Astério, eu achei – não sei se é sonho meu – que ela estava dando bola para mim, fiquei até chateado com o fato...”.  O Jorge careca atalhou: “Gozado! Eu também achei que ela estava se desmanchando para mim... a princípio pensei que fosse gentileza, mas depois concluí que tinha coisa ali...”.

Aos poucos os amigos foram se abrindo, e constataram que, de fato, a estonteante morena, com seu sorriso enigmático, de meias fumê e suas freqüentes cruzadas de pernas, ao lado do coitado do Astério, estava dando bola para meia dúzia. Que cretinice! Dali há uns quinze dias, aparece o Astério na roda de chope. Um amigo brinca: “Vai pra casa, Padilha!”, como a repreendê-lo por estar em um bar, com uma mulher daquelas em casa. “Que nada - disse triste o Astério - terminei tudo!”.  “Como? - perguntou o grupo em uníssono. “Sim, prosseguiu ele, a mulher era fria como pingüim.

Bem diz o ditado que mulher é como filme, só se revela no escuro! A danada era narcisista, sofria de autofilia, só amava a ela própria, como mulher era um fracasso. Seu maior prazer era ser cortejada e comida com os olhos, mas na hora H, que decepção! Tinha prazer em se fresquear e ser desejada. Era só esse o seu prazer!”. Recordei o Zé Inácio: “Laranja madura, na beira da estrada...tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé...”.

De fato, existem mulheres assim. A narcisista age desta maneira. Gosta, inclusive, que o marido note como os homem a desejam. Seu prazer é ser admirada, converter-se no centro das atenções, na cereja do bolo. Ela atiça os machos. mostra-se coquete e faz ares de sedutora,  mas na hora do “vamos ver” foge da raia, pois sabe que seu desempenho não condiz com sua postura de “femme fatale”.


(artigo publicado, pela primeira vez no “Diário Popular” de Pelotas/RS, em novembro de 1988)

Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 26/10/2005
Código do texto: T63931
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão