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Mentiras da História


     A história sempre traz consigo alguns vícios, seja de cultura, de tradição (ou tradução) ou mesmo de ideologia. Muito já se falou sobre as feridas da ditadura brasileira que nunca cicatrizaram. Na Argentina e no Chile, os processos de punição dos torturadores estão em marcha. Aqui, ao que parece, está tudo na mesma, parado, no usual berço esplêndido e impune.

     O tema sociológico do envolvimento da história com o político é sempre atual. A história, como Mucker, Farrapos, Contestado, Sabinada, 1930 e tantas outras, vive em um limbo histórico, a espera, para a dissecação total, de algum historiador, místico, filósofo, cineasta ou sociólogo que ajude a desnudar uma parte, pequena que seja, de seu mistério. Os especialistas em História limitam-se a repetir os textos dos livros, sem questionar a verdade.

     Parece que todos têm medo de tocar em certas feridas ainda não cicatrizadas. As crianças continuam enlevadas por fábulas, distantes da realidade. O filme sobre Canudos dá uma certa coloração folhetinesca a um drama que ainda está longe de ter necropsiadas suas entranhas.

     As obras que existem, especialmente “Os sertões”, revelam a faceta “oficial” da narrativa, uma vez, junto com as tropas ia sempre um cronista para contar a vitória das forças do bem sobre o mal. E Canudos não fugiu desse estigma. A figura carismática do “Conselheiro”, de inegável riqueza antropológica e psicossocial, ainda pouco estudada, está a espera, como uma veia aberta em nossa história, a espera de uma releitura despida de ideologias. A história oficial, via-de-regra é mentirosa e favorece os status quo da situação.

     A crônica política exarada da grande mídia, até hoje, tem medo dos líderes populares (lembram como execraram Brizola?), e sempre procurou ver-lhes, mais os defeitos que as virtudes; mais a ameaça que o carisma. E isto se nota como os "bons meninos" denigrem a imagem de Che Guevara.

     No Rio Grande, violência, de uns tempos para cá, aumentou. Antes era culpa do Olívio e do Bisol (governo popular); agora é “estrutural” (o governo é elite). Somente o tempo é capaz de estabelecer um resgate de memória, mesmo assim, sujeito as pressões, desmentidos e campanhas. O que antes era culpa do governo hoje tem sua gênese nos problemas globais. É a forma mentirosa de encobrir a verdade.

     A figura de Antônio Conselheiro chegou a nós como a de um bandido, alguém que insuflava o povo inculto contra os poderes constituídos, inimigo da República e da religião oficial, etc. A estrutura agrária do nordeste (e é assim até hoje) era dominada pelas grandes fazendas improdutivas (que hoje deram lugar às usinas de álcool). A falta de apoio do governo, a cobrança de impostos, as benesses concedidas aos “coronéis” e o regime de semi-escravidão, submetiam o povo à miséria e à fome, obrigando-os a migrar. As promessas de erradicação da seca no nordeste revela o engodo.

     Infelizmente, e a visão sociopolítica da República no-lo revela, o “coronelismo” é o mesmo, até hoje. Conselheiro, como tantos idealistas que tombaram, apenas pregava a igualdade a liberdade e a justiça. As feridas estão abertas porque a história nos revela uma tendência endêmica de mantê-las assim, a despeito da dor, da indignação e dos efeitos que daí dimanam.


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 04/10/2007
Código do texto: T680573
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 75 anos
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Antônio Mesquita Galvão