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Companheiro


Nos tempos atuais, a expressão companheiro passou a ser vista como um identificador de pertença ao algum grupo, seja político, social, desportivo ou religioso até. Usam-na para expressar uma parceria de interesses, algo relativamente provisório, capaz de esgrimir entre a superficialidade do conhecido e o comprometimento do amigo. Hoje se pode dizer, do jeito que é empregada, que a palavra companheiro funciona como uma meia tamanho-único: cabe em qualquer pé.

Há tempos atrás, fazendo uma pesquisa em uma enciclopédia eletrônica espanhola, recém acoplada a meu computador, deparei-me com a origem da palavra “companheiro”. Eu sempre imaginei que o verbete companheiro tivesse alguma coisa a ver com alguém que faz companhia.

Tanto assim que as corporações mercantis são chamadas de companhias, o que me levava a crer tratar-se de um contingente de companheiros, perfilados aos objetivos da empresa. Companheirismo, deste modo, é visto por muitos, como o abraçar de algum ideal, juvenil, transitório, ideológico, quem sabe...

O grande problema é que se fala muito em “companheirada”, mas muito poucos sabem viver a solidariedade do ser companheiro. Às vezes, muitos desses segmentos não têm nenhuma cerimônia em usar seus companheiros, para atingir seus objetivos, nem sempre lícitos, muitos deles de pouca ética.

NO PRINCÍPIO ESTÁ O PÃO!

Nas origens ibérico-castelhanas, a palavra é composta de
con + pañero, que é alguém muito chegado, que come o pão conosco, ou que partilha conosco (ou nós partilhamos com ele) o pão. Alguém que senta na mesa. E nós não sentamos à mesa com qualquer um... Para nós, no Brasil, companheiro é sinônimo de amigo, parceiro (eventual), sócio (por interesse) ou colega (por obrigação ou formalidade).

Companheiro é aquele que doa algo para o bem do outro. Na raiz etimológica, essa doação é caracterizada pela oferta ou partilha do pão. Doar, nessa acepção, é diferente de contribuir. Quem doa dá do que é seu, e às vezes doa a si mesmo. Mais do que coisas, doa-se tempo, atenção, escuta... A contribuição sempre aguarda um retorno, um benefício. Eu contribuo com meu clube mas eles me deixam entrar para ver o jogo, nadar nas piscina...


UMA QUESTÃO DE DOMÍNIO!
Há os que, na vida, contribuem para exigir, dominar, encobrir faltas, acalmar consciências, ou porque têm demais, ou, por fim para pertencer, ao grupo ou à gang. O companheiro dá sem buscar saber o que o outro vai fazer com o bem doado. Há, entretanto, alguns equívocos na doação. Damos um prato (em geral descartável) de comida e não sentamos para conversar com o pobre.

Esse pode ser um doador, mas não é um companheiro... Quantas vezes enviamos dinheiro para uma instituição (até para deduzir no Imposto de Renda) e não vamos lá conhecer a fundo seus problemas... Em outras oportunidades, prometemos orar, em geral para não ter que botar a “mão na massa”.  Há  igualmente  os que se dizem companheiros, amigos, guias (até espirituais), mas cujas ações revelam um ponderável escopo dominador. Tornam-se líderes (se auto-proclamam companheiros) para dominar, para conduzir os demais a caminhos escusos...

O COMPANHEIRISMO DE QUEM PARTE O PÃO!
Alguém é companheiro sempre em função do pão que dá ou aceita. Companheiro é quem provê o pão na mesa de quem não tem. O ato de comer - juntos - o pão, cria aquele companheirismo que brota da doação, da fartura de bens e de afeto. Jesus proveu o pão para os que tinham fome. Tornou-se companheiro deles.

O ato de prover o pão às multidões famintas, é um dos mais claros sinais dos tempos messiânicos, que bem mostra que o reino começava a ser instaurado junto à humanidade.  Jesus faz o sinal do pão para mostrar que no reino só há fartura... Quando ele surge no lago, depois da ressurreição, enquanto os amigos trazem o peixe para o braseiro, ele já os esperava com pão.

Quando entra na casa do casal de discípulos, em Emaús, embora o brilho da lição escriturística, ele é efetivamente reconhecido “ao partir o pão”.

A CASA DA FARINHA!
O pão é historicamente símbolo do amparo, da acolhida e do companheirismo solidário. Nos sinais da fraternidade Jesus destaca o dar pão a quem tem fome. Ao dizer “eu tive fome e vocês me deram de comer...” ele ensina que, a despeito de uma destinação espiritual no futuro, o ser humano é corpo, realidade somática que precisa de carinho, respeito e pão.

O gesto de ser tornar perene através do “pão da vida” mostra a forma como ele imaginou para estar sempre conosco. Para transformar em prática toda a profecia antiga, Jesus nasceu em Bet-lehem (Belém), que quer dizer “casa da fartura do pão”. O companheirismo da mesa fraterna é sacramento, funciona como um autêntico sinal, e mais que isso. como um indicador de solidariedade.

O mundo está do jeito que está porque existem muitos parceiros, colegas, amigos até, mas poucos, muito poucos companheiros, que tenham a coragem de repartir o pão..


Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 11/11/2005
Código do texto: T70333
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
983 textos (321787 leituras)
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Antônio Mesquita Galvão