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Continuar vivendo


Eu encaro a doação de órgãos como um gesto de extrema solidariedade, embora tema algum descaminho, como atropelo à ética ou o ilícito da venalidade, coisas de que nenhum segmento da nossa sociedade está imune. Ora é alguém comercializando órgãos, ou algum magistrado deferindo em favor de algim conhecido. A gente não sabe se vai baixar um hospital para curar uma gripe e vai ter os órgãos extraídos em favor dealgum transplante irregular.

Embora em minha carteira de identidade conste "não doador", eu disse à minha mulher que, quando morrer, se tiver alguma coisa aproveitável, pode doar. Meu testamento, que pode ser o seu ou o de qualquer outra pessoa, começa assim:

“Um dia, um doutor qualquer determinará que meu cérebro deixou de funcionar e que basicamente minha vida cesse. Quando isto acontecer, não tentem introduzir vida artificial por meio da tecnologia de uma máquina, nem prolongar o que é improrrogável.

Ao invés disso, dêem minha visão ao homem que nunca viu o nascer do sol, o rosto de um bebê ou o amor nos olhos de uma mulher.

Dêem meu coração a uma pessoa cujo coração só causou intermináveis dores. Dêem meus rins a uma pessoa que depende de uma máquina para existir, semana a semana.

Peguem meu sangue, meus ossos, cada músculo e nervos do meu corpo e encontrem um meio de fazer uma criança aleijada andar. Separem as minhas células, se necessário, e usem-nas de alguma maneira a que um dia um garoto mudo seja capaz de gritar quando seu time marcar um gol, e uma menina surda possa ouvir a chuva batendo na sua janela.

Queimem o que sobrar de mim e espalhem as cinzas para o vento ajudar as flores a nascerem. Se realmente quiserem enterrar alguma coisa, que sejam minhas falhas, minhas fraquezas e todos os preconceitos contra meus semelhantes.

Dêem meus pecados ao diabo e entreguem minha alma a Deus. Se quiserem lembrar de mim, façam-no com um ato bondoso ou dirijam uma palavra delicada a alguém que precise de vocês.

Se vocês fizerem tudo o que estou pedindo, eu viverei para sempre”.

Este é o meu testamento. Só assim é possível continuar vivendo...
Antônio Mesquita Galvão
Enviado por Antônio Mesquita Galvão em 21/11/2005
Código do texto: T74269
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Sobre o autor
Antônio Mesquita Galvão
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
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Antônio Mesquita Galvão