O Caso do Papai Noel

I

Quando o senhor Genaro – um sujeito forte e grandalhão, dono de uma extensa barba branca – deu entrada naquela sala de audiências trajando as roupas que costumava usar no seu dia-a-dia de trabalho, todos os olhos imediatamente se voltaram na sua direção: os da juíza, uns bagalhões de olhos muito azuis, cheios de vida e curiosidade diante daquela estranha figura fantasiada em vermelho; os olhos dos advogados das partes e os do preposto da reclamada. Estes últimos mantinham-se sigilosamente resguardados sob um par de lentes muito grossas e escuras.

Fora como se aquelas pessoas tivessem presenciado ali não a entrada de um papai Noel de carne e osso, mas à passagem de uma assombração ou ao vôo tresloucado de uma ave agourenta.

O senhor Genaro se aproximou lentamente da grande mesa retangular que ocupava toda a área central daquela sala. Caminhava num passinho miúdo e manso e se acomodou com um largo sorriso ao lado do seu advogado.

Quem o visse naquele momento poderia imaginar talvez que aquele homem já se encontrava fantasiado ao dar entrada no prédio da Justiça do Trabalho. Entretanto, ficaríamos sabendo mais tarde que o nosso papai Noel havia se trocado num dos banheiros do fórum trabalhista de Belo Horizonte, o que efetivamente apanhara a todos de surpresa como se uma aparição ele fosse!

Vestia-se o senhor Genaro com um casaco muito largo que lhe permitia alojar comodamente em seu interior a sua suntuosa e italianíssima barriga concebida no decorrer dos anos com a ingestão de muito espaguete, pizzas, rondellis, raviólis, canelloni, risotos, panquecas, lasanhas e outras massas provenientes da terra natal dos seus queridos antepassados.

Aquele casaco elegante e vistoso se achava enfeitado no centro por uma extensa fila de botões pretos e terminava numas mangas muito brancas e algodoadas. O homem ainda trajava calça e gorro confeccionados no mesmo tecido fino e vermelho utilizado no casaco. O pequenino gorro se achava adornado em sua extremidade por uma bola de algodão igualmente macia e branca como as mangas do casaco.

Completava aquela vestimenta um par de botas muito brilhantes e escuras, um cinto envernizado e luvas negras que lhe cobriam toda a extensão das mãos fortes. Preso numa das mãos, aliás – e aparentemente jogado com desleixo sobre seu ombro direito – trazia aquele papai Noel elegante um saco de presentes tão vistoso e pesado quanto o próprio dono; na outra carregava um sino dourado e um exuberante cajado de madeira.

Entretanto, o que mais chamara a atenção dos presentes naquele homem barbudo e robusto, foram mesmo as suas bochechas rosadas e aquele sorriso simpático que insistia em não lhe abandonar os lábios e o rosto.

II

O caso ali era o seguinte: aquele descendente de italianos de olhos muito claros e bochechas cor-de-rosa fora contratado por uma empresa de fotografias para trabalhar como Papai Noel num conhecido Shopping Center da região noroeste de Belo Horizonte.

Assinara com o referido estabelecimento comercial um contrato por prazo determinado no qual ficara estipulado que ele faria jus a duas formas distintas de pagamento pelos serviços que prestasse: a primeira delas era um salário fixo a ser quitado ao final do contrato e a outra uma porcentagem paga diariamente sobre o valor de cada fotografia que viesse a tirar junto à clientela do shopping.

Como os preços dos retratos variavam entre dez, vinte e trinta reais - dependendo da quantidade de poses desejadas pelo freguês - ele receberia respectivamente um, dois ou três reais por serviço, exatos dez por cento sobre o valor de cada trabalho executado.

Entretanto, ele exercera a sua atividade laboral apenas por cinco dias. Fora demitido na manhã do sexto dia sob a alegação de que não sorria nas fotos, principalmente naquelas em que aparecia ao lado dos seus clientes preferenciais e favoritos, as crianças. E, pensem bem - prezadas leitoras e leitores - de que serve mesmo um papai Noel que não sorri ao lado de um inocente garotinho ou de uma linda menininha?

Ao procurar o advogado, porém, o senhor Genaro revelou-lhe o verdadeiro motivo da sua demissão: ele fizera tanto sucesso e atraíra tamanha clientela vestido com aquela sua fantasia vermelha, que só nas suas três primeiras jornadas de trabalho chegara a receber cerca de quatrocentos e cinqüenta reais de comissão.

A criançada não podia vê-lo recostado em seu trono dourado e reluzente. Desandavam a pedir às mamães e aos papais que lhes permitissem levar uma lembrançinha daquele papai Noel alegre e bonachão. Em seguida cada moleque ou garotinha se punha a aguardar pacientemente a sua vez de ser recebido pelo senhor Noel. Então, logo que se assentavam confortavelmente sobre as pernas macias e volumosas daquele homem, punham-se a cochichar nos seus pés-de-ouvido os seus sonhos e desejos mais secretos.

Em seguida se ajeitavam em variadas poses fotográficas, estalavam uma ou duas beijocas nas bochechas rosadas do bom velhinho e se despediam sorridentes levando um punhado de balas e bombons cuidadosamente embrulhados em coloridas folhas de celofane.

A empresa então – segundo afirmara o senhor Genaro ao advogado – decidira-se a demiti-lo não porque ele de fato não sorrisse no momento das fotografias, mas por ter contratado outro papai Noel pela metade do salário com ele combinado. Esta fora – nas palavras daquele papai Noel desempregado - a verdadeira e única causa da sua dispensa.

Ciente disso, o advogado ajuizou aquela ação trabalhista requerendo ao Juízo o pagamento integral do salário estipulado e da comissão que seria devida ao seu cliente por todo o período estipulado no contrato. Além disso, pedia também o pagamento de quinze mil reais de indenização pelos danos morais causados pela reclamada ao demitir o senhor Genaro sem um motivo razoável ou plausível.

Conforme afirmara o advogado na peça inicial que instruía o processo, nenhum trabalhador é obrigado a sorrir ao desempenhar as suas tarefas. Um empregado é contratado para trabalhar e não para permanecer sorrindo durante a jornada de trabalho, independentemente de ser ou não ser este trabalhador o papai Noel. E enfim – concluíra o procurador - ninguém pode ser demitido de um emprego pelo simples fato de não sorrir.

III

Assim que as coisas haviam se acalmado na sala das audiências, a juíza quis saber que razões traziam afinal aquele simpático papai Noel à Justiça do Trabalho. Ou melhor dizendo - corrigira-se ela a tempo – que motivos haviam trazido o senhor Genaro àquela instância trabalhista.

Imediatamente o advogado do reclamante se pôs a esclarecer para ela toda a questão. Então – com a aquiescência e a intermediação da meritíssima - as partes começaram a dialogar e negociar em busca de valores possíveis e satisfatórios.

Ao final de uns dez minutos, a empresa surgira com uma proposta bastante interessante: propunha-se a pagar a remuneração estipulada no contrato, isto é, tanto a parte referente ao salário fixo quanto aquela relativa à comissão diária sobre as fotografias. Para os efeitos desse segundo componente salarial utilizariam como valor hipotético a média da produção do senhor Genaro naqueles cinco dias em que esteve à serviço da reclamada no Shopping Center.

Quanto à indenização pelos danos morais – consideraram um tanto exagerado o pedido feito pelo douto procurador do reclamante em sua petição inicial, mas se dispunham naquele caso a pagar a quantia de três mil reais. Conforme asseverara o advogado da empresa, aquele valor era mais do que suficiente para fazer reverter todos os possíveis danos pessoais e morais sofridos pelo senhor Genaro em decorrência de sua demissão. Finalmente – concluíra - efetuariam o pagamento de todas as parcelas no prazo máximo de cinco dias.

Questionado por seu procurador se aprovava ou não a proposta, o papai Noel respondeu que nada mais desejava além do que lhe fosse devido ou lhe coubesse por direito.

Assim que o senhor Genaro manifestou o seu voto de aprovação ao acordo, a juíza se dirigiu ao datilógrafo e solicitou que ele desse prosseguimento e finalizasse a ata de audiência. Então, voltando-se toda alegre e sorridente para o reclamante, completou:

- Pois bem, senhor Genaro, agora que está tudo acertado e concluído, vou lhe pedir um favor, na verdade um quase-nada: gostaria que o senhor nos presenteasse com o mais belo dos seus presentes de Natal, um sorriso cheio de luz e energia, aquele mesmo sorriso que com certeza lhe preenche a alma todas as vezes em que o senhor se encontra exercendo o seu digno ofício junto às crianças! Peço-lhe que nos dê de presente um dos seus rosados sorrisos de papai Noel...!

IV

Senhoras e senhores: devo lembrá-los que aquelas pessoas se encontravam em uma sala de audiências e não numa reunião de alunos da quarta série. Entretanto – e acredite se quiser! – fora como se aqueles homens e mulheres tivessem regressado imediatamente as suas infâncias e se pegassem de repente revivendo as lembranças dos natais de antigamente.

Todos conversavam com todos, cheios de alegria e animação. Devo comentar que houve mesmo um momento em que aquela reunião se assemelhou de fato a uma verdadeira algazarra de crianças ou adolescentes repletos de energia.

Num dado instante, porém, alguém abriu a porta que fazia a ligação entre a sala das audiências e as dependências internas da Secretaria. De lá surgiram três ou quatro cabeçinhas um tanto envergonhadas de servidores e servidoras que a tudo vinham acompanhando em silêncio.

Dirigiram-se meio sem graça à senhora juíza e lhe perguntaram se poderiam tirar um retrato com o lindo papai Noel que ali se encontrava sentado. Foi essa, aliás, a única ocasião naquela assentada em que se fez um breve silêncio. Aquela rápida interrupção, entretanto, fora suficiente para fazer com que em seguida ouvíssemos em alto e bom som a voz esganiçada daquela bela juíza de olhos azuis:

- Eu também quero uma foto com ele, gente! Venha aqui, seu Genaro! Aliás, vamos nos reunir no fundo da sala para podermos tirar uns retratos com o nosso papai Noel de verdade, dissera a meritíssima já retirando da bolsa um celular com câmera de oito megapixels de resolução e solicitando que o seu datilógrafo de audiência lhe fizesse as honras e gentilezas da casa.

Amigos: não sei o que vocês haverão de pensar a respeito de tudo isso. Eu mesmo não saberia o que dizer até o momento em que tive uma espécie de insight. Foi só então que me surgiu uma explicaçãozinha para toda aquela felicidade e alegria generalizadas.

Imaginei ser possível talvez que aquelas pessoas se encontrassem de fato na presente ocasião revivendo ou se possibilitando pela primeira vez em suas vidas experiências e sentimentos que normalmente haveriam de ter experimentado muitos anos antes, tais como assentarem-se confiadamente no colo de um papai Noel gordo e bonachão, revelar ao bom velhinho alguns dos seus desejos e sonhos tantas vezes colocados de lado ou desprezados no decorrer da vida, tocar com mãos suavemente infantis aquela espessa barba branca e beijar as bochechas macias e rosadas daquele homem que literalmente conseguia erguer uma ponte entre o que há de material e espiritual nessa vida.

Mas, enfim – conclui - tudo aquilo era explicação que nada explicava. Simples arremedo de teoria. E de que vale uma teoria construída para explicar a felicidade se ela não consegue dar vida sequer a um pirulito?

O melhor mesmo nesse caso é deixar as teorizações de lado e experimentar a felicidade do jeito que ela vier ou surgir na nossa frente: vivê-la muitas vezes com a fome e a sede de bichos ou deixar que ela simplesmente se torne visível e azul em cada rosto ou sorriso alheio; experimentá-la por inteiro ou aos pedaços e gozá-la como se fosse uma espécie de doce guloso preso entre o céu da boca e os dentes da gente e do qual não mais quiséssemos deixar que se perdesse ou se afastasse outra vez da nossa memória gustativa; e, finalmente, permitir e aceitar que todos os nossos companheiros de viagem pudessem igualmente sentir o mesmo prazer existente naquela alegria estabanada e brincalhona!

É por esse motivo que vou concluir esta narrativa lhes deixando a presença de uns versos e de uma antiga canção composta pelo músico Franz Gruber. Decerto que muitos de nós haveremos de ter vivido alguns dos nossos natais sutilmente embalados ao som dessa música e de outras obras especialmente compostas para a ocasião do nascimento do menino Jesus.

É com alguma certeza, enfim, que imagino que os versos iniciais dessa canção possam fazer renascer em cada um de nós aqueles mesmos sentimentos que vimos surgir nos homens e mulheres que se achavam naquela sala de audiências. E tudo aquilo em decorrência da simples presença daquele papai Noel de bochechas rosadas e sorriso largo e vibrante como as velas de um misterioso navio pirata...

Noite feliz, Noite feliz,

Ó Senhor, Deus de amor,

Pobrezinho nasceu em Belém.

Eis na lapa Jesus, nosso bem.

Dorme em paz, oh Jesus.

Dorme em paz, oh Jesus...