O Caso da Calça Rasgada

I

A audiência mal havia começado quando se ouviu na sala o som característico de pano rasgando ou se descosendo.

Todos se entreolharam desconfiados e alguns sorrisos afloraram por um ou dois segundo para retornar imediatamente ao reino do não-nascido e do invisível.

O som havia surgido no exato momento em que o advogado da reclamante se assentara em sua cadeira. Sem querer ser grosseiro nem me tornar indiscreto, devo registrar que aquele sujeito era um pouco gordinho e suas roupas se achavam um tanto curtas e apertadas no seu corpanzil.

Ele ergueu os olhos pequenos, um pouco tímido e envergonhado. E teve tempo de perceber os risos e muxoxos que lutavam para se encobrir nos rostos dos presentes.

Então ficou aquele clima estranho na sala, com as pessoas segurando uma clara e extensiva vontade de rir, mas sentindo-se um pouco inibidas. Afinal de contas, em muitas de nossas ações e comportamentos o civilizado tenta ainda se sobrepor ao “caeté”.

Percebendo, no entanto, que a audiência não prosseguiria enquanto ele não tomasse uma posição em relação àquele problema, o advogado dirigiu os olhos até a juíza e disse:

- Já que estamos todos querendo mesmo rir, que tal se aproveitássemos e ríssemos todos de uma só vez?!...

Soltou em seguida uma intensa gargalhada logo acompanhada pela risada estrepitosa da juíza e o sorriso tímido do procurador da empresa.

Depois disso a audiência pode enfim prosseguir.

II

No final da audiência houve um segundo momento de comicidade: ao se preparar para ir embora, o advogado ajustou a sua pasta preta estilo “007” como uma cortina diante do rasgado que podia ser entrevisto na parte de trás de sua calça.

Em seguida virou-se para a juíza e para os demais e se despediu:

- Boa tarde, excelência. Boa tarde, senhores...

- Boa tarde – ela retribuiu – e saiu imediatamente para o interior da Secretaria.

Podia-se ver que ela ainda estava rindo.