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O ASSALTO - Ficção

O ASSALTO - Ficção

Ao passar a vista no cadáver, achou-o parecido com alguém familiar. Em decúbito dorsal, jazia o infeliz desconhecido que, segundo informações da vizinhança, teria cometido suicídio, estourando os miolos com uma bala 38. Como sabiam o calibre, não ousou perguntar.

- Existem pessoas que deduzem tudo e, por isso mesmo, acabam acertando em grande parte as observações que fazem, à mercê da sorte e da intuição, e porque não dizer, da bisbilhotice ou da malícia. - pensou.

       Esta a única explicação para o suicídio que ninguém testemunhou e para a bala 38, que ninguém tinha visto, ainda.

Aproximou-se mais do corpo inerte e constatou uma boa quantidade de sangue que, provavelmente, saíra-lhe pela boca, nariz, ouvidos ou pelo orifício que a bala (?) fizera, O orifício de entrada não era visível; muito menos o de saída. A fisionomia do morto era serena. Aparentava 40 anos, cabelos grisalhos, forte e de bom porte, bem vestido...

- Que teria levado aquele pobre ser ao extremo do suicídio? - Enquanto conjecturava notou a chegada de uma viatura apinhada de policiais e peritos que, após procederem o levantamento cadavérico, apressaram-se em colocar o corpo numa outra viatura que continha a inscrição: Instituto Nina Rodrigues.

No dia seguinte, leu nos jornais uma versão diferente da que ouvira da vizinhança: o homem de identidade desconhecida fora alvejado por uma bala 38 à altura do ouvido e outra na boca, desaparecendo aí a hipótese de suicídio, imaginada pela vizinhança. Tratava-se então, de mais um homicídio, segundo entrevista concedida por peritos do Instituto Módico Legal que realizaram a autópsia.

Nos dias subseqüentes, como que levado por interesse superior, mal levantava do leito corria à banca de revistas mais próxima e comprava dois jornais que eram lidos quase que a um só tempo. O crime parecia insolúvel, como tantos e tantos outros, segundo opinião unânime da imprensa. Até que apareceu um fato novo. Um irmão do morto o reconhecera e reclamara o corpo para a família.

Daí em diante, o caso tomaria novos rumos. Casado, pai de quatro filhos menores, Eduardo Raul fora assassinado a poucos passos da sua firma comercial, localizada alguns quarteirões à frente do local do crime. Sua mulher alegara que a vitima era um bom marido e que não tinha inimigos.

Desenhava-se a possibilidade de um assalto. Assalto à luz do dia? - indagavam os repórteres.

Dona Ema, a viúva, chegou a clamar por Justiça para os assaltantes vis que tiraram a vida do seu marido. Além de excelente esposo, o Eduardo era um ótimo pai e havia sido muito bom filho. Queixava-se a viúva.

Quem cometera o crime, levara-lhe documentos e dinheiro, apesar de pouco, segundo a própria viúva.

Isso o aborrecia.
          - Como não desvendar um crime tão torpe? -pensava - Meu Deus, como pode ficar impune um criminoso desse tipo?

O tempo foi passando. Três anos se passaram e chegou o dia em que o caso havia sido esquecido...

Naquela noite, saíra para distrair-se. Andava mal da cuca e sempre que isso acontecia, saía sem destino, de bar em bar, à procura de alguém que lhe desse um pouco de atenção. Já passava da meia-noite quando foi interpelado pelo Oscar, velho conhecido que, em não sendo seu amigo, era, por assim dizer, o protótipo do chato. Encontrara-o já bem alto, com quase 1/4 do litro de whisky devorado. Aceitou um gole e passou a ouvir do sujeito uma série de confissões de péssimas ações cometidas, principalmente ligadas a sexo e negociatas.

Por ser político, era obrigado a tolerar tipos como o Oscar. Já estava a ponto de explodir quando o energúmeno soltou essa, já completamente embriagado:

- Você conhece a Ema, aquela viúva descarada?
- Não; – retrucou - acho que não...
- Pois sim, - continuou o cretino - aquela vagabunda fez tanto que acabei matando o Eduardo para satisfazê-la. A safada recebeu 20 milhões do seguro e foi morar no exterior com os filhos. Veja você, matar um cara legal como o Eduardo...Ela prometeu que viveria comigo... Depois que recebeu a grana do seguro, fugiu. Até a casa está alugada pelo banco. Nem o inquilino sabe onde ela está...

O Oscar falava e chorava. Depois sorria alto e bebia o whisky cow-boy, de um trago.

Dentro do possível, procurou levá-lo a contar detalhes do homicídio. A carona oferecida, os tiros e, por fim, o empurrão para fora do carro, numa rua de nenhum movimento às 6 horas.

         - Crime perfeito afirmava o homicida.

Enquanto o Oscar encaminhava-se cambaleante para o
banheiro, pensou em ligar para a policia. Hesitou ao colocar a mão no telefone público postado à entrada do bar.

Resolveu, então, ir para casa e só parou quando deu de cara com um revólver bem a altura do nariz. Pensou rápido numa saída e começou a tirar dinheiro dos bolsos. Calmamente o bandido recolhia as notas que lhe passava. Até o momento de passar-lhe o relógio, aproveitando de um vacilo do assaltante, deu-lhe certeiro golpe na mão direita, tirando-lhe a arma. Sem o revólver o assaltante fugiu apressado, enquanto ele procurou cair fora para chegar em casa vivo.

Enfim, aquela noite havia sido muito longa e muito reveladora. Acomodou o “38” na cintura, por baixo da camisa e entrou em casa, cansado...

Quanto ao Oscar, não se importava com suas bravatas. Sujo, bêbado e cretino, bem melhor que fosse verdade o que lhe confidenciara...
          - Aqui pra nós, o que é que eu tenho com isso? – resmungou baixinho...

Mal colocou a cabeça no travesseiro, mergulhou em profundo sono...

E não se diga que esse não é o verdadeiro sono dos justos...
Ricardo De Benedictis
Enviado por Ricardo De Benedictis em 28/07/2005
Reeditado em 03/09/2008
Código do texto: T38499

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Sobre o autor
Ricardo De Benedictis
Vitória da Conquista - Bahia - Brasil, 77 anos
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