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AS POLONÉSIAS - ou ECOS DO INCONSCIENTE



Viro a chave deixando lá fora o burburinho da metrópole.  Processos, resoluções, portarias, Doutores, Colegiados e Excelências aguardam outro dia, trancados no armário ou na gaveta da mesa de trabalho. Prazos esperam com a urgência que os números e chefes sabem pedir.
Entro no meu refúgio como quem se coloca em posição de lótus, objetivando livrar-me do stress de trabalho rotineiro.
Como de hábito, desvencilho-me de bolsas, sapatos, roupas. Ligo TV,  inserindo mais vida virtual neste planeta. Banho.
Preparo frugal refeição, para finalmente cair exausta na cama, não para dormir imediatamente, mas num derradeiro esforço de alongar o dia, desfrutar de um tempo particular, ler um pouco, talvez ver o Jô, uma entrevista, um documentário, algo criativo.
Noto sutil mudança, desde o momento da preparação do jantar. Um nó na garganta, aquele estado de quem penetrou num campo nebuloso, cinzento. Algo como um transporte, como se alguém mais estivesse presente, porém, invisível.
A dificuldade de engolir; a sensação de um intruso incomodando, à espreita, como se alguém batesse à porta, mas eu estivesse impedida de abrir; a presença  insistente, mas oculta  - na sombra; a noite mal dormida. O dia seguinte, como se continuasse em transe, como se a noite não tivesse passado. Como se permanecesse atada a alguma coisa, momento, um olhar me acompanhando, reclamando minha atenção. Uma vaga e intrigante melancolia.
Novamente viro a chave e penetro no meu casulo, onde despojo-me dos invólucros convencionais e incômodos. O mesmo ritual. ...Banho, TV.
De repente, faz-se a luz. Numa propaganda de uísque, fazendo fundo para a fala de Frank Sinatra, ouve-se o clássico As Polonésias, de Chopin, que eu ouvira num concerto de Artur Moreira Lima, numa noite mágica, no  Macksoud Plaza, vivendo aquele mais que perfeito encontro,  surpreendidos que fomos neste planeta pelo exigente e desafiante desígnio do desencontro memorável no tempo e na vida.

16/08/2005 – DIANA GONÇALVES
DIANA GONÇALVES
Enviado por DIANA GONÇALVES em 16/08/2005
Reeditado em 14/01/2014
Código do texto: T42890
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
DIANA GONÇALVES
São Paulo - São Paulo - Brasil
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DIANA GONÇALVES

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