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zERo

Ele sentiu o mundo pela primeira vez quando o relógio da maternidade indicava zero hora.
Sua mãe não tinha valor absoluto.
Seu genitor era parte integrante do Conjunto Vazio.
Havia zero médicos plantonistas naquela enfática madrugada de zero de Abril.
E a enfermeira designada para o caso não passava de uma jovem estagiária que possuía no currículo a expressiva indicação de zero trabalhos de parto realizados em toda a sua existência.
Mesmo assim, ficaram todos contentes e satisfeitos ao perceber que o minúsculo ser filiforme era dotado de zero dentes e zero fios de cabelo.
Na escala da inocência, zero representava o seu nível de culpa.
Amável ser zerado de qualquer resquício de libertinagem.
Um homem novo. Oco. Ideologia zero. Personalidade zero. Caráter zero.
Enfim, nada restava aos seus provedores senão batizar-lhe com o sugestivo nome deste representativo cardinal.
E todos os jornais da zero hora noticiaram o fato.
Com direito a um minuto de silêncio e tudo!
A humanidade tinha, então, o seu novo garoto prodígio:
Zero,
aquele que representava a magnitude vã da não existência.
Zero,
o representante real da ausência de quantidade.
Alguns o chamavam simplesmente de Nada.
Outros, de Coisa Nenhuma.
Em casa, passou a atender pelo apelido de “Nosso Menininho Inane”.
E aos cinco ganhou o carinho da sua primeira professora de Matemática ao ser sempre referido e tratado como “Nulo”.
Mas a vida foi tomando-o.
Aos oito, após expressivo esforço intelectual, conseguiu zerar o primeiro jogo de videogame.
Aos doze, vestiu a camisa de número zero do time de futebol da escola.
Resultado: em sua breve carreira de jogador, não marcou uma vez sequer.
Resolveu trocar o futebol pelas garotas aos quinze.
Acreditava no ditado que afirmava que, se a sorte não se fazia presente no jogo, provavelmente encontrar-se-ia no amor.
Talvez.
Animou-se com a possibilidade do primeiro beijo. Detalhe: a garota não podia mastigar.
E usava tônico capilar.
No final, o número de carícias trocadas entre os dois era previsível: zero.
Aos dezoito, zerou a conta bancária do pai alegando que precisava de capital para manter o seu organismo abastecido de álcool.
E, antes que se tornasse um doente, tornou-se um rebelde.
Montou uma bandinha de pop britânico cujo nome escolhido foi...
Dois segundos para você, leitor, adivinhar!
Um, dois.
Já sabe qual é?
Exatamente. Este mesmo. O clássico. Aquele que, ao mesmo tempo em que pode significar a irrelevância total de algo ou de alguém, é também passível de uma interpretação mais otimista quando associado sempre ao lado direito, e não ao esquerdo.
Um zero à esquerda. Assim a crítica especializada classificara o conjunto musical do nosso protagonista.
Já aos vinte, conseguira, enfim, ser reprovado mais uma vez, após receber as notas dos seus exames finais.
Uma lástima: zero em todos.
Levantou a cabeça e animou-se com a conquista do primeiro estágio.
O salário? Zero.
Não era remunerado.
Aos vinte e cinco, sem perspectiva alguma de ascendência e realização pessoal, profissional ou a dois, só lhe restou apelar para a política.
Justo ele, que em toda a sua vida aderiu à aparente neutralidade do voto nulo.
Lançou-se candidato, e zero foi o número de votos resultante da contagem das cédulas.
Ficou feliz ao perceber que, mesmo na política, conseguia manter o seu karma inabalável.
Era realmente um homem de sorte!
Aos trinta, assistiu pela primeira vez a um jogo de futebol da seleção de seu país. O placar não passou de um perfeito e emocionante zero a zero.
Aos trinta e cinco, não havia concretizado nenhum dos três atos pelos quais um homem se esforça ao longo da vida:
Nunca havia plantado uma árvore.
Jamais escrevera um conto, muito menos um livro.
Um filho? Não, zero.
Aí a depressão bateu no fundo da alma.
Jamais se sentira tão pequeno.
Nestes momentos difíceis, em que os amigos aproximam-se para ceder ao menos o apoio moral, Zero encontrou-se desamparado. Solitário. Completamente abandonado no seio da complexidade da sua (não) existência.
Também, já era de se esperar: nunca tinha semeado amizade. E o seu nome tornou-se, também, o indicativo para a quantidade de amigos que possuía.
Em crise e sem as respostas para a carência de sentido da vida, eis que, prodigiosamente, nasce um novo homem.
Zero se torna o mais novo servo do Senhor.
Cristão fervoroso, o Pastor Zero faz sucesso com as suas pregações reducionistas.
Vendia para os próprios escravos da sociedade capitalista de consumo as ilusões de uma vida baseada nas teorias minimalistas.
No âmbito religioso, Zero era um autêntico político.
E olha que este tipo de autenticidade, na política, já virou clichê. E, na religião, já virou cachê.
Cachê pago pelos fiéis e que lhe permitiu comprar o seu primeiro automóvel.
Zero quilômetro!
Pago a prestações e juros zero.
Logo, as mínimas mudanças que ocorriam na vida paroquial passaram a ser interpretadas como verdadeiros milagres realizados por Zero.
Com toda a ascensão e já sendo considerado santo, o ex-pastor, então padre, decidiu gravar um disco cujo conteúdo era, obviamente, de cunho sagrado.
O álbum fora lançado com o singelo título de “A Fé Zerada”, algo que reafirmava não somente a sua paixão por uma filosofia de vida baseada no superlativo absoluto sintético da palavra pequeno, mas também a fugacidade da sua fé plástica.
Aos quarenta e cinco, depois de quase dez anos de uma devoção filha da puta, abandona a eucaristia e o celibato. Junta os panos com uma iconoclasta, pintora e líder de movimento feminista.
Zero desiste, então, dos seus ídolos de juventude, Guevara, Lennon e Pelé.
Sem imagens para idolatrar, estava cara-a-cara com si mesmo: o nada.
Aprende a seguir as lições da cartilha em que consta a igualdade de direitos entre os sexos.
E recebe um título honorário por ser considerado cidadão em extinção no seu país.
Mas é preso aos cinqüenta e um por negar-se a zerar os seus débitos para com o governo.
Na cadeia, faz curso de interpretação teatral e de línguas, tolices que não agregariam absolutamente nada a um homem de sessenta anos de idade encarcerado, assassino dos seus próprios heróis e, àquela altura, ateu.
Durante quinze anos de penitência, zero foi o número de visitas que recebeu.
E foi, também, o número de anos em que a sua pena foi reduzida, em função do seu comportamento exemplar.
Tentou escrever a sua autobiografia, contudo, a impotência do seu empenho não lhe permitiu mais do que zero páginas redigidas.
A única coisa que recebeu em seus dias de grilhões, em função do cabelo longo e a barba sempre por fazer, foi o apelido de ZESUS.
Abandonado e visivelmente abatido, faleceu aos sessenta e cinco, quando o relógio do pátio de recreação da cadeia indicava zero hora.
Aquele garoto prodígio de anos e anos atrás desfigurava-se na figura um defunto medíocre, reles e abominado por toda a comunidade cristã.
Sua mãe, antes sem valor absoluto, já não tinha nem valor relativo.
Seu genitor, antes apenas parte integrante do Conjunto Vazio, tomara para si toda a imensidão do vácuo e a efemeridade do romantismo hipócrita que se tenta atribuir ao sono profundo.
A sua ex-esposa, empenhada em romper as barreiras que marcavam as disparidades entre homem e mulher, decidiu por se alistar e ajudar as forças armadas do seu país em uma guerra civil. Perdeu a vida ao ser esmagada por um tanque inimigo curiosamente batizado com o nome de “Tolerância Zero”.
Zero.
Ele foi o mais covarde anti-herói, e jaz no seio da sua substância: a insignificância.
E todos os jornais da zero hora noticiaram o fato.
No entanto, não houve nenhum minuto de silêncio.
Apenas a frivolidade do eterno esquecimento.
Angello
Enviado por Angello em 11/08/2006
Reeditado em 02/11/2007
Código do texto: T214386
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Sobre o autor
Angello
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
13 textos (432 leituras)
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