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Fé de mais não cheira bem

Como fazia toda sexta feira ele caminha em direção ao terminal de ônibus metropolitano da grande Curitiba. Eram quase dezessete horas, horário em que o movimento começa a aumentar com as pessoas apressadas para chegar em casa.  Seguindo a regra esta vestindo camisa branca, gravata azul marinho e terno cinza, muito gel no cabelo curto penteado meticulosamente do lado direito para o lado esquerdo de sua cabeça, com cada foi em seu devido lugar deixando a mostra grandes orelhas. Fisionomia muito séria passando muita tranqüilidade, respeito e acima de tudo uma confiança em si anormal, beirando mesmo a arrogância. Não tinha mais do que vinte e cinco anos. Com sua mão esquerda vem arrastando uma enorme mala preta, presa a rodinhas que fazem um ruído enorme anunciando assim sua chegada e em baixo do braço direito a Bíblia Sagrada.
Ritualisticamente posicionasse ao centro do terminal. De dentro da mala retira uma caixa de som amplificada ligada a uma bateria de carro. Conecta a ela um microfone e com o dedo indicador da três batidas na ponta e diz:
- Testando, um, dois, três...
Alguns curiosos já vão parando e observando enquanto ele vai dando os últimos ajuste no som, ajeitando uma urna, como as de votação só que em plástico transparente, que serve para receber os donativos e montando uma pequena plataforma que retirou também da mala que utiliza para poder ficar mais alto do que os ouvintes.
Agora já em pé na plataforma com o microfone em uma das mãos e a Bíblia aberta na outra fala com um tom de voz elevado e muito firme inspirando muita confiança:
- Aleluia irmãos.
Alguns transeuntes menos atentos se assustam com o barulho assim como outros que estavam mais afastados vão se aproximando para ver o que acontecia. Em poucos minutos ele esta completamente rodeado, como uma cadela no cio. Como de praxe segue aos gritos declamando versículos, passagens, parábolas, Mateus, Lucas, Pedro, etc, etc, etc. E sempre que percebe algum tipo de desinteresse ou distração das pessoas ao seu redor não hesita em gritar com plenos pulmões:
- Aleluia irmãos.
O que era prontamente respondido pelos ouvintes em uníssono.
- Aleluia.
Alguns metros dali parada diante de um mural, onde as agências de emprego colam seus cartazes oferecendo vagas, esta dona Matilde das Dores absorta olhando para aquilo como quem olha para uma obra de arte, pois como é analfabeta somente as cores lhe chamam a atenção. Mas como todo bom filho desta nossa ingrata terra, não passa aperto e logo arruma uma mocinha para ler os anúncios para ela. Seguindo as orientações da robusta senhora a menina com certa dificuldade começa:
- “Auchiliar” de cozinha. Salário mínimo, vale transporte, 1° grau “compreto”.
E dona Matilde resignada:
- Esse não dá minha filha, lê aquele fazendo o “favô”.
- “Auchiliar” de serviços gerais. Masculino, maior com experiência de 2 anos.
Dona Matilde mostrando um sorriso desdentado diz:
- “Vixe” filha, só se eu virá “homi”.
E assim a menina com seus dezessete anos, corpo franzino contrastando com sua saliente barriga de gestante, segue lendo os anúncios. Enquanto a menina lia o último anúncio abatesse em dona Matilde um desanimo tremendo quase um desespero pois sabia que voltaria mais um dia para casa sem emprego, dinheiro, dignidade e praticamente sem esperança. Com os olhos marejados agradece a menina e caminha em direção ao centro do terminal carregando consigo e fazendo justiça ao seu nome, todas as dores de uma vida humilde ou melhor humilhante.
Como uma águia a avistar sua presa ele nota aquela senhora desiludia caminhando em sua direção e raciocinando extremamente rápido percebe a oportunidade. Antes mesmo que dona Matilde pudesse compreender o que acontecia estava cercada pelos braços do rapaz que falava complacente mas muito decidido para que todos pudessem ouvir:
- Aleluia, irmãos. Temos aqui uma irmã desiludida, sem esperança, um prato cheio para o demônio que fica nos espreitando só esperando nos abatermos e assim nos dominar. Não desanime, fé irmã, pois nosso senhor Jesus Cristo filho de Deus todo poderoso, onipotente, onisciente, senhor do céu e da terra, AMA VOCÊ. Aleluia irmãos.
A senhora vendo toda aquela gente ao seu redor olhando para ela com uma mistura de curiosidade e pena, aquele rapaz gritando em seu ouvido mais o fato de estar cansada por procurar emprego o dia inteiro além das dificuldades de uma vida dura, fica extremamente nervosa e desata em um choro compulsivo que é prontamente amparado pelo rapaz que a aninha em seu braço falando carinhosamente:
- Aleluia irmãos. Não tenha vergonha irmã o choro faz bem a alma. Foi Deus nosso senhor que nos presenteou com as lágrimas para que possamos aliviar nossas tristezas e frustrações. Isso mesmo, chore. Chore muito. Desabafe ponha tudo para fora. Aleluia irmãos.
Algumas mulheres ao redor vendo aquela senhora chorando copiosamente se compadecem e começam a chorar também e em um gesto quase que impulsivo a abraçam e em meio aos soluços dizem:
- Aleluia, aleluia.
Mal conseguindo controlar a satisfação de ver seu plano dando certo, o rapaz incita ainda mais as pessoas com palavras fortes, frases feitas e muitos mas muitos gritos de:
- Aleluia irmãos, aleluia.
Agora muito mais calma depois do desabafo dona Matilde sente-se completamente renovada como que de cima de seus ombros tivessem retirado o mundo. Percebeu que haviam pessoas que se importavam com o que ela sentia. Pessoas que ela nunca havia visto, completos estranhos que entendiam sua dor e desespero. Pessoas assim como ela que conheciam o sofrimento, o trabalho duro ou pior a falta do trabalho, a humilhação e as dificuldades da vida. Essa surpreendente descoberta encheu seu coração de esperança. Sentia que poderia vencer qualquer desafio e nunca mais ficaria desamparada, pois sempre existiriam pessoas boas prontas a lhe estender a mão.
O rapaz percebendo a senhora com ânimo renovado grita entusiasticamente:
- Aleluia. Diante de nós uma prova da bondade de Deus, pai, nosso senhor. Com sua infinita sabedoria e misericórdia renovou o ânimo dessa irmã, afastando o demônio que a espreitava como cobra peçonhenta.
Dona Matilde quase que em estado de êxtase segurando a mão do rapaz grita em meio a multidão:
- Aleluia. Obrigada meu Deus. Aleluia.
Antes de ir embora agora carregando consigo um santinho que ganhou do rapaz para que usasse toda vez que se sentisse desamparada, dona Matilde tira da bolsa seus últimos dez reais e sem hesitar nem mesmo por um segundo, coloca dentro da pequena urna dos donativos que estava quase cheia. Afinal de contas o dinheiro não era nada comparado ao bem estar e paz de espírito que ela experimentava.
Como sempre cerca de duas horas depois de chegar ele começa a desmontar seus equipamentos de trabalho. Primeiro confere os donativos, quase sessenta reais. Depois guarda a caixa de som, o microfone, a urna agora vazia e a plataforma dentro da mala. As pessoas como sempre acontecia já haviam seguido seus caminhos e não mais se importavam com o rapaz. Quando se preparava para ir embora sente que o bolso de seu terno esta tremendo. Com toda calma do mundo retira de dentro dele um pequeno aparelho celular menor do que a palma de sua mão e tão fino quanto a mais avançada tecnologia permite.
- Alô.
- Marcelo?
- Sim, quem é?
- É o Edir. E aí rapaz tudo em cima?
- Oh, Edir tudo na maior ou como diria meu tio, do jeito que o diabo gosta.
- Que bom. Então tudo certo pra hoje a noite?
- Claro. Você acha que eu perderia a inauguração da “Boite Tropicalient” onde estão as garotas mais belas da capital.
- Que bom. É que eu achei que você estava sem dinheiro?
- O dinheiro nunca falta para quem tem fé, meu amigo. Não são apenas montanhas que a fé movimenta. Movimenta também a máquina que não pode parar. É isso aí. Nos encontramos lá. Tchau.
- Ok. Tchau.
Com a mesma confiança que chegou segue arrastando com a mão esquerda a grande mala preta e em baixo do braço direito a Bíblia Sagrada.
Mark Brunkow
Enviado por Mark Brunkow em 16/09/2007
Código do texto: T654616
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Sobre o autor
Mark Brunkow
Curitiba - Paraná - Brasil, 41 anos
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Mark Brunkow