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O ATROPELAMENTO

             
Seu corpo imóvel, estendido no asfalto, constatava o pior.
Sua pele gelada e esverdiada, não deixava dúvidas o óbvio.
A moradora do apartamento trezentos e três, estava pronta pra ir ao mercado, quando viu o tumulto e soube da noticia.
Sua curiosidade foi maior que a necessidade de fazer as compras:
-Ei moço, o que ouve?  Perguntou a um baixinho careca que estava na sua frente.  O baixinho:  - Ainda não sei, cheguei agora!    A moradora do trezentos e três, tem um apartamento de frente a multidão, deixou o feijão no fogo e estava indo em caráter de emergência, buscar o alho e outros temperos, mais parece que esta tarefa vai demorar um pouco, se meteu no meio do bolo procurando respostas.   Um pipoqueiro que passava bem distante, mudou sua rota de origem e veio em passos largos, enxergando uma grande oportunidade de faturar uma grana:
-Olha a pipoca! -Tem doce e salgada!  Uma garotinha gordinha e desdentada, aparentando ter uns cinco anos, puxou a saia da mãe:
- Compra mãe! Compra mãe! Eu quero ! Eu quero !
Devido a grande insistência da filha, a mulher comprou, mesmo torcendo o nariz em sinal de protesto.  Esta senhora de um metro e alguma coisa e de uma obesidade mórbida, estava em cólicas, tentando descobrir detalhes da ocorrência.  O pipoqueiro, um magrelo alto e barbudo, não parava de correr de um lado para o outro. Em alguns minutos, já tinha conseguido vender vinte e oito pipocas, a um real cada uma! Um vendedor de picolé surgiu derrepente! Se meteu na multidão e começou a gritar: -Olha o picolé! Tem de coco, goiaba, abacaxi, limão, tangerina, doce de leite, amendoim e morango e é da pura fruta! – Quem vai querer?..  O garoto que vendia o picolé, era desproporcional ao tamanho da caixa de isopor que carregava.
Nos seus dez anos de aparência, só muita força de vontade, explicava tamanha disposição, tanto que, em dez minutos, vendeu cinqüenta e oito picolés acabando com o seu estoque. O garoto, soado e já com o ombro dolorido, correu para comprar mais do seu fornecedor, na tentativa de ainda dar tempo e faturar um pouco mais.
A multidão só crescia!  A todo momento mais um aparecia.
Um senhor bem idoso e de óculos fundo de garrafa, já estava ali a mais de quarenta minutos,  era ele o informante parcial dos curiosos retardatários que a todo instante chegavam. Feirante em uma rua paralela a esta, veio procurar um banheiro, para as suas necessidades fisiológicas e acabou ficando. O que o feirante sabia, era que um acidente havia acontecido, porém o nome e o estado da vítima, ainda não era do seu conhecimento.  Tudo aconteceu de frente ao prédio residencial, o qual, a maioria presente, eram moradores.
Parecia ter sido um atropelamento, comentários de poucos que acompanhavam o episódio desde o início.
Uma senhora de oitenta anos mais ou menos, desceu de um taxi meio ao tumulto. Seu destino era na rua ao lado, mas o taxista, percebendo as dificuldades do tráfico, tratou de deixar a velha ali mesmo e voltou de ré.  A senhora desorientada, perguntou a um senhor de bigode, que não parava de passar a mão na cabeça:
- Ei meu filho, onde fica o Bingo do Amaral?
O bigodudo impaciênte respondeu: - Não sei minha senhora!
- Eu não sou daqui!  Estou só de passagem!  E continuou esfregando a cabeça, ansioso a uma noticia do episódio.
Um gordão com a mão no peito, parecia estar passando mal, mais ainda assim, se esforçava, na tentativa de arrancar uma informação de alguém.  A velhinha do bingo, vendo aquela multidão, não resistiu e se juntou aos demais.  Foi então que nesta hora, chegou um carro de polícia e outro de bombeiro, com as sirenes ligadas.
Forçaram a passagem meio ao tumulto. O senhor de bigode e o baixinho careca, deram uma força a lei, empurrando o povo de um lado a outro abrindo passagem.   O oficial bombeiro, foi o primeiro a descer da viatura.  Foi então que se soube com clareza a verdade.    Uma menina de sete anos, moradora do prédio em frente, chorava desesperada, ao lado do corpo do seu sapo de estimação.  A sua avó, uma senhora de setenta e quatro anos, acalentava a garota e não dava satisfação a ninguém do ocorrido.  Taí o motivo do desespero dos curiosos.  O bicho teria sido atropelado por uma bicicleta e com a barriga para cima, parecia ter sido fatal.
O corpo de bombeiro quando soube, deu meia volta e foi embora. O Sargento PM, para não perder a viagem, quis ver de perto a vítima.
Mal  humorado, com uma pistola numa mão e na outra um cassetete,
olhou sério para o sapo esticado no asfalto.

Aproximou-se e catucou o bicho.
O sapo acordou meio desorientado, na verdade, só estava desmaiado e saiu pulando vivinho da Silva!

                           FIM


Carlos Mambucaba
Enviado por Carlos Mambucaba em 24/03/2006
Reeditado em 19/03/2008
Código do texto: T127852
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Carlos Mambucaba
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 54 anos
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Carlos Mambucaba