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Recompensa Por Uma Lágrima

          Presenciar alguém chorando não é um fato muito agradável, principalmente quando as lágrimas caem dos olhos de uma mulher, mesmo sabendo que emoções femininas fluem com mais facilidade. 

     Bom, foi a primeira vez que eu vi este líquido cristalino deslizando em suas faces, e como nem éramos tão amigos, fiquei sem ação para confortá-la. Também, não imaginaria que uma simples mensagem fosse capaz de provocar tanta sensibilidade no coração deste ser especial. Então foquei novamente os olhos no livro em minhas mãos, sem ater-me no significado das palavras porque o pensamento estava voltado para os dois pequenos trilhos úmidos que havia se formado logo abaixo daquele par de olhos cheios de mistérios... 

     Enquanto o tempo corria, fiquei ali imaginando uma dúzia de hipóteses, até porque a inusitada cena acabou mexendo comigo. Que lembranças estariam passando dentro de sua cabeça naquele momento? Afinal, a mensagem que eu lhe escrevera falava justamente sobre alguns requisitos que somente a mulher possui. O de ser mãe é o mais iluminado; suportar a dor nas horas de ínfimo desgosto; defender sua cria diante da iminência de um perigo; ser graciosa e elegante mesmo com o coração em pedaços... 

     Tudo isso acabou aguçando a minha coragem que até aquele instante me deixara pregado na cadeira junto à escrivaninha. Ora, caramba, eu também nasci de uma grande mulher, e se tivera a capacidade e franqueza para escrever tais coisas, porque não tirar o traseiro do acento e ser mais prestativo!? Respirei fundo, fechei o livro sem prestar a mínima atenção na página que estava aberta... Girei a cadeira em meia volta, ficando quase a sua frente. 

     Percebi que ainda estava concentrada, não havia terminado de ler a mensagem. Veio-me então a solidária idéia de enxugar suas faces; que tolice!!! Ainda bem que eu não tinha lenço no bolso, pois teria sido ridículo alguém do laboratório flagrar aquela cena patética! Mas não desisti porque poderia ser a chance de uma aproximação... Lembrei-me então das toalhas de papel que ficavam junto à pia fora do escritório, no corredor oposto aos banheiros... 

     Quando fiz menção de levantar, no instante seguinte aconteceu um fato inédito; percebi a maciez de sua mão direita tocando de leve minha face esquerda, cuja ação fez com que a adrenalina despertasse o meu corpo. Movido pelo próprio instinto, virei a cabeça para o lado, deparando diante dos olhos com um rosto encantador bem no alcance de um beijo. Sobre as faces, suavemente trigueiras qual um crepúsculo vespertino, havia ainda os nítidos vestígios das lágrimas tão sinceras que eu mesmo provocara sem querer. 

     As batidas do coração se acentuaram e deu para sentir o seu hálito morno invadindo as minhas narinas. Com a voz um tanto fanhosa, em razão do seu humor aquoso, em poucas palavras, agradeceu-me pela homenagem que tanto a sensibilizou. E qual não foi a agradável sensação perceber logo após o delicado toque dos seus lábios sensuais em meu rosto! 

     Foram os segundos bem mais recompensados que eu ainda não tinha sentido. Faltou-me apenas as palavras para dizer o quanto ela era diferente de todas as meninas que eu havia conhecido; especial, por assim dizer...
Mas, como o tempo é o grande espelho de todas as verdades, não demorou muito para descobrir que em seu coração já existia um endereço destinado àquelas lágrimas.




Milton Cavalieri
Enviado por Milton Cavalieri em 23/04/2006
Reeditado em 15/10/2009
Código do texto: T144224
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Sobre o autor
Milton Cavalieri
Londrina - Paraná - Brasil, 62 anos
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