Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
                         Herói Por Um Triz!

     Se bem me lembro era uma agradável tarde de sábado em meados do ano de 1980.
Após algumas partidas de canastra eu e dois amigos resolvemos dar um bolo nas namoradas a fim de irmos a uma festinha particular. A vila, ou melhor, a pequena travessa que eu e um deles residíamos estava calma até demais naqueles instantes finais do ensolarado dia. Coisa muita rara, pois moravam ali várias famílias e quase todas tinham filhos pequenos. 

     A maioria eram meninas que me adoravam porque eu era um iniciante de fotógrafo. Portanto, o que elas gostavam mesmo era de mostrar a inocência dos seus rostinhos lindos diante da objetiva de minha máquina fotográfica. Até aí nada de anormal.

     Para simplificar, a história que aconteceu naquela tarde se desenrolou assim:
Como eu era um pouco mais vaidoso que os outros demorei para me arrumar. Com isso meus amigos saíram na frente e ficaram me esperando no fliperama da esquina mais próxima. 

     Minutos depois saí todo elegante e perfumado, talvez sob o olhar discreto de alguma vizinha... Fato este que se consumou tempos depois!
Foi aí que tudo aconteceu:
Ao passar para o outro lado da calçada ouvi uma mulher gritando, no auge de seu desespero: 

     - Moço, moço, pelo amor de Deus...!
Olhei, meio desconfiado, e só então percebi que o problema era mais grave. Em uma das casinhas geminadas notei, pelo reflexo nos vidros da janela, que havia vestígio de fogo em seu interior e, aparentemente não havia ninguém lá dentro. Na rua estava apenas eu ela.

     O que fazer numa situação inusitada como aquela, e sem nenhum conhecimento para combater incêndios!? Ora, o primeiro passo - impensável é claro - foi dar uma de herói indo até o local para evitar uma tragédia de proporções ainda maiores! E lá fui eu... Quando atravessei o hall de entrada, divisei pela penumbra que no fundo desse corredor que separavam os quartos havia uma porta fechada com cadeado. 

     Não pensei duas vezes! Com alguns pontapés arrombei-a. Como estava tudo fechado, inclusive a janela de vidro, a fumaça veio direto em minha direção, tirando meu fôlego por alguns segundo. Fui ao chão... Naquele dramático momento pensei que iria ficar ali mesmo... Mas veio então uma luz, aquela “Força” maior vinda lá de cima. Com isso consegui chegar até a lavanderia... Peguei o primeiro pano que encontrei pela frente, ignorando o seu estado e o encharquei na água turva do tanque. 

     Em seguida voltei para o local protegendo a respiração.
Com a entrada do ar as chamas começaram a se alastrar rapidamente em direção aos móveis, cortinas... Meu desespero aumentou ainda mais quando tentei arrancar as cobertas da cama, pois o fogo veio junto com elas obrigando-me a fugir dali o mais rápido possível. Para complicar a situação a atmosfera já havia sido envenenada pelo monóxido de carbono que se formou no interior do quarto.

     Quando alcancei a rua não mais acreditava que alguma coisa pudesse ser feito para que a tragédia tivesse uma proporção menos devastadora. Porém, parecia que aquele seria mesmo o meu dia de Herói. Numa fração de segundos lembrei-me de que na esquina oposta havia um restaurante onde eu trabalhara tempos antes. Existia lá um pequeno extintor de incêndio usado mais para desentupir pias, coisa que já fizera antes sem nenhum problema. 
     Naquele instante o pensamento foi só um; pegá-lo sem pedir licença a ninguém. Por sorte a carga era nova e ainda lacrada. 

     Retornei.

     Como era arriscado atravessar o corredor novamente resolvi então quebrar um dos vidros da janela para direcionar o jato de “C.O.2” na direção do foco, agora mais inflamado... Felizmente deu tudo certo porque não havia muito oxigênio no quarto e então esvaziei o cilindro sobre as chamas. Em sincronismo ao meu ato heróico um estudante, e pensionista do restaurante, se esforçava em vão para que a água de uma minguada mangueira chegasse até a casa. 

     O barulho de vidros quebrando e o som do jato do extintor fizeram com que a vizinhança ouvisse o que estava acontecendo por ali e tomasse partido. Pelo menos como espectadores! Minutos depois chegaram os bombeiros quando eu e um dos amigos, que voltara depois, já havíamos tirado as pessoas que tinham permanecido no interior daquela casa de cômodos apertados e com apenas uma saída. Por graça de Deus não houve nenhuma vítima, apenas prejuízos materiais. 

     Em pouco tempo uma multidão se fez presente enquanto eu saía do local todo molhado e sujo de carvão - e o mais impressionante - sem ser notado por ninguém. Depois que o enorme comandante da operação fez a vistoria no local foi que aconteceu o fato mais hilariante daquele incidente. Meu amigo, com pouco mais de 1,5m de altura, que só havia chegado no local depois de quase tudo terminado, foi aclamado como o grande herói daquela tarde quando saiu todo apressado do interior da residência na frente do comandante. 
     
     Os vizinhos aplaudiram e gritaram seu nome acreditando que havia sido ele o principal responsável por ter impedido que acontecesse ali uma tragédia ainda maior naquele amontoado de pequenos lares, empobrecidos e frágeis como tantos outros que existem nas grandes cidades. Enquanto isso eu, já devidamente banhado, trocado..., assistia tudo ao lado da platéia sem ao menos me importar com a fama ou até mesmo o anonimato, que por felicidade do destino estava no local certo e na hora exata do acontecido. 

     Só mais tarde ficaram sabendo de toda a verdade.
     
     Depois desse fato triste, mas ao mesmo tempo engraçado, a vida voltou ao normal no interior daquela pequena e simples rua, porém cheia de vida. Hoje, após tantos anos, só resta a saudade das pessoas que moravam ali; das crianças que agora já nem se lembram mais daquele dia, talvez nem de mim! Com certeza vivem em outros lugares... 

     Dos amigos que nunca mais vi. Enfim, o tempo passou como o vento mas não apagou das paredes de minha memória as lembranças daquela tarde, cuja providência fez com que eu me tornasse: 
     
     “Herói por um triz.”
Milton Cavalieri
Enviado por Milton Cavalieri em 16/10/2005
Reeditado em 25/10/2006
Código do texto: T60115
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Milton Cavalieri
Londrina - Paraná - Brasil, 62 anos
78 textos (13704 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 21:44)
Milton Cavalieri