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Furos


“Acho que isso só poderia acontecer comigo mesmo. Tanto tempo pra vir pro Rio e venho agora, junto com essa frente fria, junto com essa garoa de São Paulo de quando eu era moleque. Garoa fria. Onde vou arranjar um lugar pra dormir? Será possível que vou passar a noite andando, me enfiando nesses botecos? E por que eu tinha que vir pra cá justo agora, com esse congresso internacional idiota enchendo tudo quanto é hotel?

Eu não acredito que não me deixaram passar a noite naquele moquifo do Catete. Quem os caras pensam que são? Aquilo é um lixo! Deviam se orgulhar de hospedar alguém como eu, isso sim!”

É, alguém como eu. Duro. Pobre. Sem bagagem, só essa bolsa de lona a tiracolo com livros, uma cueca e uma camiseta. Nem meia pra trocar essa úmida eu trouxe. Devia era ter trazido dinheiro, e não meia de reserva. Se bem que meia, pelo menos, eu tinha de reserva pra trazer. Já o dinheiro...

“Ah, que saco, tô cansado, quero deitar, quero ler, quero dormir, quero sair desse frio molhado.”

Segui batendo perna pelas ruas do Rio, um Rio diferente daquele com o qual eu estava acostumado. Estava aqui por minha conta e risco, sem mordomias de empresa, sem hotel de executivo, sem grana pra táxi. E também não era um tempo lá muito católico pra se andar pelas ruas. Ainda havia repressão, embora meu medo de ser preso estivesse quase sumido. Além do frio e da garoa, da dureza e da falta de roupa, ainda tinha esse lance, esse medo meio besta de ser preso, assim, sem mais nem menos. Tudo isso, entretanto, era bobagem. O que deveria me espantar era o motivo pra eu estar ali, andando sem grana pelas ruas molhadas do Rio de Janeiro: fazer mais um exame supletivo pra ver se conseguia a porra do diploma de segundo grau. Ora, ora, então quer dizer que era esse o cara que o moquifo do Catete devia se orgulhar em ter como hóspede?

Há muito era noite e agora eu tinha passado pelos Arcos e estava em plena Lapa, a Lapa famosa da malandragem carioca. Uma Lapa meio deserta, sem falar do molhado. Mas tudo estava molhado, e a sensação ruim de estar molhado me persegue, basta lembrar aquela noite. Pelo menos o tênis era bom, meus pés estavam só úmidos, não molhados. Já era alguma coisa. E a malandragem não devia ser à prova d’água. Pelo jeito, estavam todos recolhidos em seus barracos e quitinetes, tomando pinga ou leite quente com conhaque ou qualquer outra bebida assim, malandra.

Ela estava na porta do bar. Um bar estreito, numa esquina que não era esquina, era uma ponta, uma ponta de lança apontando pro miolo da Lapa. Mal me olhou quando passei. Claro, eu não fazia o tipo de quem andava por ali procurando sexo. Achei-a bonita, bonitinha. E me encantei com suas botas compridas, enormes, subindo pra cima dos joelhos, um pouco mais encontrava com a mini-saia que mostrava um par de coxas clarinhas e cobertas por uma meia acetinada, assim me pareceu. Cabelos pretos, escorridos. Cara meio triste. Combinação irresistível.

Voltei. Puxei conversa, não lembro o que ou de que forma. Fomos pro balcão do bar e pedi alguma coisa, também não sei o que. Contei meu pequeno drama, o drama de querer dormir e não conseguir um quarto, sequer num moquifo do Catete. Se ofereceu pra falar com o gerente do hotel por cima do bar. Amigo seu. Claro, por que não? Subimos, falamos com o cara, o gerente amigo, e ele me arrumou um quarto pra passar a noite. Sem saber como fazer para agradecer ou sei lá o que, acabei perguntando se ela não queria ir pro quarto comigo. Foi.

O quarto era simples. Na verdade era muquifento, isso sim. Mas era seco, começava a ficar quentinho e isso era tudo que eu queria. Tinha banheiro, não tinha televisão, coisa ainda de luxo naquele tempo.

Conversamos. Depois de ouvir meu pequeno drama lá embaixo, na porta do bar, lá em cima, no aconchego seco do quartinho ela despejou seu grande drama. Solteira, novinha e mãe, uma história clássica. Um filme muito visto, muito repetido. Lá fora a noite continuou rolando. Molhada e fria. Ali dentro, no quartinho já confortável, seca e quase aconchegante. Assim como a noite, a conversa também seguiu rolando. Se teve ou não sexo não vem ao caso. Se não teve, não fez falta. E se teve, tampouco interessa e nada marcou. Tudo que lembro é que o quarto era seco e lá fora tudo estava úmido e frio.

De madrugada ela se foi. Antes de calçar suas longas botas de vinil, vi suas meias, que me pareceram acetinadas, cheias de furos. Fiquei triste. Há muito esqueci seu rosto, mas não o drama que os furos mostraram.
Emerson Gonçalves
Enviado por Emerson Gonçalves em 13/01/2006
Código do texto: T98366
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Sobre o autor
Emerson Gonçalves
Carapicuiba - São Paulo - Brasil, 62 anos
14 textos (391 leituras)
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Emerson Gonçalves