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A BRUXA E O PADRE (introdução)

Redemoinhos endiabrados revolvendo-se no interior do homem moreno não eram mais amenos do que a chuva forte empapando suas vestes e fazendo chiarem seus sapatos pretos, envolvendo os pés molhados e gélidos, marchando com firmeza nas calçadas pródigas de poças d’água, turvas pela noite, das quais não buscava desviar-se, impossibilitado de enxergar, já que os olhos continham um fogo ardente buscando na memória fragmentos de um passado tormentoso.
Debaixo do braço, a sacola plástica da Livraria do Shopping parecia agitar-se, com vida, fazendo estremecer uma alma dilacerada. Estava vivo o livro que acabara de adquirir, e ele, ansiava e temia o momento de chegar em casa e fustigar com dedos ágeis as folhas da obra.
Temia o momento que pensara jamais chegaria. E era chegada a hora, inesperada hora de reencontrar um passado, uma história que se entrelaçava em sua própria história. Golpe de ar frio e úmido assolou-o, gelando muito mais sua alma, que propriamente seu corpo. Tendo preso debaixo do braço esquerdo o pacote, acenou à margem da calçada. Acomodou-se no banco de trás do táxi. Deu-se conta de que tremiam suas pernas somente agora que se sentara.
“Como posso esperar mais por esse momento??? Que coisas terríveis oriundas de um passado distante tremularão ante meus olhos e farão gemer minha alma e dilacerar meu coração, fazendo com que minha mente regurgite minha grande culpa da omissão sobre todo meu ser já salpicado de rombos provocados pela cáustica sensação do irreversível, do caminho sem retorno???”
Rodando pelo asfalto molhado, o carro mais parecia uma carruagem macabra indo em direção a um castelo mal assombrado e sombrio, permeando paisagens castigadas pelos vendavais do tempo.
“Libertador e emissário de absolvição de meus pecados pode estar aqui em minhas mãos que queimam de pavor e ansiedade... Se ao contrário estiver a minha condenação!!! Eu mesmo condeno-me nos meandros de meu ser, e se vier aqui o perdão, ele não será bálsamo para este juiz implacável, habitante de meus pensamentos. De nada me servirão todos os perdões do mundo, perdões dos hipócritas que tão pecadores quanto eu, precisam conceder o perdão, para que perdoados sejam, porque nossos pecados são os mesmos”.
“Justifico a hipocrisia gerada no ventre da covardia, em nome do cinismo, porque a sinceridade assusta, a verdade, afugenta”.
Dos olhos fagulhas quase insanas desprendiam-se indo atingir o plástico do pacote que trazia apertado junto ao peito, ao descer do táxi. Chovia forte ainda, coisa que pouco importava nesse cruel momento da aproximação do irreversível passado. Os degraus da escada em caracol foram cruelmente castigadas sob as solas do sapato do homem quase a correr qual cavalo selvagem assustado pelos relâmpagos, estando a descoberto num campo hostil e fustigado pelo temporal.
As roupas encharcadas, retiradas com violência, foram atiradas a um canto do quarto mergulhado numa semi-escuridão, com sombras bruxuleantes nas paredes. Enfiou-se debaixo do chuveiro quente e deixou-se lá ficar, com a água escorrendo-lhe da cabeça aos pés, deixando só agora saírem algumas lágrimas quentes dos olhos fechados, engolindo alguns soluços rebeldes, que teimavam em subir pela garganta, sufocando, tirando a respiração.
Depois do banho, que apenas seu corpo aqueceu, permanecendo gelada a alma, coberta por flocos de neve, procedeu à sua busca incessante por sinais, primeiro no celular, nas chamadas não atendidas, no computador, em sua caixa de mensagens, acabando enfim por sentar-se à escrivaninha. Tomou da sacola plástica da livraria, de onde retirou com mãos trêmulas e hesitantes o livro de capa preta, de onde saltaram as letras douradas “A bruxa e o padre”.
“Ela bem disse que escreveria esse livro. Não acreditei. Agora...”
Abriu a capa. Devagar. Era o seu passado que saltaria ali à sua frente? Condenado ou absolvido? Lembrava-se da amiga com carinho e com medo. Quanta tempestade, que sopro gelado vinha-lhe à mente. Um bonsai trêmulo diante do furor da natureza, fincando suas curtas raízes na terra para não ser arrancado e jogado ao longe. Sorria um riso enigmático aquela que o olhava da orelha do livro e o penetrava como sempre, perfurando-lhe o ser, invadindo suas entranhas, adivinhando seus pensamentos mais secretos, mas sorrindo, sempre sorrindo, não mais o riso rasgado deixando ver os dentes brancos como a conhecera, apenas os lábios, somente os lábios úmidos tinham a luz do sorriso que ele podia prever. A contracapa. O capítulo um.
Izabel Martho
Enviado por Izabel Martho em 10/07/2005
Código do texto: T32673

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Sobre a autora
Izabel Martho
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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