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TERROR NA IGREJA

As paredes da igreja mostravam claramente o sinal da destruição, ou talvez não fosse destruição, talvez estivesse inacabada, por isso os tijolos de concreto mostravam-se sem pudor.
Ela ergueu os olhos vagarosamente, seguindo pelos arranhões das paredes até o alto, e lá, austeros, estavam os motivos bíblicos pintados com cores pálidas.
A pintura era velha e desgastada, mesmo vista através da penumbra predominante, assustadora até.
O vento gelado penetrou de repente, passou por detrás dos velhos altares, que sustentavam seus santos de barro, circulou pela abóbada mofada, entrou por recantos sombrios e escondidos, e voltou trazendo consigo o cheiro úmido de túmulo e terra.
Essa atmosfera gelada admoestava e começou a misturar ao cheiro de terra, o de carne putrefata.
Um ré ou mi soou. Sásquia deixou-se conduzir pela linha melodiosa, que subiu até o enorme órgão antigo.
A essas notas, outras se sucederam. Era difícil identificar a música.
Parecia uma Marcha Nupcial, que se transformou depois numa Sinfonia de Mozart, passando a uma obra violenta de Tchaikovsky, até chegar a uma Marcha Fúnebre.
Um ruído seco produziu-se lá em cima, e Sásquia, voltando bruscamente a cabeça, viu despencando um objeto qualquer, lá do alto, vindo cair aos seus pés.
Abaixou-se e apanhou o objeto, passando, a seguir, a tateá-lo, e, percebeu que era de uma tépida maciez.
Chegando seus dedos a uma das extremidades, sentiu que ramificações dela partiam, e foi com um gesto brusco de asco que atirou ao chão aquele braço, cujos dedos que ainda se moviam, tentavam segurar os seus.
Mal atirara aquele pedaço de gente, outros braços e pés despencavam lá do alto, sem cessar, e ela corria, tentando desviar-se daquela chuva macabra.
De vez em quando, seu ombro ou sua cabeça era atingida de raspão.
Corria em círculos. Não havia saída naquele lugar horrível, eram altares girando à sua volta, longos bancos marrons, e a música do órgão acompanhando essa valsa do terror.
Sentiu um tremor sob seus pés.
A terra começava a abrir-se em vários lugares, derrubando os bancos, e cabeças sujas, rostos pálidos, olhos vazados brotavam dessas covas como pés de repolhos, esforçando-se para sair por inteiro da terra que há tempos os sufocava.
Ao tropeçar num desses corpos, a moça defrontou-se bem de perto com uma das cabeças, e naquele rosto gélido, reconheceu Carlão.
Seguido a esse impacto, o tilintar dos lustres de cristal, que estremeciam, fizeram-na perceber que toda a estrutura do templo vibrava.
Tudo parecia estar sendo sacudido por um terremoto. Os vitrais multicolores partiam-se e projetavam-se como lâminas afiadíssimas e cruéis.
Por várias vezes, essas lâminas quase a atingiram.
Teria que se colocar fora dali o mais rapidamente possível, pois pesados blocos de pedra soltavam-se da abóbada principal, e os pilares trincando-se e emitindo ruído assustador, vacilavam de um lado para outro, colocando toda a construção em abalo.
Ao seu redor, os corpos nus dos mortos, já libertos totalmente da terra, valsavam solenemente ao som do instrumento mágico, que se fazia ouvir agora mais alto, na tentativa de abafar o ruído do desabamento iminente.
Braços gelados, vindos de todos os lados, enroscavam-se no seu corpo, com o claro intuito de fazê-la participar do bailado.
Eram repugnantes aqueles hálitos de cem anos soprando-lhe as narinas e sussurrando-lhe aos ouvidos segredos de sepultura.
Sásquia debatia-se e quereria ser no momento um polvo para afastar, com os inúmeros tentáculos, aqueles seres pestilentos e satânicos, que gargalhavam de seu sentimento de medo e repulsa diante dos corpos magros, alguns dos quais quase totalmente destruídos, esburacados, com vermes a caminharem avidamente por entre a carne que ainda restava, e a mexer as mandíbulas, mastigando, mastigando sem cessar.
Uma cantilena começava. Eram os mortos que, em notas desafinadas e inseguras, tentavam solar a valsa. E essas vozes e notas transformavam-se aos poucos na palavra VEM, VEM, VEM.
E cresciam, e todos eles se aproximavam, e gritavam VEM, VEM, VEM, e esticavam os braços, cujos ossos transpareciam sob a pele seca e enrugada, e as falanges dedilhavam o ar. Do chão, continuavam a brotar corpos, como se fossem plantas podres, e logo eram um verdadeiro batalhão, com o atroz intuito de enterrá-la viva.
- Você sabe o que é ser sufocado sob a terra?
Ao final dessas palavras, um dente canino, que balançava ao sabor do bafo saído da boca apodrecida, desprendeu-se do pedaço de gengiva em decomposição, e foi cair perto dos pés da moça, sem o menor ruído.
- Eu, claro que não sei...
- Pois vai ter que saber - continuou a mesma boca, daquele que parecia ser o líder da tropa.
- Por que eu vou ter que saber? Eu estou viva.
- Você está viva? - a última palavra explodiu meio a uma gargalhada vibrante, que ecoou e misturou-se aos estrondos que se faziam ininterruptamente ouvir da velha estrutura que ameaçava ruir.
- Claro que estou viva. Compare seu corpo com o meu.
- Você está meio viva. Começou a morrer no momento em que nasceu.
Sásquia teve o medo e a repugnância substituídos pelo desejo absurdo de discutir com aquele atrevido, que já não era mais, e queria defender filosofias de além túmulo.
- Temos filósofos e pensadores podres também?
- Ficaria melhor dizer “temos podres filósofos e pensadores também”.
- De quê adianta sua filosofia? Eu comecei a morrer no momento em que nasci, mas ainda vivo. Vocês já se acabaram, já não são.
- Não somos? Como explica estarmos aqui dialogando?
Era mesmo estranho. Sásquia hesitou por alguns momentos e pensou na situação incomum em que se encontrava.
- Bem, são. Mas são MORTOS... Não têm poder de decisão. Não podem mudar...
- Estamos aqui bailando bem diante dos seus olhos...
- Vocês não passam de carniça.
- Uns são mais, outros menos. Os que andam lá em cima são carniças também, e fedem mais do que nós, mas ainda têm o revestimento do disfarce, e são poucos os olfatos que sentem seu cheiro, e poucos os olhos que enxergam sua corrosão.
Foi o que disse um outro, de cuja barriga carcomida saíam as costelas, com fiapos de carne decomposta acinzentada, a balançar para lá e para cá, com o movimento brusco do dono do esqueleto.
- Vocês são uns loucos. Vocês estão mortos. Eu não vejo vocês. É pura fantasia.
- Fantasia? Então prove do meu toque - disse um que havia sido mulher, e aproximou-se mais, tentando abraçar o pescoço de Sásquia, que recuou zonza.
Todos eles fizeram um círculo ao redor da moça, em silêncio, apenas acompanhando com gestos leves a Marcha Fúnebre que o instrumento atacava com voz rouca.
O círculo foi se estreitando, estreitando, até que a moça sentiu-se toda envolvida de podridão. Os corpos estavam quentes, pois os vermes ali estavam presentes, vivos, alimentando-se ainda do seu prato preferido.
Os defuntos colavam-se assim para contaminá-la de morte, e os vermes passavam para o corpo de Sásquia, todo percorrido pelo asco e repugnância.
Carlão era o pior de todos os defuntos. Era o mais ameaçador. Aquele que conservou a rudeza do campo até o túmulo e queria vingar-se em alguém, de sua triste condição de ter sido manobrado pelos mais fortes, e nunca ter tido a coragem de reagir. Despejava sua ira nos que acreditava serem mais fracos, e agora a moça era a mais fraca. Queria levá-la para sua tumba.
Aproximou-se sozinho agora, abrindo caminho entre os esqueletos.
Quanto tinha o pescoço bem perto, Sásquia, que apanhara uma lâmina de vitral, defendeu-se com ela, passando-a em sua jugular, que deixou fluir um sangue escuro, que ao jorrar, maculou sua roupa.
Ao ver-se toda tingida de vermelho, gritou com toda a força dos pulmões, e acabou por cair, sem forças, na terra toda revolvida daquele estranho lugar.
Izabel Martho
Enviado por Izabel Martho em 26/06/2005
Código do texto: T27851

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Sobre a autora
Izabel Martho
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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