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Um SaraU parA Os EstOuvAdOs

O ardor dos seus sonhos extinguiu-se tal qual o lume de uma vela que perece ao sopro do vento. E punha-se a deplorar no seio da própria mudez, submerso em uma miríade de deslizes que o fizeram atingir um ponto sem retorno. Agora a utopia ocupa-lhe o frívolo espírito. Faz dele um fâmulo. E, muito embora as lágrimas naveguem por sobre a face pasmada, subsiste somente o espectro de um bravo devaneador. A fantasia fez do homem um palhaço. É a sua grife incomutável.

Apanha um purgante no armário, porque nestas situações até os paladinos têm prisão de ventre. Numa noite em que as labaredas da desilusão incendeiam a sua ficção, ele ainda tem tempo para pelejar contra uma sentina. Por um momento, esquece-se do que é obsceno para fazer vogar o instinto animal que lhe é anímico. Emite seu rosnado. Vomita os seus insultos. Amuado, prefere macular a sua derrocada com a sanha de um perdedor renitente. Mas quando percebe a irreversibilidade do fado, entrega-se à própria remissão. Sem papel higiênico, permanece ali, perdido em ilações vãs.

Na sala, o televisor impele reclames que soam como uma espécie de valsa eloqüente para românticos desesperados como ele.

Tácito, ele já parece apto a admitir homenagens póstumas. Aos poucos, deixa de ser o crítico severo e injusto de si mesmo. Tenta bancar o impenitente enquanto ouve vozes que o convidam a experimentar a sensação de ser uma águia viajando pela maior companhia aérea do país ao menor preço do mercado. Quanta blandícia! A mídia é uma mãe espevitada à espera do filho único. Cheia de calidez para conquistar os chagados (ou, retirando a letra h do termo...) e tacanhos como ele.

Enlevado pelas tutaméias dos comerciais de supositórios, levanta do suadouro para servir-se com uma xícara de chá. Como um mamute pós-pranto, ele irrompe ileso da sua psicopatia: as birras, os vícios, as queixas, tudo se foi. E no vagar de cada trago, aguarda o remate perfeito: uma brisa suave que adentre o recinto e afague o seu ego. Mesmo que no dia seguinte ele tenha que fazer uroscopia.
Angello
Enviado por Angello em 20/08/2006
Reeditado em 22/08/2006
Código do texto: T221281
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Sobre o autor
Angello
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
13 textos (432 leituras)
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