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Coração De Anjo

     Da mesma forma que todos nascem eu também fui contemplado com essa graça, e devo agradecer a Ele. Afinal, se não fosse o seu desejo nada existiria... Mas, o meu nascimento não foi planejado, como também acontece na maioria dos casos — dos meus amigos, quero dizer. E assim vim ao mundo para cumprir uma missão que na verdade até hoje ainda não descobri, e acho que jamais conseguirei...

     Bem, quando meu pai encontrou minha mãe não quis saber de nada e foi logo me fazendo, mas com o consentimento dela, claro. É a lei natural para dar continuidade nas espécies. Quando nasci ele sequer olhou para mim, tenho quase certeza de que nem se encontrava por perto para ajudá-la. Provavelmente já estava com outra... Mas como mãe é sempre mãe, ela cuidou de mim com todo carinho mundo nos primeiros dias. Não me deixou passar fome nem frio, e me defendeu como uma grande heroína. Aliás, que heroína!

     Passado algum tempo, não muito, pois eu nem sabia contar, ela permitiu que eu fosse doado para alguém. Não entendi o porquê, e como não podia falar aceitei a nova casa. E que casa!!! Depois disso nunca mais vi minha mãe, e nem meu pai porque não o conheci. É possível que devem ter feito muitos outros irmãos que eu também não os reconheceria.

     Enquanto isso, na nova casa passei a levar uma vida de rei, quer dizer nem tanto porque jamais podia sentar-me à mesa ao lado dos meus novos amigos — donos por assim dizer. Mas dos males o menor, pois tinha tudo, ou quase tudo o que eu queria. Fui até passear na praia, ver aquelas ondas imensas espalhando a espuma branquinha na areia! Ocorre que já diz aquele velho ditado: — Como nem tudo que é bom é para sempre então aquela boa vida que eu desfrutava acabou-se de uma hora para outra. Fui enxotado sem ter feito mal algum. 

     Com isso me vi obrigado a dormir ao relento, coisa que eu ainda não tinha sentido na pele. Como é duro um desprezo! Sem ter amigos eu não sabia me virar. Na verdade eu não sabia de nada, não possuía a malícia dos espertalhões que desde pequenos já aprendem a se defenderem sem a ajuda do pais.

     Abandonado na rua não demorou muito para eu ficar doente, e o pior sem ninguém para cuidar de mim. Muita gente passou a me maltratar. Um dia quase fui atropelado por um automóvel. Eram poucos aqueles que tinham um bom coração e me davam alguma coisa para comer. Senti frio, fome, medo daqueles que eram bem maiores que eu. Nem namorar eu podia porque eles logo apareciam para me bater.

     Os anos passaram e assim – bem ou mal, mais mal que bem - fui me acostumando com aquela vida terrível só pensando: — Quando será o dia de minha morte? Puxa vida, eu não queria morrer. Ninguém deseja morrer, por mais que haja ingratidão.

     Fui ficando cada vez mais fraquinho, até que chegou um dia em que eu não pude mais me levantar. Minha respiração começou a ficar cansada. Além disso estava com muita fome e sede. Não aparecia nenhum pedaço de pão velho. Na situação em que me encontrava comeria até carne estragada. E para piorar fazia muito frio e não tinha nenhuma caixa de papelão para eu poder me esquentar um pouquinho. Imaginei; acho que não passarei desta noite.

     De repente, não sei que horas eram, surgiu alguém muito especial e me estendeu a mão, as duas, e me sorriu! A princípio fiquei com medo, porém foi somente impressão. Logo ela começou a tratar de mim com todo o carinho do mundo. Me trouxe comida e água. E por incrível que pareça até uma caixa de papelão! Era como se eu fosse filho, ou sei lá o que dela. Me deu alguns remédios horríveis, e curou as minha feridas. Depois me levou a um especialista porque meus rins andavam péssimos. 

     Lá me deram banho, mesmo contra a minha vontade, e só não fugi porque me amordaçaram. Depois eu até que gostei porque fiquei bem cheirozinho! Com isso eu me animei e aquela tristeza que queria me levar para o leito da morte foi desaparecendo. Fiquei esperto, tão elétrico, que ganhei até um nome! 

     Quando me recuperei nos tornamos grandes amigos, e ela me ensinou bastante coisa. Uma foi me defender dos mais fortes. Com isso nasceu ali uma verdadeira paixão entre eu e ela. Por esta razão um dia eu avancei de unhas e dentes sobre um cara que se aproximou só para lhe dar um beijo. Foi uma confusão danada! Só depois de algum tempo me acostumei com aquilo porque eles também eram amigos. Até que ele era simpático comigo! Mais tarde eu até que gostei dele, mas não tanto como ela!

     Bem, agora sei que estou bem velhinho e de cabelos esbranquiçados. Minhas vistas estão turvas. Estou fraquinho, fraquinho, e não vou viver por muito tempo. Mas isso não importa porque tudo na vida é assim mesmo. Um dia todos têm que partir. Mas enquanto esse dia não chega eu me alegro com a sua presença, e faço questão de ficar perto dela o mais que posso. 

     Sabe, eu já nem consigo enxergar direito, porém eu sinto o seu cheiro de longe! Percebo que apesar do meu estado ela gosta de mim assim mesmo porque ela é como um anjo. Nunca vi um na minha frente. Eu penso que os anjos são assim: Sorridentes e bonzinhos!

     Não posso dar um abraço nela em sinal de agradecimento, nem dizer obrigado, pois a vida não permitiu fazer tal proeza. Em compensação os meus olhos, mesmo cansados, podem expressar o quanto sou grato por tudo o que ela tem feito por mim.

     Continue sempre assim porque existem outros por aí precisando muito de você, de sua dedicação, do seu grande amor.
     Quando eu partir desta vida não fique triste, não chore. Guarde o seu sorriso e a bondade que existe em seu coração para os outros.
Para você um tímido olhar com 220wolts.

     Uma semana depois o 220, nome que ela dera ao cachorro, falecera de falência múltipla dos órgãos.

    
Mensagem dedicada à S.M.S., pela sua incansável proteção aos animais abandonados.
Milton Cavalieri
Enviado por Milton Cavalieri em 14/10/2005
Reeditado em 15/10/2009
Código do texto: T59695
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Sobre o autor
Milton Cavalieri
Londrina - Paraná - Brasil, 62 anos
78 textos (13704 leituras)
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Milton Cavalieri