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     O Nácar E O Amor

     Preocupada com as novas descobertas sobre o comportamento dos seres marinhos, em especial as magníficas ostras, a mãe e bióloga ainda não havia notado que há muito a sua filha deixara de ser aquele bebezinho de colo. Afinal, em seu corpo começavam a surgir as primeiras manifestações da adolescência. Ocorreu que naquela tarde Yara retornou da escola e nem ao menos foi ao laboratório cumprimentar a mãe. Trancou-se no quarto e lá permaneceu até os últimos raios de sol brilharem no céu. Não saiu nem para tomar água. 

     Quando Estela deu por encerrado as observações daquele dia foi logo para o lar. Só então percebeu um silêncio fora do comum dentro da casa. Em dias normais seria quase impossível estar acontecendo aquilo, pois o volume das músicas eram ensurdecedores; ultrapassavam os decibéis permitidos pelo ouvido humano.

     Assim que entrou no quarto de Yara logo pressentiu que alguma coisa estava errada mesmo. Encontrando-a de bruços sobre a cama, imediatamente a instigou a levantar-se. Ao ver seus olhinhos tristes e vermelhos de tanto chorar tomou-a nos braços como se fosse um bebê. 

     - Por que está chorando minha flor?

     Com a voz nasalada Yara disse em prantos limpando o humor aquoso que lhe cobria as faces:
     - Ah, mãe, estou me sentindo tão infeliz! Acho que ninguém gosta de mim...
Esta insegurança, típica de alguém que precisa de cuidados, principalmente carinho, permitiu que a mãe tomasse partido da situação para assumir a sua função de genitora.

     - Isso não verdade, filha querida! Fique sabendo que para mim você é igual a uma pérola, viu!? - disse Estela apertando de leve suas bochechas úmidas.
     Ainda sem acreditar naquele elogio que só mesmo as mães são capazes de fazer, a menina, levada mais pelo próprio instinto, contestou.
     - É, bem eu sei que a Sra. só me diz estas coisa para não me ver triste? - disse encostando a cabeça em seu busto.
     - Não sejas tão incoerente querida! – disse com serenidade - Se eu a comparo com esta jóia da natureza é porque você nasceu assim.

     Veio então a curiosa pergunta:

     - Ah é!? Então pode me explicar melhor este mistério, D. Estela!? 
     Ora, - exclamou a sábia mãe levando-a até a janela com um sorriso nos lábios. – é muito simples meu amor! Você tem idéia de como são formadas as pérolas!?
     Com um leve meneio na cabeça Yara permitiu que a bondosa mãe explicasse esse milagre da natureza. O aspecto em seu rosto juvenil avivou-se.

     - Pois bem, meu amor, uma pérola só começa a ser formada depois que um corpo invasor penetra dentro da concha, onde vive a ostra. A partir de então inicia-se o processo milagroso dessa jóia tão admirada e cobiçada, mas que só mesmo Deus seria capaz de permitir a sua formação.
     - E de que forma acontece isso? - interferiu a filha.

     Muito cautelosa D. Estela logo correspondeu ao pedido usando seus conhecimentos científicos.
     - As conchas são revestidas pelo nácar, produzido em seu interior para proteger a indefesa ostra. E ele – continuou -, por sua vez tem a gloriosa missão de envolver com pequenas camadas impermeáveis qualquer substância que nela se alojar. Um grão de areia é sempre o mais comum. Com isso vai se formando ali uma bolinha, ou então outras formas diferentes com reflexos irisados. Para ser mais clara, parecidos com as cores de um suave arco-íris. 
     Após um certo tempo ela se transformará em uma linda pérola nas mãos...
    
     - Mas, e eu!? - interveio a menina. Qual é a minha participação nesta história!? 
     - Calma, ainda não terminei, mocinha! – disse a mãe tocando levemente o indicador direito em seus lábios. - O fato mais interessante é que apesar da pérola ser encantadora, principalmente aos olhos de nós mulheres, ela é o incrível resultado de um ferimento que foi cicatrizado. 

     Com efeito, se não fosse o terrível incômodo da dor jamais a ostra seria capaz de mostrar tal beleza para quem as colecionam. Por isso filha... - prosseguiu a mãe com brilhante sabedoria. –, nem sempre um sofrimento físico, mágoas, e tantos outros fatores desagradáveis que nos cercam são motivos para sentirmos pequenas diante das coisas grandiosas. 

     Com tanta riqueza de detalhes, o único movimento visível no corpo de Yara era a sua respiração compassada. Mas uma nova surpresa ainda iria deixá-la extasiada.
     - Quantas vezes - prosseguiu Estela em tom sereno. - fui massacrada por incontáveis ondas de calúnias, traições. Me condenaram pela inveja. Fui sumariamente julgada pelos medíocres sem ter feito mal algum. Porém, a tudo isso eu fui aprendendo a responder com golpes de pura afeição. 

     Assim eles foram se transformando em poções mágicas, e eu as classifiquei como membranas de amor. E foi desse jeito que a protegi aqui dentro de mim porque tinha certeza que muito em breve se transformaria nesta linda preciosidade que é você! 
     - Puxa vida mãezinha, você nunca me falou sobre estas coisas...!?
     - É porque eu achava que não teria nenhuma importância para você, querida! Só que ainda não terminei, viu? 

     E continuou.

     - Por isso meu anjo, faça um pequeno esforço e envolva o ranço dos invejosos com películas de amor que nada a molestará. Somente a presença deste sentimento tão nobre envolvendo o teu coração será capaz de neutralizar o veneno destinado à você. Portanto, se fizeres isso sempre será uma eterna jóia que já nasceu brunida para ser admirada e bem querida por quem estiver em sua volta!

     Encerrada a explicação analógica da mãe, ficou claro na menina que aquelas aparentes rejeições eram apenas psicológicas, visto que naquela idade não era de se duvidar que tais desconfianças pudessem envolver suas emoções. A comprovação veio logo a seguir com Yara envolvendo sua cintura com um forte abraço.
     - Nossa, como conseguiu fazer uma comparação tão cheia de verdades assim, mãe? Estou muito orgulhosa de você, sabia!?

     - Foi apenas o instinto de mãe que ainda não havia se manifestado dentro de mim, filha. - respondeu prontamente e depois completou: 
     - Mas fique você sabendo que isto também me serviu de grande lição, viu! Percebo agora como nunca havia notado que você não é mais aquele bebezinho que a alguns anos atrás nem sabia falar, andar ou se manifestar diante das necessidades que envolvem as pessoas, em especial as meninas. - disse correspondendo ao seu abraço.

     Yara ficou encantada com o que acabara de saber.

     - Ah, mas que bom ouvir essas coisas tão bonitas vindas de você, viu mamãe!?
     - E tem mais uma coisa que hoje acabei aprendendo e que será muito útil para quando você ganhar mais maturidade.
     - O que, por exemplo...? - instigou desvencilhando-se do abraço aconchegante.
     - Nem sempre o trabalho nos ensina tudo que precisamos saber na vida - falou emocionada segurando em suas mãos. 

     E selando aquele pacto afetuoso concluiu com um beijo em sua testa. 

     - Jamais se esqueça de uma coisa! Sem amor não existe felicidade!
     
     Durante alguns segundos o silêncio testemunhou dois pares de lágrimas deslizando sobre as faces de ambas. Eram como poções mágicas de nácar derretido simbolizando pérolas de amor.

     Já era noite. Um vento brando entrou pela janela balançando as cortinas. Sobre a penteadeira, entre as bonecas, bichinhos de pelúcia e outras quinquilharias próprias das adolescentes, uma antiga caixinha de música lembrava o formato de uma concha aberta.
Milton Cavalieri
Enviado por Milton Cavalieri em 16/10/2005
Reeditado em 08/04/2008
Código do texto: T60127
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Sobre o autor
Milton Cavalieri
Londrina - Paraná - Brasil, 62 anos
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