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Impressões de viagem – II – Brasileiros e superações


A traquitana tomou impulso, começou a correr pela pista de terra, levantando alguma poeira, o pára-quedas inflado atrás, comendo mais e mais pedaços da pista... Bateu um pé-de-vento lateral e o pára-quedas inclinou-se, a traquitana desviou do curso, entrou sobre alguns pés de soja na beirada e voltou pra pista, reequilibrando-se um pouco aos trancos e barrancos. Quando já dávamos como certa mais uma "abortagem" da decolagem, voilá! – ela deixou o chão e, lentamente, começou a ganhar altura, levando o piloto e meu cinegrafista com a câmera Betacam.

O nome da traquitana é giroplano e o Gilmar é mais que seu piloto, ele é, também, seu idealizador e construtor. Sua paixão por esse equipamento começou em 1982, em Assis, no interior de São Paulo, quando viu a fotografia de um dos primeiros equipamentos desse tipo numa edição da National Geographic. A partir de então, aquilo nunca mais saiu de sua cabeça. A revista ele tem até hoje, meio desgastada pelo manuseio constante e, principalmente, por ficar segura pelos dedos por longos períodos em que ele simplesmente olhava para a fotografia, destrinchando todos os segredos possíveis, imaginando como reproduzir aquele aparelho no interior paulista, numa época em que internet era algo ainda sequer pensado.

Entre a fotografia e o vôo que acompanho agora, passaram-se mais de vinte anos e muitos modelos e protótipos, com erros e acertos. Houve perdas em sua vida, não só patrimoniais como sentimentais, mas o sonho de voar persistiu.

O giroplano passa uma sensação muito grande de insegurança, mas seu piloto, em contrapartida, passa uma grande sensação de segurança. Há muito tempo ele deixou de ser um curioso autodidata para ser um especialista e conhecedor de técnicas de vôo, não só no giroplano, mas também em ultraleves e outros aparelhos. E é esse conhecimento, sem dúvida, aliado ao gosto e cuidados pela segurança, que nos dá tranqüilidade para voar.

Morando em Tangará da Serra, interior do Mato Grosso, a cerca de uma centena de quilômetros de onde estamos, ele frequentemente é procurado para ensinar as técnicas de vôo, fazer exibições, construir giroplanos, ou realizar levantamento cartográfico de propriedades rurais e ainda para fotografar fazendas e casas. É a primeira vez que ele leva a bordo um cinegrafista, e assustou-se com o tamanho e o peso da nossa câmera. Como o cinegrafista, ao contrário do diretor, é leve, mesmo com os mais de dez quilos da câmera ele ainda fica dentro do limite de peso para o passageiro.

Enquanto eles sobrevoam a fazenda gigante, suas instalações e o cerrado original ao redor, penso que fiquei mais admirado com o autor dessa proeza do que com o aparelho em si. Proeza, sim, pois ele chegou até aqui sem apoio algum de fora. Trabalhando com sua própria inteligência e recursos - grande uma e parcos outros. Ele bem poderia ser protagonista de um daqueles programas de tevê americanos, onde o gênio e iniciativa de um sujeito perdido em lugares como Duluth, Grand Rapids, Warrensburg, é destacado, mostrado, elogiado e exportado para o resto do planeta. Não precisaria ir tão longe, mas seria bom que o Brasil conhecesse gente como o Gilmar.


Minhas surpresas, porém, não ficariam só nesse piloto-inventor. Outras viriam.

Em Porto Velho conhecemos o Enoch (ou Enoque?) e voamos com ele em seu ultraleve. Cabe um parêntesis aqui: normalmente voamos em helicópteros sem a porta ou com a câmera fixada numa dispositivo externo e controlada remotamente. Como o custo dessa brincadeira é meio alto, o mais comum é voarmos sem a porta, mesmo. Tal como fizemos, também, em Itacoatiara, a bordo de um Cessna 210. Esses vôos têm lá seus desconfortos, têm lá seus riscos, é claro, mas têm, também, um bocado de emoção (na maioria das vezes não desejada) e prazer. Fora de São Paulo, porém, o custo de um helicóptero é proibitivo. E gravar de avião é complicado devido à instabilidade. Então, para contornar essas dificuldades, nessa viagem gravamos do giroplano, de um ultraleve e também de um avião. O melhor resultado, sem dúvida, foi obtido com o ultraleve, mas nada se compara, ainda, ao helicóptero.

Assim como o Gilmar, o Enoch é outro batalhador e autodidata. Taxista, teve que fazer sacrifícios mil para aprender a voar e, depois, ter seu próprio aparelho. Já não precisa cortar Porto Velho de um lado para o outro a bordo de um táxi para ganhar a vida, pois o trabalho com o ultraleve e as aulas cobrem suas despesas. Mas tem que trabalhar duro e muito, para sustentar a si próprio, a família e o ultraleve, é claro.

E é de seu ultraleve, num vôo tranqüilo e gostoso, que sobrevoamos Porto Velho, cruzando a cidade de um extremo ao outro até o curso do Rio Madeira. Lá embaixo, o enorme comboio de 15 barcaças, transportando trinta mil toneladas de soja, começa a se mover, lentamente a princípio, Rio Madeira abaixo no rumo do Rio-Mar e do porto de Itacoatiara, de onde essa soja da Chapada dos Parecis vai para o mundo.


Alguns dias antes desse vôo, em Ariquemes, interior de Rondônia, vi uma cena que me chamou a atenção na hora e pedi para o Zé Carlos parar o carro: ao nosso lado passou uma geringonça esquisita, um veículo com uma carenagem lembrando a frente das velhas carreteras que corriam em Interlagos, com  um homem e um garoto sentados, confortavelmente, num banco alto dentro da geringonça. Num primeiro momento pensamos qual seria a força motriz daquele veículo, mas ao se aproximarem do nosso carro vimos que a força motriz eram as pedaladas, pois a geringonça era uma estrutura montada sobre duas bicicletas, com direito até a um volante ao invés do guidão convencional.

Os compromissos de viagem, o horário, a agenda, essas coisas todas que nos permitem ganhar a vida, impediram-nos de ficar por ali e papear mais a vontade com os ocupantes da geringonça, mas vimos e ouvimos o bastante para entender. O garoto era o dono do veículo e com ele fazia passeios na cidade, cobrando dois reais cada um. O homem ao seu lado, manobrando satisfeito o volante, era um cliente. E cliente satisfeito, pois era todo sorrisos, passeando orgulhoso pelas ruas de Ariquemes. Mesmo sem maiores conversas, mesmo sem conhecer a história por trás daquela geringonça – nem ficamos sabendo se ela tinha nome próprio – vimos e ouvimos o bastante para descobrir ali, no interior da Amazônia, mais um exemplo da criatividade e dos esforços de que esse povo é capaz.

Também poderia falar aqui do Rodrigo, que nos levou de Manaus para Itacoatiara em seu Cessna 210 Centurion. Sobre ele e esse avião já falei um pouco, mas não custa repetir.  Com 55 anos de idade e 36 de pilotagem sobre a Amazônia, Rodrigo é um cara com muitas histórias e estórias, vividas de garimpos a missões religiosas onde se faz necessária a presença de um tradutor instantâneo – algo, talvez, como aquele negócio que o povo da Startrek usava para falar com povos de outros planetas e naves – e passando por campos de mineração e fazendas onde o capim era plantado sobre as cinzas das árvores, tão logo deixavam de fumegar e esfriavam. Experiência, ali, era coisa que não faltava, pois o Centurion contava com bem vividos 39 anos de vida, todos sobre as águas e florestas amazônicas, ao lado do piloto que já tivera 29 malárias. Experiência de sobra.

E fiquei pensando com meus botões enquanto cruzávamos Rondônia em busca do próximo compromisso, em quantos programas de tevê, em quantos filmes, em quantas histórias poderíamos fazer e escrever só com esses brasileiros que se superam e superam os obstáculos de um país que não reconhece seu próprio valor e o valor de seu povo.


(No blog Um Olhar Crônico - www.umolharcronico.blogspot.com - há outros textos sobre a viagem e na reprodução desse texto há algumas fotos desses brasileiros e suas traquitanas e geringonças.)
Emerson Gonçalves
Enviado por Emerson Gonçalves em 08/02/2006
Código do texto: T109444
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Sobre o autor
Emerson Gonçalves
Carapicuiba - São Paulo - Brasil, 62 anos
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