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PALHAÇO!


Assistindo a TV no Domingo, e diga-se de passagem, quase não assisto TV, me deparei com um documentário feito pelo MV-Bill que estava sendo explicado no programa do FAUSTÃO do dia 26/03/06. O próprio MV Bill estava lá para explicar o feito. Na guerra de audiências, nada mais chamativo do que aquela figura. O Gugu deve ter "subido nas tamancas". Por mim, ele (Gugu) poderia até sair de cena, já que nunca vi algo tão demagógico quanto...

O que me chamou a atenção para a TV foi a imagem do MV Bill, aquele negro com jeito de gente boa, que poucos reconheciam, mas que agora virou celebridade nacional. Esse cara merece nosso respeito, nossa solidariedade e nossos aplausos. Por que? Não é porque ele apareceu no Fantástico, não. Tampouco por ter aparecido no Domingão do Faustão... Não, não é isso!

Pelo que me consta, o MV Bill nasceu no morro, viveu na cidade de Deus e conhece essa triste realidade do tráfico.

O MV (Mensageiro da Verdade) Bill, não revela seu verdadeiro nome a ninguém. Usa, como nome alternativo, o pseudônimo Alex Pereira Barbosa... Escreve letras de músicas achacando a polícia e os bons políticos que temos... Socorro!!! E como nos tempos da ditadura, o mesmo já foi preso, sem nenhuma prova de envolvimento com o tráfico, apenas por estar no morro fazendo o papel que as autoridades deveriam fazer. Mas as autoridades do país hoje estão usando o MV Bill como bengala. Sei que agora nas campanhas presidenciais o material do Bill deverá ser explorado e revirado ao avesso, a fim de conquistarem votos. Mas isso já é de se esperar, já que a hipocrisia dos políticos é coisa que nos causa náuseas.

O importante é que atentemos para os fatos que ocorrem fora de nossos olhos e no subterrâneo de nossa realidade: Aquelas crianças são responsabilidade do Estado, mas também da sociedade que apenas cobra, mas não se dá.

Os materialistas, vulgo egoístas, dirão que só é marginal quem quer ser. Mas isso não é verdade. A realidade que aquelas crianças conhecem ou conheceram é absolutamente contrária à nossa, principalmente os valores que lhe foram passados. Eles fazem parte de uma sociedade excludente, em que o pobre, negro, homossexual, menor que não freqüenta a escola e outros são vistos com aversão pelos seus iguais.

Hoje, fora do regime ditatorial, os governantes são responsáveis por exilar, mais uma vez, repito, seus iguais, já que somos todos civis. Obrigam muitos brasileiros a buscarem a sorte em outro país. Além disso, há mortes e humilhações sofridas por aqueles que mal conseguem atravessar as fronteiras, principalmente para os EUA.

Voltando às crianças, pergunto: Quem ensinou-as a falar? Quem ensinou-as a andar? Quem lhes ensinou a ler? Quem deu a elas alimento, ajudou a vesti-las para escola, sentou junto à mesa para as refeições, evitou que trabalhassem ainda pequenos por conta da escola, quem?
- Quem disse a elas que é proibido roubar, é proibido matar, é proibido vender drogas?
Com toda certeza elas ouviram: Temos fome, ninguém liga pra nós, todos nos consideram marginais....Não temos escolas, não temos direito a saúde, a lazer etc., mas temos direito a vender drogas, a sermos aviões e falcões, a fim de conseguirmos algum "dinheiro fácil".

O que essas crianças dizem? Vamos ver: (comentários feitos pelas crianças, Falcões do Tráfico, no documentário de MV Bill).

"- Eu não fico triste com nada...
- Tô sempre me drogando...
- Eu não sinto nada...
- Se eu morrer vou descansar...
- É muito esculacho nossa vida...
- As vezes dá vontade de se matar, de sumir...
- Todo dia eu rezo, para mais um dia tá vivo...
- Sei lá, eu acredito muito em Deus... Não sei porque, mas acredito".


E ainda o pior: (palavras de uma mãe que perdeu seu pequeno filho para o tráfico):

- Escutei os tiros que mataram o Tiago. Sabe, moço, os tiros foram todos na cabeça.
- Veja essa foto aqui, moço: Ele, só usava o boné assim, virado pra trás.
- Pobre filho, tão pequeno ainda...

- É MUITO DIFÍCIL SE COLOCAR NO LUGAR DESSAS PESSOAS?
- É MUITO DIFÍCIL PERCEBER OU SENTIR NO SEU CORAÇÃO O QUE ELAS POSSIVELMENTE SENTEM? 
- VOCÊ TEM PENA DE ANIMAIS ABANDONADOS? E DE CRIANÇA, VOCÊ TEM?


Infelizmente, o Brasil desconhece que a criança é o seu mais valioso patrimônio. Investir em seu crescimento é projetar crescimento para o futuro de nossa nação. Mas estamos caminhando para uma direção em que espero ser a mesma que está sendo apontada pelo MV BILL a todos aqueles que já não tem mais esperança, mas sonham como o Sergio Fortalece sonhou: Ser Palhaço.

O Caetano Veloso, um dos que, antes desse estardalhaço que aí está, apoiou o MV Bill, apadrinhando o AFRO-REGGAE, disse que Palhaço é uma palavra muito forte... é o que sente uma pessoa que está sendo enganada por outra, enfim, foi mais ou menos assim.
Disse também que a palavra PALHAÇO dita por aquele menino tinha tom de poesia. Por isso resolvi falar sobre este assunto aqui.

A verdade, porém, é que o Sérgio Fortalece fazia parte de um grupo de 17 falcões, quando do início do documentário, e foi o único que sobrou, ou seja, 16 já morreram e ele foi preso assaltando e ainda está cumprindo pena.
Ele tinha um desejo tão pequeno: Queria conhecer o circo.
Sua mãe, quando ele lhe pediu isso, prometeu que o levaria, mas, infelizmente, quando ele tinha apenas 10 anos de idade sua mãe veio a falecer por difíceis condições de vida, deixando as crianças órfãs.

Como será perder a mãe tão pequeno, sem direção, sem parentes, sem orientação?
Mas o menino do morro, Sergio Fortalece, desejou ser palhaço e continua acalentando este sonho, mesmo depois de tanto sofrimento.
Faço votos que o Sérgio Fortalece, o orelhão, consiga mesmo entreter num picadeiro todas as crianças que , possivelmente, farão parte de um novo contexto social, diferente daquele que ele viveu.
Vocês já ouviram falar no caseiro Francenildo dos Santos Costa? É... mais um.
De minha parte, meu sonho é que deixemos de ser PALHAÇOS no palco do Brasil.


Oh, Palhaço!
Sede o mais puro...
O mais engraçado...
Você nos faz rir!
Por que tens uma lágrima
de mentira pintada em seu rosto?
Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!

(Meg)
Amália Klopper



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MEG KLOPPER
Enviado por MEG KLOPPER em 30/03/2006
Reeditado em 01/04/2006
Código do texto: T131269

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