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E SE FOSSE COM VOCÊ (III)

Publico junto com esta parte, as duas primeiras. No final, um breve texto sobre a motivação de escrever esta matéria.


                          ***
                         

Comentando mais tarde com pessoas do bairro, constatei que muito sobre o que fora alertada era verdade.
A igreja local já tentara realizar trabalho com os dois mendigos, em vão.
Foram encaminhados para emprego, moradia, nada deu resultado. Eles não se adaptaram. Um deles,  até é artista, faz pinturas em tela.
Compreendi que devia desistir.
Às vezes, devido ao lixo que se acumulava e ao mau cheiro, eu evitava passar pela calçada. Tenho alergia a alguns cheiros,  causam-me problemas respiratórios.
Passo regularmente por eles, para atividades rotineiras. Estão sempre por ali durante o dia, à noite mudam para ruas mal iluminadas e a penumbra esconde seus vultos. Agora sei que estar ali, na frente da igreja é quase uma profissão, um ofício, os horários de missa e outras atividades religiosas representam o pico de movimento da clientela. Praguejam quando alguma dessas atividades são abolidas.
É claro que esses homens têm história, identidade e que por algum motivo perderam sua referência, se distanciaram da sua essência.
Muitas vezes me vejo perguntando “E aí?”. E a tentativa de resposta cai num vácuo, num buraco negro silencioso.

Como equacionar a consciência social e a nossa impotência frente ao que está fora do nosso controle? Até que ponto a condição dessas pessoas é fruto de uma escolha, de uma decisão convicta? E nós, ficaremos cada vez mais à mercê desse estado de coisas? Como você reagiria,  se esta história fosse sua?.

Um dia, passando próximo ao portão da igreja, tropecei e quase caí. Um deles disse: “Ha., ha., bem feito, quem mandou desviar da gente, só para não passar perto...”

Por mais estranho que possa parecer, a articulação dessa frase completa, expressando raiva, rejeição, poder de observação, me fez pensar que se as ditas abordagens e técnicas especiais fossem aplicadas, quem sabe ... Uma esperança, lampejo de luz,  pisca na escuridão.


Fim.
                       ***


Escrevi este texto porque muitas vezes me questiono sobre estar aqui neste espaço escrevendo. Alguns (eu também) cobram a produção de textos de cunho social.
Por outro lado, sentimos na pele cotidianamente nossas deficiências sociais.  Elas nos escarram na cara as falhas do sistema sócio-político-econômico. Cada vez que leio um texto cravando o dedo nesta ferida, reajo com ceticismo quanto à eficácia de discursos. Eles não atingem o problema, tampouco os solucionam, nem ao menos apresentam, na maioria das vezes, uma  proposta, pelo menos um achismo. Apenas a constatação de uma realidade pontual, uma emoção, um toque de sensibilidade.  Sentimos-nos impotentes diante da magnitude dessas questões.



19/06/2006
                         ***

                       
E se fosse com você?  (I)

Não me conformei com aquele mendigo postado todos os dias no portão da igreja.
Será que nós, crentes num poder superior éramos ineficazes para modificar a vida daquele homem? Como cristãos, achei que tínhamos tal responsabilidade.
Imbuída de fé e boa vontade, fui dialogar com aquele jovem.
Comecei falando da crença num  Criador  e seu interesse pelos homens, a causa de não sentirmos seu poder nas nossas vidas, o seu sonho de amor pela humanidade.
Não pude continuar. A ira tomou conta daquele jovem. Disse que achava muito fácil  eu me preocupar com eles (eram dois),   deitada na minha cama limpa e quentinha.
Informei-lhe que perto dali havia um albergue e a nossa comunidade atende às sextas-feiras pessoas carentes, oferecendo banho, cortes de cabelo, consultas médicas, papel, envelopes e pessoas para escreverem cartas, almoço, leitura da bíblia, etc.
Revolta, ódio e sentimentos incompreensíveis tomaram conta do jovem.
Disse-me para não continuar falando,  para eu me afastar imediatamente,  sob pena de levar um soco, que eu não estranhasse se sofresse atentado de vida quando andasse por ali à noite. Além disso, eu fui falar com o responsável pela igreja, o que prejudicaria o acordo que havia de eles não incomodarem os transeuntes.
E mais: ele jamais se misturaria com freqüentadores de albergue, muito menos com aqueles carentes atendidos pela comunidade.

Continua...

                         ***

E se fosse com você? (II)

Fiquei chocada, mas não me dei por vencida.
Falei com o responsável pela igreja, fiquei sabendo da tentativa de modificar a situação deles, mas que o caso era considerado irreversível.
Insisti. Telefonei para igrejas evangélicas notoriamente eficazes na recuperação de casos difíceis. Vemos notícia todos os dias na mídia sobre o imenso trabalho realizado no setor. Pois bem, o pastor atendeu-me prontamente, perguntando-me se existia alguma igreja sua atuando na região.  Confirmei a existência. Então, continuou ele, certamente já havia sido feito um trabalho com aqueles mendigos e se eles continuavam, o caso era considerado sem solução.
Aconselhou-me, por fim, nunca mais tomar a iniciativa dirigir-me a criaturas nessas condições, por muito perigoso. A abordagem de homens, mulheres e até crianças  nessas circunstancias exige técnicas e aprendizado especiais, não deve ser feito por uma pessoa sozinha e sim em parceria.  Fez-me prometer nunca mais tomar tal iniciativa, era muito perigoso. Dissertou sobre a revolta e o ódio que tais pessoas guardam dentro de si, pela sua história  de vida e vicissitude por que passaram ou até mesmo porque nunca tiveram o aprendizado de valores e conceitos usuais num outro tipo de vida.
Continuou, muitos se envolvem com drogas, fazendo parte da  malha intrincada e perigosa do crime.
Senti horror, medo e indignação tomando conhecimento da complexidade do caso com o qual a sociedade convive e até  alimenta, já que algumas senhoras dão dinheiro todos os dias e quando não o fazem se justificam, menos por caridade, mais por medo.

Continua ...

                        ***
DIANA GONÇALVES
Enviado por DIANA GONÇALVES em 19/06/2006
Reeditado em 19/06/2006
Código do texto: T178152
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
DIANA GONÇALVES
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