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A Festa das bonecas

Como a vida da gente é engraçada, não? Estava aqui vendo este desenho e me lembrei que eu e mais duas amigas, tínhamos entre 7 e 6 anos de idade mais ou menos e naquela época brincávamos na rua, não tinha trânsito... apesar do ônibus passar na porta, o tempo era tanto de intervalo entre um e outro que chegávamos a armar uma rede de volei quando tínhamos entre 12 e 13 anos. Mas, isso é outra história... Perto de casa tinha um jornaleiro, que sempre implicava com a gente...
ele era um tanto "retardado" e "fanho". A voz era fina e anasalada; dá para imaginar? Quase não entendíamos o que ele falava... era um custo! E nós, na nossa meninice, como todas as crianças, tínhamos a mania de o imitarmos.
Ele havia sofrido um trauma quando criança, viu uma pessoa matar outra, pelo menos era a história que nos contavam e o que era incomum de se ouvir falar nesse tipo de violência naquela época. E, por causa disso, sempre misturávamos nossas gozações com um tanto de pena dele. Ele tinha uma banquinha de revistas usadas em frente a casa dele, que ficava exatamente em frente à minha, que era de esquina.
Nossos pais compravam revistas, foto-novelas, gibis e as revistas de artistas e aquilo ia juntando, muito... toda semana íamos lá e, para não jogar fora a gente dava para o Tuca, o tal do jornaleiro.
Como sempre estávamos inventando coisas para brincarmos, fazíamos os aniversários das bonecas, com tudo que tinha em casa ou que encontrávamos na rua, como pedrinhas, forminhas, papéis, fitas, entre outros. Não haviam muitos brinquedos nesse sentido como hoje em dia que tem de tudo, até a casa da boneca vem com banheira e hidromassagem, roupa de gala, e tudo mexe, fala e as bonecas são lindíssimas. Nananinanão... era tudo feito por nós... com retalhos de tecidos daqui, pedacinhos de fita dali, e os aniversários tinham bolo, velinha e convite... tudinho feito por nós. Era uma festa, antes, durante e depois. Porque já planejávamos o aniversário da outra e lá íamos nós, criando e inventando histórias.
Foi numa dessas festinhas que tínhamos pensado em fazer que achamos que poderíamos usar um bolo de verdade e convidar os meninos(nossos irmãos). Mas, como faríamos para comprar velinhas de verdade? E os doces? E o lugar? Nossa, o que fazer??!!! Chegamos a uma conclusão: não tínhamos dinheiro.
A primeira sugestão: pedir para os pais... humm... já sabíamos a resposta: Não tem! Todas nós éramos simples e ninguém tinha dinheiro ou era bem de vida, todos lutavam muito para sustentar a família então, como fazer?
- Já sei, disse uma de nós, que já não lembro mais quem foi, vamos vender revistas!
Pronto! Concordamos de imediato... o Tuca não ia comprar de nós, ele nunca comprava revistas, o máximo que fazia era trocar duas por uma ou mais, dependendo da raridade ou o quanto você desejava a que ele tinha. Solução: montamos nossa própria barraquinha.

E, lá saímos nós. Primeiro à caça das revistas, as nossas próprias, depois dos amigos e vizinhos foi aí que lembramos da Dona Alexandrina, ela era uma chata e sempre implicava conosco por causa da correria na rua mas, tinha dia que ela estava de bom humor e nos tratava um pouquinho melhor, sabíamos que ela sempre comprava revistas novas. Não tivemos dúvida, tocamos a campainha e esperamos desta vez .
Era outra coisa que fazíamos para chateá-la, tocávamos a campainha e saíamos correndo, e como minha casa era na esquina e a dela na outra rua, nunca tinha certeza de qual das três tinha apertado o botão... só ouvia as risadinhas ao longe. Isto é, nem sei se ela ouvia mesmo, achávamos que era um tanto surda por isso é que, ao tocar a campainha o dedo sempre ficava alguns segundos a mais do que o normal.
Lá veio ela, nos atendeu bem aquele dia e nos deu um montão de revistas. Juntamos tudo, e aí como expor as revistas?
Arrumamos alguns varais de barbante outros de arame liso, prendemos na janela de casa e ajeitamos uns caixotes de madeira que também fomos procurar na feira, três banquinhos e as revistas à mostra, ficamos lá papeando e esperando os fregueses...
O Tuca, só ficava olhando... ia até a esquina com aquele barrigão que ele tinha (naquela época ele devia ter uns 30 a 35 anos mas, agia como criança mesmo). Era bem magro e usava calças de suspensório e parecia que ele tinha comido uma melancia, a barriga não era normal, era imensa em relação ao corpo. E lá ia ele... da esquina até a banca dele e só na mira da gente... e a gente ria, ria tanto que a Zeni... mijona pra caramba, logo tinha de sair correndo para ir ao banheiro.
Nos primeiros dias foi uma beleza: trocamos algumas revistas, e organizamos os turnos para podermos ir almoçar e fechar a "banca". Aí começaram os problemas... vinha um e dizia, posso dar uma olhadinha? Claro, era a resposta. Posso levar e depois trago? Como era a vizinha... lá foi a revista. Outra pessoa, a mesma coisa... e como a gente era amiga de todo mundo ficávamos sem jeito de cobrar qualquer coisa. O pessoal pensava que estávamos brincando e a gente levando a sério... tiramos até foto do nosso "primeiro negócio" .
Até que durou bastante... uns 15 dias mais ou menos, até a gente montar tudo levou aproximadamente 10 dias, sábado e domingo não abriu... trabalhamos duro mesmo uns 3 dias. Sem dinheiro para fazer a festa das bonecas, desmontamos a banca e como não tínhamos para quem dar tudo aquilo... decidimos que ia tudo mesmo era para o Tuca. Ele ficou tão contente por acabarmos com a concorrência, que nos deu um montão de bombinhas, fósforos coloridos e estrelinhas de festa junina. Nossos pais, vendo nosso esforço em ganhar o próprio dinheirinho resolveram fazer a festa, e tinha pipoca, quentão, pé-de-moleque, pinhão, bolo e sanduiches. Foi uma delícia e a senhora festa!!! Acho que nenhuma de nós esqueceu até hoje...

27/07/03 - 14:40 h
Rosy Beltrão
Enviado por Rosy Beltrão em 25/05/2005
Código do texto: T19635
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Sobre a autora
Rosy Beltrão
Estados Unidos, 62 anos
155 textos (31364 leituras)
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Rosy Beltrão