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AmAnheCer

O alvorecer anuncia uma manhã sem nenhum calor ou deslumbre, de mendigos entorpecidos que ocupam os bancos dos jardins cobertos de orvalho e mal-iluminados pela debilidade dos holofotes públicos onde cães sem dono freqüentemente param para urinar, cabisbaixos e sem um bálsamo para a plasticidade dos ossos de mentirinha que teimam em carregar por entre os dentes. Não rosnam para não violar a abstinência de ruído. Não latem porque o silêncio é mero coadjuvante da chuva.

E enquanto a água se acumula no asfalto gasto e fétido, os adultos acordam com todas as responsabilidades montando em suas costas e tornando-lhes cada vez mais sorumbáticos. Não dão bom dia às crianças. Apenas cumprimentam-se apaticamente entre si, enquanto os peraltas permanecem imóveis com os seus olhinhos esbugalhados e uma broa do tamanho no céu na mão, conformados com o castigo de terem que despertar junto com os pais para se divertirem com as suas professoras cafonas e encalhadas.

Então, o ronco do motor de um ônibus tenebroso e seu guia desdentado excita as mães volúveis e que primam por abarrotar as merendeiras dos rebentos com um sanduíche de atum ou pacotes de bolacha de morango e suco natural de frutas. Calorosas, se despedem dos meninos tão logo eles adentram a lataria mocada, esboçando um aceno desgracioso e denunciador de uma carência afetiva tão vasta quanto os salários dos seus maridos.

Os homens, burocráticos como o diabo, saem para trabalhar, mas jamais se lembram de lacrar a pasta de dentes, ou de descer a tampa do vaso sanitário. Pressurosos, suspendem as braguilhas com um pedaço de pão dormido na boca. Não se despedem das esposas com um beijo, porque preferem agarrar bolsas portáteis atulhadas de papéis supostamente importantes, mas que, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente, irão se perder entre os lixões da cidade grande.

E, pólos separados que são, tomam os seus rumos felizes e satisfeitos, cumprindo de maneira perfeita os seus papéis de estereotípicos politicamente corretos.

As crianças fazem algazarra e sujam o fardamento escolar com baba e bala.

Os esposos fingem manter relevantes contatos de negócios, mas vivem a cantar as secretárias e mudar o assunto para os gols da última rodada.

E, por fim, as donas-de-casa lotam os supermercados e os salões de beleza com a sua balela inconfundível.

No fim do dia, o ocaso anuncia uma noite sem nenhum calor ou deslumbre, de mendigos ateus, matagais sombrios e cães esfomeados. E embora o silêncio permaneça sendo um mero coadjuvante da chuva, a vida só recomeça ao amanhecer.
Angello
Enviado por Angello em 23/08/2006
Reeditado em 23/08/2006
Código do texto: T223682
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Sobre o autor
Angello
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
13 textos (432 leituras)
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Angello