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SOBRE HERÓIS E ANTI-HERÓIS

O cinema abriu meus olhos
para o verdadeiro heroísmo
 

     Quando eu era garoto, e olha que agora já faz um bom tempo, de vez em quando passava um daqueles “filmes de guerra” na TV – “Os canhões de Navarone”, “Midway”, “O vôo da águia” e outros menos marcantes – e, estranhamente, eu gostava. É claro que já se fez bom cinema tendo a guerra como tema, e não é preciso chegar à “Lista de Schindler” ou ao “Resgate do Soldado Ryan” pra exemplificar. Muito antes, a guerra já rendia bons filmes. 
     Tenho a consciência, com meus olhos de hoje, que havia muito de propaganda do heroísmo das forças armadas naquela exibição freqüente de filmes de guerra na TV, durante os anos 70 e início de 80, mesmo que os heróis fossem os americanos e ingleses lutando contra os nazistas e japoneses. Ditadura militar tem dessas coisas – algum tipo mais sutil de tortura, que semeava uma espécie de respeito por aqueles caras de uniforme, que estavam prontos para bater de frente com o inimigo, a qualquer momento. 
     Minha mãe, no Dia das Crianças ou no Natal, comprava aqueles sensacionais soldadinhos de plástico, com caminhões de plástico – os mais baratos mesmo, porque a gente não tinha grana. E era uma das minhas brincadeiras favoritas, naquele complexo inevitável de filho único que brinca sozinho, fala sozinho, inventa amigos e inimigos imaginários. Eu criava minha guerrinha particular e seguia a vida. Um forte candidato a militar ... 
     Pois deu tudo errado, até mesmo nas intenções da minha mãe de me ver com aquele uniforme branco de marinheiro. Em dado momento, a brincadeira acabou e, não sei bem quando, tomei consciência do horror da guerra. Acho que foi quando conheci o pai de um colega de colégio, que passava boa parte de seus dias ainda nas batalhas de FEB na Itália. Ele simplesmente não tinha se desligado dos seus meses na guerra. Um olhar distante, uma expressão que não se traduzia – e, vez ou outra, um surto, que deixava a família e a vizinhança em sobressalto. 
     A adolescência trouxe a consciência de que vivíamos numa Ditadura Militar, que os presidentes generais se sucediam sem que a gente pudesse opinar, que aquilo era um fenômeno regional, afetando Argentina, Chile, Uruguai, tudo em volta – militares no poder, excessos do poder, crimes do poder. Aquela brincadeira de criança perdeu a magia, porque gente morria de verdade – e a guerra não era declarada, nem era contra um povo distante, era entre nós mesmos, os de uniforme contra o resto. 
     É claro que depois, esse maniqueísmo foi sumindo – nem todos os militares eram torturadores, nem todos os guerrilheiros eram santos, nem tudo é como parece ... Sei apenas que quem tem o porrete não precisa usar palavras para machucar ninguém, basta bater. Por conta da decepção que tive com meus soldadinhos de plástico, com os heróis da Guerra no Pacífico, nunca mais consegui ver os militares como uma coisa boa. E sempre me pergunto - será que alguém acredita no poder de nossos militares contra uma possível invasão americana? 
     Além disso, o cinema, que antes só mostrava os feitos heróicos dos militares, passou a mostrar o outro lado – e eu poderia ficar aqui listando dezenas de bons filmes, desde “Apocalipse Now” e “Platoon” a coisas como “A casa dos espíritos”, ou filmes brasileiros como “Pra frente Brasil”, “Nunca fomos tão brasileiros” e até mesmo “O que é isso, companheiro?”, bem inferior ao livro de Gabeira. 
     Só que nem o cinema hollywoodiano superproduzido e realista, nem o cinema tupiniquim de protesto e baixo orçamento conseguem falar tão bem, tão fundo, sobre heróis e anti-heróis, sobre a verdadeira face da guerra e da ação militar, quanto dois documentários que assisti nos últimos anos: “Senta a pua” e “A cobra fumou”. 
     O primeiro, de Erik de Castro, conta a luta dos pilotos da FAB no front da 2ª Guerra. O segundo, produzido pelo mesmo Erik de Castro, e dirigido pelo jovem Vinícius Reis, faz um link sobre a atuação da FEB na guerra, e a vida dos ex-pracinhas hoje em dia, gente com mais de 80 anos, que sobreviveu a várias batalhas e que carrega toda aquela carga emocional dentro do peito e da cabeça. Tem quem fale que a participação dos soldados brasileiros na guerra foi pífia, marketing do Getúlio, ou até mesmo “bater em bêbado”, porque os alemães já estavam entregando os pontos. Só que para quem viveu aquele inferno, o buraco era bem mais embaixo. 
     Quer saber o que é heroísmo? Que tal um piloto brasileiro morreu em combate fazendo a sua 40ª missão, quando os ingleses voltavam para casa com 10 missões? Ou oito brasileiros, em seqüência, perdendo uma, ou até as duas pernas, enquanto faziam o impensável trabalho de reconhecer o terreno, por conta das minas deixadas pelos alemães – todos de um único destacamento. 
     Quer saber o que é dor? Que tal ouvir o relato de um pracinha que, ao ver em uma estrada os corpos de 12 companheiros, mortos durante uma batalha, jurou cuidar dos mortos brasileiros naquela guerra, e que vive desde o fim da guerra em Pistóia cuidando do monumento aos soldados brasileiros mortos. Ou a dor nos olhos de outro soldado, que viu a dignidade aviltada de uma italiana – uma mulher casada que pediu ao marido para que saísse do quarto, para que ela “se deitasse” com o soldado, em troca do dinheiro para a sobrevivência da família? Uma dor tão grande, que fez com que o soldado fosse embora sem fazer sexo, depois de deixar com a família a comida e o dinheiro que tinha. 
     Os dois documentários não douram a pílula – não mostram a guerra como algo glamuroso, repleto de heróis e vilões. Nem tentam fazer dos soldados brasileiros bufões ridículos que foram lutar contra um inimigo previamente derrotado. Erik de Castro e Vinícius Reis têm a virtude de mostrar o lado humano da guerra – de quem foi, de quem voltou (ou não). E de deixar claro que a guerra, qualquer guerra, é um mal sem medida, onde vitoriosos e derrotados sempre perdem. 
     Em tempos de Bush posando de Hitler, reconhecer a dor sem tamanho de uma guerra na história de brasileiros é uma emoção forte, que de certa forma devolve a dignidade aos meus soldadinhos de plástico e aos meus sonhos de menino.

(Direitos reservados ao autor. Publicado pela primeira vez em 09/02/2005 no blog do autor)
William Mendonça
Enviado por William Mendonça em 17/09/2006
Código do texto: T242592
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Sobre o autor
William Mendonça
Tanguá - Rio de Janeiro - Brasil, 47 anos
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