CAPÍTULO XXXII - Diário Poético-Sentimental de Uma Greve: Curiosidades, Emoções e Poesia na Greve do Judiciário Trabalhista Mineiro

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

(Ferreira Gullar)

22 de junho. Depois de alguns dias ausente dessas minhas anotações, torno a dar continuidade ao presente diário da greve do Judiciário Federal.

Vou falar hoje das palavras de ordem da greve. Palavras de ordem são aquelas gritadas por todos os participantes durante as manifestações e que, de uma forma ou de outra, deixaram as suas marcas em nós e na própria greve.

Muitas vezes essas palavras vão embaladas ou acompanhadas por algum tipo de rima, servindo também para animar o grupo e fazer aflorar a unidade entre os manifestantes, proporcionando-lhes uma voz de conjunto.

Vejamos algumas das principais palavras de ordem utilizadas nesta greve:

- PCS Já.

Palavra de ordem de maior importância e freqüência durante toda a jornada da greve. Na vigília iniciada no dia 22 de junho diante do STF, manifestantes vindos dos vários estados do Brasil, desenharam essas palavras com velas acesas no pátio externo daquele Tribunal. Essa palavra de ordem pautou também todos os dias da greve.

Em relação à referida vigília, foi ela encerrada com a apresentação de um grupo de quadrilha e comidas típicas das festas juninas de São João.

- Ô seu Peluso, negocia e valoriza a categoria.

- Acorda Peluso! Negociação Já!

Essas duas palavras de ordem procuraram demonstrar a intimidade e a parceria dos manifestantes com o Presidente do STF.

- Acorda Peluso! Negociação Já!

- Direito de greve merece respeito, corte de ponto eu não aceito.

Essa se refere ao corte de ponto e de salários proposto pelo TST e por outros Tribunais espalhados pelo Brasil. O próprio Superior Tribunal de Justiça, entretanto, já começa a rever essa questão. Os ministros do STJ já se posicionaram contra o desconto de salário na greve do Ministério do Trabalho. Também em Santa Catarina o TRT se dispôs igualmente a negociar os dias parados. E, finalmente, o Tribunal Pleno da 15ª. Região suspendeu o corte de ponto que havia sido proposto e efetivado anteriormente. Com a suspensão do desconto, uma nova folha de pagamento já está sendo rodada pelo setor de pagamento de pessoal e a devolução dos valores descontados será feita provavelmente no início do mês de julho.

- Ô seu Peluso, qual é a tua, por que tu não atravessas a rua?

Esta palavra de ordem vai direcionada também ao presidente do STF e faz menção ao fato de que esperávamos que ele colocasse o “nosso PCS” debaixo do braço – como o fez a admirável Ellen Gracie quatro anos atrás – e se encaminhasse até o gabinete do Presidente Lula para negociar o plano e a forma de pagamento.

- Vem/vem para a greve, vem/que o PCS é seu também.

Grito de luta criado pelo servidor Nilson, da Justiça do Trabalho da cidade de Juiz de Fora.

- Brasília já está na greve: agora só falta você.

Essa palavra de ordem faz menção à vagarosa entrada em greve dos servidores de Brasília e ao momento em que isto ocorreu.

- Revisão salarial já.

Chamada constante do site do Sintrajusc (Santa Catarina).

- PCS já, eu quero, eu luto.

Faz parte da página do Sintrajud (São Paulo).

- Greve, tá na hora da pressão.

Palavra de ordem constante do Sintrajufe (Rio Grande do Sul).

- PCS 4, aprovação já, sem alterações.

Palavra de ordem do Sinjufego (Goiás).

- PCS, a luta continua.

Palavra de ordem expressa sobre muitos dos bolos de aniversário de um e dois meses da greve do Judiciário por todo o Brasil.

- Conciliar é legal. Na Greve também.

Palavra de ordem extremamente criativa do SINTRAJUSC, Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal no Estado de Santa Catarina e baseada no próprio conceito “conciliar é legal” criado e divulgado pelo Judiciário brasileiro.

Este sindicato iniciou essa campanha junto aos servidores das três Justiças Federais. Mais direcionada ao TRT da 12ª. Região, a campanha busca pressionar a direção do Tribunal a firmar um termo de compromisso para a negociação dos dias parados no período de 6 de maio a 17 de junho de 2010, nos mesmos moldes do termo firmado em 3 de dezembro de 2009, quando ocorreu a primeira greve pelo atual PCS. Parece que um acordo nesse sentido já começa a se fazer real.

- Não devemos nos esquecer, finalmente, da “Ladainha do PCS”, música e letra composta e gravada pelos servidores do Piauí.

Essa é a palavra de ordem totalmente musical. Ela se espalhou por todos os estados da Federação como a “música” da greve. Vão abaixo os primeiros versos desse xote pra lá de arretado:

Quem não greva não merece PCS

E sem greve o governo agradece

Quem não greva o movimento enfraquece

Se a coisa for assim só a gente é que padece

Vem pra cá pra discutir o PCS

É reunindo que a nossa luta cresce

Luís Antônio Matias Soares
Enviado por Luís Antônio Matias Soares em 14/09/2010
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