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Paralelas

Naquela manhã, levantei-me com uma intensa vontade de fugir, escapar das duas paralelas, entre as quais eu deveria estar durante pelo menos quatorze horas do dia, de todos os dias.
Embora havendo sabonete aberto para o banho, decidi tomar outro do armário, de marca, cor e perfume diferentes. O shampoo acabou sendo o mesmo. Descuidara-me de providenciar outro frasco.
A espuma perfumada do sabonete sobre a pele, e o perfume que dele emanava, fez-me esquecer por momentos de que eu era eu mesma. E não sendo eu, todo o dia seria vivido de forma diferente.
Fui lenta ao tomar o café. Café de coador, hoje, ao invés do café solúvel de sempre. Mamão ao invés de banana. Bolacha de água, no lugar do pão.
(Pão nosso de cada dia, que irrita às vezes).
A roupa... Bom, quanto à roupa, teria um pequeno trabalho. Nada novo para vestir. Somente um conjunto de saia e blusa cor-de-rosa. Presente de minha mãe. Nem sabia se cairia bem... Pus. Uma puxadinha na saia, até chegar aos joelhos, um ajustezinho no decote. Perfeito, porque era diferente de mim. O sapato, não houve jeito, todos tinham a cara do meu pé.
Ia já saindo apres... Não. Tinha que ser devagar, como se eu tivesse muito tempo e pudesse deixá-lo escoar por entre os dedos. Pensei que poderia sentir os minutos nas mãos. Talvez fossem eles frescos, gelados, como cubos de gelo.
Ao tomar o elevador, cumprimentei com cordialidade o senhor calvo. Tentei sorrir, embora sem vontade, mas tinha que ser diferente, nisso também.
O trânsito era o mesmo. Infernal. As paralelas queriam voltar, mas eu me dava conta, e com esforço afastava-as de mim.
Quando cheguei ao local marcado para o curso, o recepcionista disse ignorar sobre o fato. Telefonei para saber. A pessoa empurrou-me para outro departamento, pois lá deveriam saber.
Lá fui eu, mantendo com sacrifício as paralelas afastadas. Esperei. Tive que esperar muito por outra pessoa e por outra. Isso não dependia de mim.
A incompetência repetia-se, e as paralelas voltavam. Atrasei-me. A incompreensão e estupidez de uma outra pessoa. As paralelas voltaram.
Então, desisti. As paralelas correm onde há seres humanos.
Terminei o dia entre as linhas rígidas, enquanto meu relacionamento com o mundo. Pude afastá-las quando sozinha comigo mesma. Quando eu pude ser eu mesma, diferente de mim.
Izabel Martho
Enviado por Izabel Martho em 23/06/2005
Código do texto: T27008

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Sobre a autora
Izabel Martho
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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Izabel Martho