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O bundamole

Você conhece o bundamole? Não? Ah, não tá perdendo nada, exceto a ocasião de ter pena da mediocridade dele.
Conheci um que morreu atropelado porque a “molicite aguda” tomou conta de todo o corpo do sujeito, e ele, amolecido, não se aprumou o suficiente para correr e se livrar do carro em alta na rodovia.
Já havia nascido o verdadeiro espécime, sabe? Quando o médico deu o tapa para ele expelir o primeiro ar dos pulmões, a mão do parteiro grudou na bunda dele igual ao dedo de padeiro na massa do pão.
Aquilo não foi nada em comparação com o que aconteceu na escola: a cadeira encaixou direitinho nas nádegas amolecidas. Foi se levantar para o recreio e aquele rabo estrambótico lhe seguiu no traseiro, para diversão geral da escola. Tadinho! Deu um dó!
Não concluiu curso algum porque tinha o cérebro amolecido e os pais o mandaram arrumar serviço. O empregador o submeteu a um teste inusitado: “Vá para debaixo daquela árvore no outro lado da rua, reflita uma hora e volte para me dizer no que pensou”. Ele foi. Voltou. Contou tudinho. Ganhou a vaga. No dia seguinte, quis saber a razão pela qual o empresário o havia contratado, sem que apresentasse qualquer experiência, e ouviu a seguinte explicação: “Mandei você fazer a mais absurda das coisas, você não questionou, foi e fez o que eu havia pedido. Mostrou-se obediente, e isso bastou para vir para o lado de cá”.
Empregado, desejou casar. Esbarrou com uma também bundamole da vida e com ela cruzou os trapos. Tinha de ter filhos, mas quem disse que a fatídica “molicite” deixava? Num arranjo com a mulher, combinou de ficar um mês dormindo longe, para que a bundamole da esposa pudesse se servir da duricite ativa do vizinho e com ele fazer gêmeos, logo na primeira vez. Não é que deu certo? Passado o tempo costumeiro, o bundamole apareceu na praça com dois bundamolinhas, um em cada mão –moles. È fácil entender a situação: bundamole tem o couro cabeludo mole e os chifres nascem facinho.
Desde então ele foi levando a vida na bundamolice. Quem chegasse à casa dele o veria na cozinha, fazendo aquela comidinha que a bundamole da mulhermãe dele não dava conta de fazer. Outra hora ele passava a roupa, limpava o chão e banhava os bundamolinhas. E a barriga mole crescendo igual bexiga na boca de menino desocupado. Nada de anormal porque o homem tem de fazer todo tipo de serviço, mas obedecer servilmente à mulher assim, sem que a dita fizesse nada para dividir tarefas domésticas, aí já era exploração invertida. Mas ele fazia e sorria. Verdade que o sorriso esparramado e mole era mais a expressão de bobo da corte. E assim tudo aconteceu, todos os dias.
Certa vez, bundamole ganhou uns livros. Perguntado o que havia entendido do conteúdo dos presentes, disse: “Bem, eu não li, mas minha vizinha leu. Segundo ela, o livro ‘A’ é muito ‘y’; o livro ‘B’ é menos ‘X’”.
Não era só opinião própria que o bundamole não tinha. Ele não sabia o que conquistar do mundo. Por isso a vida sempre lhe deu “qualquer coisa” e ele sempre se satisfez. Tanto é que ele foi enterrado envolto em folhas de bananeira: se por quase nada batalhou, quase nada foi o que a vida lhe ofereceu, segundo as leis medíocres da mais perfeita mediocridade.

Wilson Correia
Enviado por Wilson Correia em 01/12/2006
Reeditado em 01/12/2006
Código do texto: T306372

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Sobre o autor
Wilson Correia
Amargosa - Bahia - Brasil
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Wilson Correia