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TERTÚLIA DAS AVARIAS

Crónica de
Assis Machado

Realizou-se mais uma animada Tertúlia no transacto dia seis de Novembro. Dia que traçou o seu devir dentro duma pacífica calmaria de Outono.
Teve lugar mais uma vez no Auditório Carlos Paredes, à Avenida Gomes Pereira, em Benfica. Eram dezassete e quinze minutos quando cheguei e já estavam na área, prontas a actuar, três tertulianas combativas. Uma delas, como não podia deixar de ser, era América Miranda.
Entrámos cedo no Auditório. Já havia acabado de se realizar mais um ensaio de gente jovem. Agora era a nossa vez. Foi travada uma luta com o tempo para preparar, como é óbvio, os instrumentos e o ambiente.
Não estava casa cheia, todavia as pessoas presentes foram mais que suficientes para dar sentido à Sessão. Iniciou-se esta com a intervenção de América Miranda que, como sempre, criou espectativas justificáveis para que o ambiente fosse o melhor. De início gerou-se um leve contratempo, pois que ainda não tinham chegado os Programas encomendados. Mas, para que não fosse criado um impasse desnecessário, a apresentadora passou a anunciar o primeiro interveniente. Como é óbvio, logo aqui surgiu uma pequena lacuna. Devido à ausência dos textos do Programa saltou-se por cima do ”tradicional começo” : não foi cantado o Hino da Tertúlia. Da ocorrência, é certo, ninguém se lembrou. Todavia estava programada a abertura daquela forma. Em alternativa, poderia ter sido cantado no encerramento, facto que seria perfeitamente normal.
Mas, como dizíamos, entrou em cena o primeiro interveniente. Tratou-se do fadista Mário Rodrigues. Dentro da normal competência e prestígio interpretou dois fados de sua autoria. Todos se agradaram da sua interpretação que foi muito aplaudida.
A seguir actuou a fadista Flora Silva que, com toda a vivacidade, brilho e acutilância quanto baste , nos brindou com dois excelentes textos do seu prestigiado reportório. Foi correspondida, naturalmente, com muitas e merecidas palmas.
Ambos se fizeram acompanhar por dois guitarristas de qualidade que, para além da sua perfomance, nos ofereceram dois pequenos instrumentais de graciosa interpretação, o que foi muito apreciado.
Chegaram, enfim, os famigerados e requeridos Programas que, apressada e subrepticiamente foram distribuídos pela plateia.
Entretanto América Miranda anunciou mais um interveniente de qualidade. De sua graça Júlio Roberto. Tradicionalmente, bom intérprete e declamador, desta vez, fugindo do Programa, optou apenas por desbobinar um breve acervo de considerações acerca da qualidade e importância do papel desta Tertúlia, no contexto das Letras e das Artes em Portugal, não deixando de realçar, justamente, o papel determinante da poetisa América Miranda. O seu testemunho sábio e oportuno foi muito estimado e aplaudido.
De seguida a presentadora chamou ao palco o actor Mário Jorge que, com bastante empenho e mestria nos presenteou com duas declamações do seu larguíssimo reportório. Muito apreciada e aplaudida a sua prestação.
Chegou a vez da primeira actuação do cantor Humberto de Castro que, com play back de fundo, interpretou com o seu tradicional à vontade, dois belos temas de sua autoria, que muito agradaram à audiência.
Aproveito para dizer que até aqui já havia acontecido uma sequência de diversas avarias : ora os micros não estavam devidamente sintonizados, ora as suas hastes não se aguentavam na sua estrutura de apoio, ora a estante das partituras não se mantinha fixa, como lhe competiria, ora os óculos do cantor não estavam no sítio certo, ora as luzes do palco não coincidiam com o lado mais a jeito do servidor, enfim, parece que estava prevista a Sessão ter estas características.
Contudo o espectáculo continuou ou não estivesse ao leme uma exímia e imperturbável timoneira chamada América Miranda.
Subiram ao palco, nesta sequência, alguns tertulianos que, com todo o empenho apresentaram positivamente as suas prestações. Assim, respectivamente, Armando David, Amélia Marques, Perpétua Matias, Lurdes Agapito e Eugénia Chaveiro brindaram-nos, cada um por sua vez, com dois textos poéticos de fino recorte. No geral, foram boas as suas actuações.
Chegou agora a vez de América Miranda chamar ao palco a autor desta Crónica que, como melhor pôde, interpretou ao vivo e à viola duas canções que julgo terem agradado, pois muitas foram as pessoas que acompanharam quer com palmas, quer cantando, os respectivos refrões. Foi bom para animar e aquecer um pouco o ambiente.
Neste momento entra em cena, para nos ofertar uns bons laivos de poesia viva : a presidente América Miranda. Os seus textos, riquíssimos como sempre, foram declamados com a mais alta competência, nomeadamente o CÂNTICO NEGRO de José Régio, o qual foi aplaudido de pé por todos os presentes.
O momento anterior foi tão esfusiantemente vivido que quase toda a gente se ia esquecendo de uma das mais constantes e prestigiadas tertulianas. E o seu nome estava no Programa. Foi mais uma oportunidade da nossa contrição que teve o seu papel decisivo nesta ocorrência. Maria de Lurdes Ferreira de seu nome subiu ao palco assim, quase no final, com mais pompa e circunstância e reforçada com os preclaros encómios por parte da nossa distinta apresentadora. Acabou por ser ouvida com emocional atenção por toda a plateia, saindo assim mais enriquecida da sua actuação.
Quem ferveu em lume brando foi Humberto de Castro, a quem competia fechar a Sessão com mais dois temas cantados da sua lavra. Tendo como desiderato sine qua non estar na Gulbenkian, para se deliciar com um programa de balet, o tempo urgia e estava-se a tornar quase incompatível. Ainda por cima a nossa apresentadora havia chamado já, mais uma vez, pelo nome do autor destas linhas. Na contingência possível declamei dois temas poéticos de curta estrutura para não provocar mais instabilidade no cantor. América Miranda nem se apercebeu, penso eu, desta procela.
Todavia Humberto de Castro com a sua têmpera e paciência de lutador destas galáxias lá tirou mais duas belas interpretações que foram a delícia dos ouvidos presentes.
E assim chegou ao fim esta Tertúlia das Avarias que, sem a calma e experiência de América Miranda poderia ter sido um descalabro. Mas não. Pelas palavras finais ditas com frontalidade e pragmatismo a nossa apresentadora e Presidente mostrou-se satisfeita pelo convívio que acabava de ter lugar, convidando todos os presentes a voltarem na próxima Sessão e que, se possível, possam trazer muitos amigos.


Assis Machado
FRASSINO MACHADO
Enviado por FRASSINO MACHADO em 01/12/2006
Código do texto: T307108
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
FRASSINO MACHADO
Odivelas - Lisboa - Portugal
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